vem aí

vem aí

Marcelo Rubens Paiva

30 de maio de 2012 | 18h09

A peça é de 2000, foi 1 sucesso.

Ganhei até o Prêmio Shell de melhor texto com ela.

O que deixou mamãe bem orgulhosa, apesar de reclamar que a peça tinha muitos palavrões, e o protagonista usava Havaianas.

Aliás, uma rotina: ela sempre reclamava dos palavrões da minha obra.

E dos figurinos das minhas peças.

Dizia que meus atores eram mal vestidos.

E que quem vai ao teatro quer ver coisa bonita, caprichada.

Minha mãe é uma pessoa fina, sofisticada, fala línguas, estudou em escola francesa.

Advogada, tradutora, especialista em Dostoievski e nos Iluministas.

Uma lenda viva.

Tadinha, só a envergonhei com minhas peças cabeludas e provocativas.

E meus elencos com roupas do dia a dia.

Sem contar os personagens degenerados, drogados, sexistas, tarados, vagabas…

Eu dizia que era teatro naturalista, que o figurino ajudava a compor o personagem.

Ela dizia que mesmo assim 1 ator jamais deveria atravessar um palco com sandálias em que aparecessem as unhas.

O filme está prontinho.

Roteiro meu e do Lusa Silvestre.

Acho que nossos nomes aparecem no cartaz lá no cantinho.

Em destaque, só os das gostosas e galãs.

Talvez com um zoom consiga vê-los.

Mas, e daí?

Eles que são do front de batalha.

Nós apenas escrevemos a declaração de guerra.

Ator é a alma do teatro, comédia e drama.

E do cinema também, acho.

Aguarde…

Mas já vou avisando, é produção carioca, deve estar assim de neguinho descalço, de sandália, de unha aparecendo.

 

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