vão ter fim?

vão ter fim?

Marcelo Rubens Paiva

21 Fevereiro 2010 | 14h44

corte seco

A peça CORTE SECO, lotando no SESC ANCHIETA, graças ao boca-a-boca, é uma experiência teatral daquelas que marcam e nos leva a refletir sobre a relação palco-platéia-, verdade-representar, personagem-nós mesmos, histórias-mentiras.

É como um teatro IPod, repleto de histórias curtas ligadas no shuffle.

A luz de serviço [da plateia] permanece quase todo o tempo acesa. Os atores começam o espetáculo na plateia, com roupas comuns, que trazem de casa.

Cadeiras no palco indicam: DIÁLOGO, NARRAÇÃO, INTERIOR. E a equipe técnica está no palco, conduzindo a peça, orientando, mandando os atores randomicamente trocarem de cena, cortarem, começarem outra, através de senhas [números].

Cada espetáculo é um espetáculo diferente. Atores trocam de papel, de fala. Somem do palco, vão embora do teatro, voltam.

Televisores os mostram no camarim, na rua, pelos corredores do teatro. Por vezes, eles se chamam pelo nome verdadeiro.

No entanto, por trás de toda a armação, histórias são contadas, com a emoção a pino: o filho homossexual que tenta revelar ao pai a sua opção, pai que o repele; o irmão que cobra a desaparecimento do outro, enquanto cuida do pai moribundo; o casal que se separa justamente quando a adoção tanto esperada de um filho é aprovada; o aluno abusado sexualmente pelo professor; a mãe alcoólatra; a morte interrompendo projetos, e por aí vai.

É difícil ver uma peça desconstruir todas as regras e encantar.

E seduz por uma razão muito simples, e que há milênios se mantém como regra fundamental de qualquer espetáculo: contam-se ótimas histórias.

LEPAGE sabia disso há muito, como BRECHT. Não basta inovar a carpintaria teatral. É preciso partir do básico e falar o que interessa, comover, seguir uma linha dramática que prenda.

Contar histórias.

Falei aqui há uma semana das peças em cartaz que nos colocam e nos tiram do palco, avisando: escuta, estamos apenas representando uma peça, somos atores.

PLAY, IN ON IT, A NOITE MAIS FRIA DO ANO e CORTE SECO aproximam e afastam o público para a “realidade” da mentira.

Conversei sobre isso com a CHRISTIANE JATAHY, diretora [e idealizadora] de CORTE SECO. Será que o teatro vive uma crise tão grande que nos faz afastar dele fazendo-o? A linguagem se desgastou, por isso a desconstruímos? O público brasileiro, sufocado pela teledramaturgia, precisa de reeducação dramática?

Pode ser. No fundo, estamos é jogando com o público, que é o que nos interessa.

A obra da Cia Vértice de Teatro, que encerra a trilogia da diretora [Conjugado, de 2004, e A Falta que nos Move, de 2005], fica mais poucas semanas no SESC ANCHIETA. Mas deve continuar em outro teatro.

Uma peça dessa não deveria sair de cartaz tão cedo.

 

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Vou chamar DDdrim Dddrim

E os passeios da barata pela casa vão ter fim

Vão ter fim.

DDDrim, DDDrim. …

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