vergonha de ser vira-lata.

vergonha de ser vira-lata.

Marcelo Rubens Paiva

13 de agosto de 2012 | 12h12

 

No papel, parecia tudo perfeito.

Entra gari sambista sorridente, ensinando o gringo a dançar samba.

Será que eles sabem que aquele é 1 gari?

Vem os Kaiapó numa roda. Marisa Monte canta Villa-Lobos. Conhecem? B Negão, “Maracatu Atômico”, de Jorge Mautner, imortalizado por Chico Science. Sobem passistas de maracatu. Seu Jorge faz o malandro carioca. Canta grande sucesso de Simonal. Encerram com “Aquele Abraço” de Gilberto Gil. E Pelé ovacionado.

Lindo.

Fugindo dos clichês.

Para que não viu, foi assim que o Brasil se apresentou na cerimônia de encerramento dos Jogos de Londres.

Que sem medo de ser POP, exibiu depois de mais de 3 horas todos os clichês possíveis, do BIGBANG ao táxi preto, num palco por onde passaram OSASIS, THE WHO, PET SHOP BOYS, MUSE, INXX, SPICE GIRLS, JESSIE J, desfilaram as modelos e foram lembrados BEATLES, DAVID BOWIE, FRED MERCURY, JOHN LENNON, com citações do TALIBAN, de SHAKESPEARE, e CHURCHILL.

Enfim, tudo aquilo que nós, os mais de 1 bilhão de telespectadores, conhecemos daquele país, admiramos ou não.

O Brasil mostrou tudo aquilo que nós admiramos do nosso país, mas que os quase 1 bilhão de espectadores desconhece- tirando Pelé, claro.

A festa SAMBA DO CRIOULO DOIDO, organizada por DANIELA THOMAS e CAO HAMBURGUER, foi emocionante, mas me leva a uma pergunta: por que temos medo dos nossos clichês?

Queremos mostrar que somos mais do que eles nos veem.

Que temos mais do que mulheres peladonas, de biquíni, lambada e Michel Telo.

Queremos apresentar a quem não conhece CHICO SCIENCE, que cimentou a ponte entre o rock deles e a nossa tradição.

Queremos ensinar. Acho horrível querer ensinar algo a alguém numa festança. Soa pedante.

No mais, era apenas uma festa. Vai, DJ, toca a que todos conhecem.

Não sei se este complexo de vira-lata acabou surtindo o efeito contrário.

Temos medo do POP?

Onde estava TOM JOBIM? O Cristo? A galera na praia? O coco? A favela? E Carmem Miranda?

Onde estava a arara azul do filme RIO? Os corredores de Formula 1?

Giselle Budchen não pôde ir?

Poderiam até zoar com ZÉ CARIOCA, a lembrança do entulho da SEGUNDA GUERRA. Ora, Churchill estava lá.

Zoar com as bananas.

Cadê Ary Barroso, zoado por eles em muitos filmes, inclusive BRAZIL [Monty Phyton, que estava lá]?

Por que um sósia do Ronaldinho Gaúcho não tirou uma onda deles e fingiu que ia centrar a bola, fazendo um gol sem querer?

Parecemos aquela família de classe média que, quando o patrão vem jantar, encomendamos a janta do restaurante mais chique do bairro, quando ele queria justamente comer o nosso prato tradicional.

Bem, os ingleses mais que ninguém sabem ser POP.

Nós também sabemos.

Nosso CARNAVAL é a prova.

Mas preferimos ser chiques, do que nos comunicar com o mundo.

Fomos lindos, mas blasé.

Era apenas uma festa, não uma aula.

A festa do crioulo chique.

Não tenho vergonha de ser vira-lata.

Sou mesmo.

Somos.

E eles gostam da gente por isso mesmo.

 

Tendências: