Uma outra São Paulo

Marcelo Rubens Paiva

08 Outubro 2015 | 11h42

Pediram para eu blogar na íntegra minha coluna citada no New York Times: http://mobile.nytimes.com/2015/10/05/world/americas/mayor-fernando-haddad-of-sao-paolo-strives-to-ease-gridlock.html

Ela foi publicada no Estadão sábado 26/09

 

 

Na adolescência, eu não entendia São Paulo. Não sei se alguém entendia. Era uma fria e enevoada cidade húngara encravada nos trópicos. Entediante e inexplicável. Hoje, ferve.

Vivi de uma infância e pré-adolescência praiana no Rio e em Santos. Vim morar aqui no ano em que se inaugurou a primeira linha de metrô (1974). Crianças do meu bairro não brincavam nas ruas, não faziam do asfalto a quadra de um futebol improvisado, camisas contra sem-camisas. Nas calçadas não se empinavam pipas, nem tinham campeonato de bola de gude.

Ninguém andava de bicicleta. Ninguém tinha bicicleta. Aos fins de semana e férias, as ruas ficavam desertas. Itanhaém, Praia Grande, Santos, Guarujá e Litoral Norte, lotados. Alguns iam para sítios e fazendas do interior. Ou para as montanhas de Campos do Jordão.

Quem morava na periferia mal convivia com quem morava na região central. As pessoas eram caseiras. As pessoas queriam andar de carro, não a pé. Tudo era para o carro. Era o desejo maior. O maior símbolo de ascensão social. As pessoas faziam de tudo para ter um carro e um telefone.

Adolescentes jogavam pingue-pongue no prédio, botão no prédio, fumavam escondidos nas escadarias. Alguns prédios começaram a ter espaços para não se saírem dos prédios, grades e guaritas para dificultarem a entrada. Alguns prédios viraram condomínios, miniclubes com quadras, piscinas, salões de festas, academias de ginástica, até saunas.

Era um ato de rebeldia ser skatista. Compensados de propaganda sobre placas de ruas que arrancávamos no meio da madrugada eram serradas, lixadas, ganhavam rodas de poliuretano, que se vendiam na Vila Mariana, e viravam skate. As pessoas tinham serrote em casa.

As ladeiras de Perdizes-Sumaré logo foram tomadas. Milhares de adolescentes invadiam as praças íngremes para descer ou observar outros moleques descerem as ruas num skate fabricação-própria. A polícia passou a reprimir, chamada pelos moradores. Invadíamos a rua vizinha. Os moradores chamavam a Prefeitura, que instalava lombadas.

Minha turma radicalizou e passou a descer as ruas íngremes dos Jardins. O ponto alto era a Ministro Rocha Azevedo, um abismo em formato de alameda. Sempre de madrugada. Porque não tinha ninguém de madrugada nas ruas da húngara capital. Nem carros. Só nós e eventualmente a polícia.

Os bairros não se comunicavam. Eram nítidas as diferenças de sotaque da zona norte e da leste, mais italianado. Na zona sul, como no ABC, falava-se como se fala no interior, puxando o erre. Na zona norte, o rock era o punk. A zona sul recebia influências da música negra americana. Leste era do samba do seu Nenê. Na zona oeste, o rock era progressivo, sob as asas dos Mutantes.

Se um sujeito entrasse numa máquina do tempo nos anos 1970, não reconheceria a cidade hoje. A desordem urbana é a mesma. Ainda se vive mais tempo dentro de carros do que nas calçadas. Mas agora eles são questionados.

Nos condomínios-clubes algo virou espaço gourmet. Pizza ainda é a paixão do domingo. A rivalidade entre os times aumentou, ficou mais violenta; não se assiste mais a jogos de times de amigos com amigos, para ver craques em ação. O Pacaembu perdeu o protagonismo (mas ganhou um baita museu). O MASP faliu. O Museu do Ipiranga está fechado. Deverá reabrir só em 2022, ano do bicentenário da Independência. Os restaurantes chineses sumiram.

São Paulo se internacionalizou. Milagre: turistas brasileiros e estrangeiros vêm conhecê-la, andam pelas ruas. Esbarra-se com gente falando em inglês, francês, espanhol pelas calçadas. Tem camelôs haitianos vendendo em francês nas esquinas. Tem muitos africanos passeando aos fins de semana pelo centro. Tem homens de negócio estrangeiros em almoços executivos. O Bom Retiro que já foi judeu virou coreano e agora boliviano.

São Paulo ainda lembra uma grande aldeia, que acolheu a cultura europeia, afro, árabe e oriental e se americanizou. Mas o que a transformou definitivamente numa outra cidade foi o metrô integrado a trens e corredores de ônibus, cujos tentáculos alcançam zonas profundas e socialmente díspares, a democratiza, rompe muros segregacionistas, penetra em guetos, une as classes que ocupam enfim as calçadas e praças, dia e noite.

Dê um rolê num fim de semana. Estações cheias. Gente, festa, cores, despojamento: caleidoscópio miscigenado. A Paulista virou um parque. Começa a ser fechada aos domingos, como cariocas fecham há décadas a orla e o Aterro aos domingos e feriados, como nova-iorquinos fecharam a Times Square.

Agora tem bicicleta em toda parte, alugadas ou próprias. Uma infinidade de ciclistas em toda a parte. Ciclovias tomam espaço de vias, como em todas as grandes cidades do mundo. Bicicleta agora se chama modal.

Tem menos livrarias, mas as que resistiram se tornaram maiores e vivem lotadas. Têm ônibus às madrugadas. Metrô fecha à 1h aos sábados. O Kilt demoliram. Mas ele reabriu do outro lado da rua. E mais sofisticado. O Riviera também voltou. Mais sofisticado. Abriram o mirante do túnel 9 de Julho. A Augusta está cheia de prédios, que agora são chamados de “torres”.

Skate agora é “SK8”, tem diversos tipos, de diversos tamanhos. Tem praças só para seus praticantes, “picos”. Já é um dos esportes mais praticados do mundo.

Fecham o Minhocão aos fins de semana, que vira um parque, como o High Line de Nova York. Até pensam em demoli-lo, como fizeram em San Francisco e no Rio (com a Perimetral). Querem fechar a Sumaré aos domingos. O que era impensável. Querem fechar também as avenidas Carlos Caldeira Filho, no Campo Limpo, a do Mar Paulista, na zona sul e a Rua Benedito Galvão, na leste.

Aliás não se diz fechar, mas abrir. Fechar para os carros, abrir para a população. Ainda falta muito. Faltam os rios. A gente chega lá.