Tropicália e nós

Tropicália e nós

Marcelo Rubens Paiva

28 de setembro de 2012 | 10h55

 

Alguns clássicos ainda são remasterizados e relançados em vinil, como Transa do Caetano, destaque nas mega livrarias- quase não existem mais lojas de discos.

Confesso que se eu reiniciasse minha coleção de LPs  começaria por ele.

Duas músicas eram reproduzidas como hinos de repúblicas estudantis no final dos anos 1970, que sabíamos de cor e cantávamos nos entorpecendo, bebendo, cada um com um instrumento:

Back in Bahia, de Gil, em que se aumentava no refrão “hoje eu me sinto como se ter ido fosse necessário para voltar, tanto mais vivo de vida mais vivida, dívidas e dúvidas pra lá e pra cá”

It’s A Long Way, do disco que não saía das vitrolas da nova esquerda, Transa, libelo juvenil tão urgente quanto Love Will Tear Us Apart (Joy Division) e Smell Like Teen Spirit (Nirvana).

A esquerda de dez anos antes não entendia “nada, nada!”

Caetano e Gil, sim, mudaram a nossa cabeça para sempre.

Tudo o que queríamos era cantar com os amigos numa jam desafinada: “Hey brothers, say brothers, it’s a long, long, long way, it’s a long, long, long way, long, long, long, long. It’s a long road.

Se bem que nas repúblicas mais alternativas, ou de drogas mais pesadas, o disco Araçá Azul era o indispensável.

Como numa em que morei, em que um estudante virou padre, dois morreram de HIV [um deles o lindo menino Zé Otaviano, que passa na foto abaixo], outro virou professor de teatro, e eu, hum… ainda com dúvidas pra lá e pra cá.

 

Campinas -1978

 

“Eu não queria ir pro festival, não sou escoteiro”, disse Caetano sobre o convite para tocar no Isle of Wight Festival- enquanto amargava o exílio em Londres-, no documentário do amigo Marcelo Machado, Tropicália, daqueles filmes que caras da minha idade choram e saem do cinema com um turbilhão de imagens do passado invadindo a procura do carro no estacionamento, o caminho pra casa e o sono.

Que, como Simonal – Ninguém Sabe O Duro Que Dei, Raul – O Início, O Fim e O Meio, Uma Noite em 67 e Titãs – A Vida Não É Uma Festa, mostra a força desse gênero que, definitivamente, aprendemos a fazer.

Especialmente com a aliança do que temos de melhor, a música.

Numa das imagens, Tropicália resgata os brasileiros subindo timidamente no palco do festival em que tocaram Joe Cocker, The Who, Bob Dylan, Jimi Hendrix, Chicago, The Doors, The Who, Miles Davis, enquanto o locutor informava para centenas de milhares: “Vamos dar boas-vindas a um grupo de artistas brasileiros que não pode se exibir no seu país por motivos políticos.”

Mal sabiam que era “o” grupo de artistas brasileiros que malandramente sintetizava todos eles e vomitava de volta com temperos de forró, bossa nova, samba, batidas de macumba, maxixe, maracatu, fado, frevo, xote, repente.

 

Unicamp - 1980

 

 

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