tv or not tv

tv or not tv

Marcelo Rubens Paiva

02 de março de 2012 | 01h48

Os camarins de uma emissora são a fórmula para entendê-la.

Bem, por um tempo, foram.

Maquiavam apresentadores.

Fonoaudiólogos treinavam vozes.

Penteados e figurinos os colocavam em sintonia com a imagem do equilíbrio.

Evitavam cores fortes e camisas listradas, que atrapalham a transmissão.

Preparavam o cenário para transformar estúdio em cozinha, sala, mesa de debates.

A luz estourada evitava sombras. Ainda há uma obsessão de diretores e iluminadores pela destruição da sombra e iluminação do nada, como se no mundo ela não existisse ou atrapalhasse a harmonia visual dos ambientes.

Segunda obsessão era pelo tripé, como um quadro de museu, para não atrapalhar o que era dito.

Era grande a dificuldade de convencer técnicos a deixarem o tripé na viatura.

Nos anos 80, com a portabilidade dos equipamentos, a era do tripé ficou para trás.

Na produtora Olhar Eletrônico, atual O2, o câmera Fernando Meirelles era até o personagem Valdeci, do repórter Ernesto Varela (Marcelo TAS).

Interagiam.

O objeto eletrônico, que no fundo era o espectador, emitia opiniões, chacoalhando “sim”, “não”, “talvez”.

Havia a missão: descobrir uma nova linguagem para TV, torná-la mais humana, informal, próxima do telespectador, que não tinha o topete de Sérgio Chapelin, nem a voz poderosa de Cid Moreira, e que aprendia a emitir opiniões.

Não tinha reflexão no apresentador.

Reflexão = humanidade

Quando se veem hoje apresentadores irreverentes, sabe-se que o processo de transformação começou lá trás. E não era gratuito.

Era a geração que queria votar para presidente e tudo mais.

Seguia princípios ideológicos, como tudo que é relevante nesta vida.

Muitas vezes, é tão simples fazer história.

 

 

Mas quem diria que um programa anti-TV, ou não TV, o gênero reality show, estaria no horário nobre da maioria das emissoras?

Primeira leitura: gente comum disputando grana e fama das grandes estrelas; uma Revolução Francesa na tela; o fim dos privilégios de uma aristocracia que dominava o meio há décadas.

Porém, a mensagem não é compartilhar, unir, fratertiné, mas destruir o outro cidadão para, sozinho, conquistar o grande prêmio.

Como?

Muita traição e complô.

É um paradoxo dentro do outro.

O participante do reality show aprendeu.

Sabe que faz parte de um jogo, em que pessoas ditas normais fingem que vivem a “vida real”, mas estão interessadas na busca da capa da revista e do paredão alheio.

Para isso, precisam eliminar (prejudicar), guilhotinar, como numa era de terror midiático.

Cidadãos disputam o melhor corte de cabelo, brigam com chefes de cozinha, choram quando são derrotados, enfrentam provas que demonstram “superação”, costumam ser humilhados, aceitam as regras.

Mas não é apenas falta de inteligência- ou excesso de músculos, narcisismo e tatuagens dos personagens- que agride o telespectador.

É a mensagem de individualismo, que nada tem a ver como mundo de hiperconectividade, redes sociais, militância online e preocupações com sustentabilidade que os novos tempos despertam.

As pessoas querem agregar, repartir, não se aproveitar das fraquezas de outros.

O mundo mudou.

 

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E saber que foram vários os LEÕES

 

 

 

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Se esta propaganda saísse hj, o Conar diria que há preconceito contra os gordos?

 

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