Triste demais aposentadoria de Letterman

Triste demais aposentadoria de Letterman

Marcelo Rubens Paiva

04 de abril de 2014 | 12h24

 

O anúncio da aposentadoria de DAVID LETTERMAN deu um nó na minha cabeça.

O anúncio dominou ontem as redes sociais.

 

 

E garanto que muita gente foi para a cama e sentiu já nostalgia e um certo vazio.

Sem ele todas as noites, há 33 anos, comandando o LATE SHOW que diverte, informa, ironiza e retrata o sabor da América, uma solidão grande passará a nos fazer companhia.

LETTERMAN era sarcástico, mas era o bom senso.

Muitas vezes, precisávamos do seu programa para opinarmos sobre algo ou justificarmos a nossa indignação.

Assisti por anos seu show, dica ainda no final dos anos 1980 do Marcelo TAS, que me contou de um programa americano em que o entrevistado falava sem rodeios aquilo que queríamos dizer.

Aprendi inglês assistindo-o ainda na NBC.

 

 

Nunca vi cometer uma grosseria com algum convidado.

E olha que praticava o humor que passeia no fio da navalha, no limite do grotesco.

Sua grande esperteza é que se fazia de ignorante curioso, gente boa e bobão, um estereótipo do americano comum.

Mas de bobo e ignorante, ele não tinha nada.

Via todos os filmes dos atores que iria entrevistar, lia os livros, sabia o que acontecia nos bastidores do Poder, zoava de Putin ao Papa de uma maneira que ambos cairiam na gargalhada.

Seu alvo preferido durante anos foi o atrapalhado e colecionador de gafes, George W Bush.

Reclamou que Obama não inspirava piadas, o que virou piada.

 

 

Muitas vezes, ele próprio, “Uncle David”, era a piada do programa.

Fumava escondido das câmeras. Tomava uns goles extras.

 

 

Sua mãe, uma simpática velhinha de Indiana, aparecia em links para passar receitas de biscoitos ou falar de trivialidades.

O dono da Deli da esquina no teatro na Broadway, em que se gravava o show, um asiático americanizado, aparecia sempre para falar de temas de interesse geopolíticos.

Ele dava voz ao povo.

Os técnicos de estúdio ganharam quadros. Os roteiristas, até estagiários, apareciam e interviam.

Aliás, por traz do sucesso do programa, estava a numerosa equipe de roteiristas que bolava quadros, piadas, em 33 anos, inovando a cada semana o show.

LETTERMAN era Nova York, a capital do mundo.

Bandas indies tomavam de assalto o seu programa.

Está tudo no Youtube: Radiohead em começo de carreira, Queen of Stone Age que, ineditamente, tocou em dois programas seguidos.

 

 

Algumas atrizes apareciam mais provocantes e sexy em seus programas como uma piada, exatamente para ironizar a sua fama de galinha, constranger o apresentador e, lógico, a audiência.

Aliás, uma das atitudes mais dignas e corajosas, ele tomou ao vivo:

Quando começou a ser chantageado por um produtor, que queria dinheiro para não revelar que o apresentador, então casado, tinha um caso com uma estagiária, Letterman anunciou que estava sendo chantageado, pediu desculpas à mulher, e o idiota foi preso.

Triste demais a sua aposentadoria.

Dificilmente encontrará substituto.

Perdemos todos.

 

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.