vamos brincar?

vamos brincar?

Marcelo Rubens Paiva

21 de outubro de 2010 | 18h01

Duas peças em São Paulo que valem a pena.

HELL, baseada no livro sensação da francesinha LOLITA PILLE [um entojo, segundo quem a conheceu na recente visita ao Brasil, para participar da FLIP], que narra a rotina de drogas-compras-baladas-sexo-drogas-e-mais-compras da juventude rica de PARIS, que mora no “sezième”.

O livro foi adaptado por BABENCO e MARCO ANTONIO BRAZ para o teatro. Difícil missão de escolher qual aspecto abordar de uma trama sem trama, de um desabafo na primeira pessoa com uma auto-ironia digna de grandes personagens.

Bárbara Paz e Ricardo Tozzi protagonizam a adaptação em cartaz no teatro do SESI-SP, com direção do cineasta.

A menina rica ironiza a plateia o tempo todo. Desfila sua coleção de grife. Narra os encontros com as amigas, bestializadas pelo consumo. Cura a ressaca de baladas recheadas de pó e vodka fazendo compras em lojas de grife na Champs-Élisee.

E baba para cada PORSCHE que passa. Prefere o carro alemão a uma FERRARI.

Como no livro, começa: “Eu sou uma putinha. Daquelas bem insuportáveis. Da pior espécie. Meu credo é ‘Seja bela e consumista'”.

PAZ é uma atriz completa. Trabalha o corpo e a voz como poucas. Sou seu amigo e fã há muito. Passa uma densidade que surpreenderia a própria autora. BABENCO escolheu pela dramaticidade intensa da narrativa. Uma escolha, entre tantas possíveis. Brinquei com ele depois: “Você argentinizou o livro.”

Com uma luz sofisticada [focos e blecautes], da grife FELIPE HISCH, é teatro de alto nível.

A outra peça é DUETO PARA UM, de Tom Kempinski, em cartaz agora no TUCA ARENA, com direção de MIKA LINS.

Escrita em 1980 e em cartaz ainda em vários países [foi filmada em 1986 com Julie Andrews e Alan Bates], é em termos inspirada no drama da violoncelista britânica Jacqueline Mary du Pré, que se casou com o pianista e maestro Daniel Barenboim e, no auge da carreira, teve esclerose, parou de tocar e morreu aos 42 anos.

O autor imaginou como seria se du Pré [BEL KOVARICK] fizesse terapia. E escreveu a peça como se houvesse 6 sessões com um psiquiatra fã de música clássica, Dr Feldman [MARCOS SUCHARA].

Lá estão as crises de uma mulher diante da sua deterioração física e as etapas da doença. A inicial euforia causada por antidepressivos receitados. E a falta de sentido que a vida toma aos poucos.

Vale pela entrega da atriz, que chegou a pesquisar com o pianista JOÃO CARLOS MARTINS, que perdeu o movimento de uma mão.

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E hoje abre em São Paulo a 34ª. MOSTRA INTERNACIONAL DE CINEMA, o evento mais esperado do ano [por mim].

Filas?

O truque já está disseminado: escolher filmes sem legenda [ou melhor, com legenda eletrônica]. Pois são aqueles que dificilmente entrarão em cartaz.

Evitar os legendados e célebres [WODDY ALLEN, SOPHIA COPPOLA, RODRIGUEZ], que entram em cartaz depois.

E seguir o instinto.

Já vi filmes incríveis, que nunca entraram em cartaz, na base do acaso.

Aliás, esta é também uma das graças da MOSTRA.

É como descobrir ovinhos que o coelhinho da Páscoa escondeu no quintal.

Bem, você sabe onde pesquisar: www.mostra.org

Tem duas semanas. 

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