um país sem revoluções

um país sem revoluções

Marcelo Rubens Paiva

07 de maio de 2014 | 13h00

 

Filme GETÚLIO, de João Jardim, é um filme feito sob a máxima do cinema: se a imagem falar pelas palavras, dispense-as.

O autor precisava de algo que mostrasse a completa devoção entre o chefe de segurança, Gregório Fortunato, o “anjo negro”, figura polêmica, que formou uma rede de corrupção nos porões do Palácio e ordenou o atentado contra Carlos Lacerda, e o presidente Getúlio Vargas.

Simples.

Num comício, em que nem escutamos direito o que Getúlio diz, em câmera lenta, Gregório aparece e, com um pequeno pente, arruma os poucos fios de cabelo de seu protegido, sem interrompê-lo.

GETÚLIO é uma aula de cinema e de História.

Nos conta passo a passo por que o suicídio dele era inevitável.

Figura bizarra que rasgou duas Constituições, tornou-se ditador, namorou o fascismo, lutou pela democracia na Europa, foi deposto por militares, e retornou eleito com apoio dos comunistas, que perseguiu implacavelmente uma década antes.

Pressionado, Getúlio não poderia simplesmente renunciar? Fugir? Resistir?

Tinha medo de ser preso, deposto, humilhado.

Dizia que só sairia do Catete morto. Lembramos de Allende.

Mas ninguém imaginava que preparava minunciosamente a própria morte, pesquisava com seu médico onde era o coração e encomendava o Carta Testamento a seu ghost writer, Luis Maciel.

Getúlio, como Jango, não resistiu, evitou um “banho de sangue”, evitou o confronto necessário, a revolução.

Como dizia Lacerda, nos anos 1960, “revolução no Brasil é como casamento francês, sem sangue.” [piada lembrada por Otavio Frias Filho na piauí].

Getúlio apenas adiou por dez anos a ditadura que viria em 1964, aberração política que conseguiu depois unir inimigos históricos como JK, Jânio, Jango e Lacerda.

Entrou para a História. Mas não modificou seu roteiro.

 

 

Jânio renunciou, para confrontar as forças ocultas sem confrontá-las.

E Jango fugiu do Rio, onde tinha apoio, foi a Brasília e depois a Porto Alegre.

No dia seguinte, fugiu do País.

Dom Pedro I também renunciou na calada da noite e fugiu.

Dom Pedro II se exilou sem resistir.

O Congresso não aprovou as Diretas em 1984, e enrolamos nossos cartazes, que enfeitaram comícios com milhões de brasileiros, resignados.

Na nossa História, poucos se dispõe a heroísmos.

É um País dos conchavos, não dos confrontos.

Dos conformistas.

Paradoxo de um País cristão, cujo mártir da Inconfidência foi enforcado sozinho.

 

+++

 

Genial o ator Tony Ramos.

Parabéns, cara.

Aula de interpretação.

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