Um excelente irmãos Coen da Netflix

Um excelente irmãos Coen da Netflix

Marcelo Rubens Paiva

25 Novembro 2018 | 11h53

Netflix ataca o cinema sem piedade.

Produziu um filme dos irmãos Coen, The Ballad of Buster Scruggs, desprezando a rede de exibição e distribuição.

Ou seja, um filme com cara de filme (enquadramentos longos) que homenageia o cinema, mas que praticamente não foi para o cinema, Estreou em Cannes agora em agosto de 2018; ganhou melhor roteiro.

Ficou pouquíssimo tempo numa rede minúscula de exibição, exatamente para ser inscrito em prêmios de cinema e estrear em Cannes.

E, pode acreditar, está na lista dos melhores irmãos Coen.

São seis histórias de lendas do Velho Oeste. Seis histórias diferentes, unidas pela mesma trama: a trágica e patética conquista do oeste americano.

As duas primeiras são bem-humoradas.

Buster Scruggs, um cowboy americano bom de voz e melhor ainda de mira, percorre o Monument Valley em busca de uma mesa de pôquer, outra de suas habilidades. Mas o figurino, todo branco, e sua cara de bonzinho são poucos convidativos, em que todos tem que fazer cara de mau.

Acaba humilhando seus detratores. Tim Blake Nelson é incrível na interpretação.

No segundo episódio, outra comédia, um azarado cowboy (James Franco), está na hora errada no dia errado, metendo-se com quem não deveria, e acaba sendo julgado por algo que não fez. Começou indo assaltar um banco em que nem deveria entrar.

Começam os episódios de humor negro, como Meal Ticket, sobre um garoto sem braços e pernas que ganha a vida declamando Shakespeare magistralmente em cidadelas do Velho Oeste, All God Company, em que um garimpeiro (ele, o grande Tom Waits) descobre o paraíso e uma pepita gigante, The Gal Who Got Rattled, que retrata a dureza de peregrinos que atravessam numa caravana terras indígenas para ocuparem o Oregon, e The Mortal Remains, em que cinco viajantes numa diligência falam de casos, religião e valores.

Sim, os títulos, que costumam ser traduzidos ou adaptados por distribuidores, são todos em inglês.

As referências a clássicos do cinema aparecem em todo instante, na trilha e no cenário.

O conflito que explica o sucesso do gênero, a luta solitária do bem contra o mal, uma obsessão do fundamentalismo religioso, parte da ocupação de uma terra que não era deles, a busca pela riqueza escondida, que não os pertence, a ausência do Estado, a vastidão do território a ser explorado, a busca por um estado unificado de ética, fizeram e fazem a América ser o que é.

Programão.