Um amigo bolsonarista tem razão

Um amigo bolsonarista tem razão

Marcelo Rubens Paiva

20 Novembro 2018 | 13h10

 

 

Tenho um amigo bolsonarista que me disse, num bar: “Abusaram, Marcelo”.

Num ponto, ele tem razão. Me fez concordar com ele- que tem uma editora de livros de arte.

Reclamou da crise. Perguntei se, num país em que livro para a maioria é decoração, e as livrarias quebram, os “coffe-table books” não estavam em alta.

A Lei Rouanet acabou com o seu negócio. Entupiu o mercado de livros inúteis, que ocupam o volume necessário para quem quer um coffe-table book; que sai de graça para o editor e o consumidor, quebrando a dinâmica do mercado.

Só a escultora Bia Doria tem quatro livros apoiados pela lei, Raízes do Brasil, Bia Doria, Flor da Terra e Preto no Branco.

A biografia do Fagner, Quem Me Levará Sou Eu, captou até março R$ 300 mil do patrocinador Café Três Corações, contou o colega Jotabê Medeiros, autor da incrível biografia Belchior: Apenas um Rapaz Latino-Americano, numa matéria na Carta Capital.

“Quem me segura é o povo, nunca achei que devesse recorrer à lei de incentivo. Lei é para quem não tem grande vínculo com a massa, para artista que está começando”, disse Fagner numa entrevista a Silvio Essinger (O Globo, 31 de agosto de 2013).

Nunca a usei para escrever ou publicar um livro.

Economistas, banqueiros e artífices do neoliberalismo, como Andrés Esteves e Arminio Fraga, já a utilizaram para financiar projetos de amigos e parentes.

A Lei nº 8.313, de 1991, foi a forma que o governo federal  (leia-se Collor) encontrou para apoiar e subsidiar a cultura, transferindo para a iniciativa privada o dever da escolha.

Era a germinação do ideal da meritocracia: o critério “qualidade” seria decisório.

Não interferiam mais critérios políticos ou “brodagem”.

Ou seja, seria uma decisão de profissionais do mercado, com contrapartidas (na maioria das vezes, mal cumpridas).

Porém, privatizaram a brodagem, e a corrupção comeu solta.

Virou financiamento de biscoito fino e também lavagem de dinheiro, em que até igrejas queriam mamar.

Empresas davam 100 e pediam 50 de volta. O produtor cultural tinha que produzir notas-frias. Problema dele.

O mercado foi entupido de porcaria. Assim como as coffe-tables.

O bom e histórico teatro comercial brasileiro, que vivia de bilheteria, não conseguiu concorrer com a produção financiada por milhões da Lei Rouanet para pagar os profissionais e alugueis dos teatros.

Só Fagundes consegue sobreviver sem ela (obrigado, amigo, por se manter firme).

Teatros foram ocupados por musicais americanos. Graças aos milhões da lei que capta, o Cirque du Soleil derrubou a lona do nosso maravilhoso e tradicional circo.

A lei é boa e necessária: usa recursos públicos de renúncia fiscal do dinheiro de todos nós, conhecido como Tesouro Nacional, para financiar feiras de livros, festivais de cinema, grupos de dança de prestígio internacional, museus, exposições.

Mas sofreu um abuso que meu amigo eleitor do Bolsonaro constatou na pele.

Tenho amigos bolsonaristas. Saio, tomo cerveja com alguns deles.

Nunca me afastei de nenhum petista ou bolsonsarista. Ao contrário, os poucos que tentaram romper a amizade comigo, eu reatei na base do diálogo e respeito democrático.

No fundo, sou legitimamente plural (republicano), com críticas (pesadas) aos dois lados da polarização.

O mundo quebra a cabeça para entender o bolsonarismo.

É confuso. Jair já tretou com países consumidores históricos, quer ler o ENEM antes, chamou gente do Temer, o condenador do adversário e outro que considera preocupações com o clima coisa de marxista.

Quer alterar decisões do Supremo e, se não sabe quem chamar, chama um militar.

Para entender, continuo a tomar cerveja com alguns deles.