traição

traição

Marcelo Rubens Paiva

04 de agosto de 2011 | 14h08

a pedidos

 

 

 

TRAIÇÃO

 

 

 

5:51. Ela abre os olhos devagar. Antes do despertador tocar. Está de lado, na cama. Observa o visor. Que acaba de mudar para:

5:52. Escuta o silêncio da casa, da rua, da cidade. Um ar gelado envolve os seus braços. Ela os coloca debaixo do cobertor.

5:53. Escuta a respiração do marido. Dorme pesado. Mas não ronca. Ele sempre dorme pesado. Como ela inveja os que dormem pesado, os que se deixam e dormem antes dela, os que dormem na posição em que se deitam, não sentem frio ou calor, não reclamam do colchão mole ou duro.

5:54. Sempre, em toda a sua vida, desde que nasceu, ela dorme depois dos outros, dorme depois dos irmãos, dos primos e dos namorados. Tem dificuldades, deita-se e pensa, ainda durante um bom tempo, às vezes uma hora, às vezes  mais, a insônia, a clássica insônia, é, ela demora, faz um balanço o dia, pensa nos amigos, nos planos. Nunca teve um cara que dormisse antes dela.

5:55. Em viagem, então… Pode atravessar o Atlântico ou o Pacífico de olhos abertos, lendo ou assistindo aos filmes, chega no destino exausta e, na primeira noite, estranha tudo, o cheiro do quarto de hotel, o colchão, especialmente o travesseiro alto demais, a cama mais fria e impessoal, os ruídos do quarto, o frigobar que range, a água ou óleo que escorrem na calefação, estranha os ruídos da rua, da cidade, do país, da novidade, e não dorme.

5:56. Nunca tomou remédios para dormir: tem medo de se viciar. Costuma-se viciar em remédios. Em antiinflamatório, quando teve uma bursite, experimentou todos eles, até o Vioxx, que foi tirado do mercado. É viciada em analgésicos para cólicas. Buscopan, o seu preferido. Em pingar gotas no nariz. Em colírio, na época que era “a” maconheira da faculdade. Por isso, nunca teve coragem de tomar remédio para dormir, pois sabe que corre o risco de ficar para o resto da vida dependente de mais um, um mais barra pesada até, tarja preta, daqueles que se obtêm com receita, e ela ficar para o resto da vida dependente de um médico que lhe dê receitas, todos os meses, teria de comprar estoques nas férias dele, teria de levar caixas nas suas férias, nas viagens em que ela cruzaria o Atlântico ou Pacífico.

5:57. Homeopatia? Já tentou. Mas o médico disse que o seu problema era maior. Havia um desequilíbrio vital. Para ele, havia um triângulo que precisava ter os lados iguais. Um vértice é o da emoção. O outro, o da razão. Até aí, os gregos dividiram muito melhor: o apolíneo (equilíbrio e beleza) e o dionisíaco (inspiração e desinibição). O  sábio, calculado, racional versus o espontâneo, instintivo, louco. Mas os homeopatas inventaram um terceiro? Sim, foi o que seu médico lhe disse, não bastavam as gotinhas para dormir, era preciso encontrar um equilíbrio entre as três partes de um todo: a razão, a emoção e o físico. Algo ligado à antroposofia. Era fé que ele queria dizer? É preciso ter fé na medicina homeopática? Acreditar nos efeitos das gotinhas ou nas bolinhas (comprimidinhos), como nas pílulas do Frei Galvão? Não há ciência na homeopatia?

5:58. Então, na consulta de mais de uma hora, ele perguntou sobre os detalhes da vida dela. Físico? Fazia exercícios regulares. Pilates duas vezes por semana. Andava bastante. Corria aos fins de semana na praia. Nadava. Racional? Nem era preciso dizer: defendia a sua tese de mestrado em Linguística Aplicada. Emocional, lúdico? Bem… Descobriu o desequilíbrio. Então, além das bolinhas, ele receitou pintura, isso mesmo, ela deveria trabalhar a parte do cérebro destinada às artes, à brincadeira, desenhar, ou pintar, ou bordar, ou cerzir um tapete de palha, algo que obrigasse o seu cérebro a não pensar, algo que a relaxaria, já que seu estado racional e físico se encontravam em estados plenos e bem desenvolvidos. Relaxada, ela dormiria. E ela só queria dormir, queria bolinhas mágicas. Comprou tintas, telas, espalhou tudo pela mesa da sala, começou aquilo que nunca tinha feito na vida, a pintar. Um vaso. Com flores. Verde. Fundo amarelo. Que flores? Ela só queria dormir, e tinha agora que decidir entre as cores do vaso, do fundo e das flores. Perdia o sono. Dois meses depois, com a ineficiência da terapia, ela jogou as bolinhas pelo ralo e presenteou o filho do zelador: tintas, papel, telas, até lápis de cor. Torceu para ele não pintar as paredes da escada de emergência, as colunas da garagem. Sobraria pra ela.

5:59. Receitaram-lhe florais. Ela não tinha fé. Nem tentaria. Nem começaria. Seguiu todas as receitas unânimes: não tomar café depois do meio-dia, nem chás com cafeína, nem refrigerantes, não assistir à tevê antes de dormir, não fazer atividade física à noite, tomar um banho quente, relaxante, ler um livro… Nada. Sua insônia não tinha explicação. Era um carma que herdara injustamente de alguma injustiça cometida pelos seus ancestrais. Caramba, ela se deitara depois meia-noite. Até aos sábados era assim. Já tentou Maracugina, Serenus, maçã com mel, chá de erva cidreira, capim santo, meditação, jejum, massagem ayurvédica. E ele dormia ainda. Pesadamente. Bem, assim era para ser, já que, em toda a sua vida, ela só ficava com caras que tinham facilidade para dormir. Era das primeiras perguntas que fazia, antes de engatar uma relação: “Bem. Você dorme bem?” Se o cara falasse que tinha dificuldades, ela cortava no ato. Por quê? Porque não queria conviver com alguém fritando ao seu lado. Preferia os que a deixassem a sós com o seu pesadelo.

6:00. Ela tinha erguido o dedo um segundo antes e desligado calculadamente o despertador. Ela sempre fazia isso. Odiava o alarme daquele despertador paraguaio. E sentia um prazer extra em conseguir desligar antes de ele chegar no 6:00. Era sua única vitória contra uma noite maldormida. Então, virou-se para o lado e: “Amor, acorda.Tá na hora.” Ele nem suspirou, nem bocejou, levantou-se da cama antes do relógio chegar no 6:01. Foi ao banheiro. Que ódio. Além de facilidade para dormir, ele tinha uma incrível facilidade para acordar. Mesmo num frio daquele. Ela ouviu o chuveiro ser ligado. Ele escovou os dentes enquanto esperava a água aquecer. Ela sentiu no ar aquele cheiro gostoso de pasta de dente. Depois, de xampu, sabonete: banho. Ela fechou os olhos.

Como ela era apaixonada por ele… E se impressionava: mesmo dormindo, ele tinha um charme que o destacava. Transmitia aquela confiança que a deixava sempre emocionada e feliz por ter encontrado este cara para ser o pai do seu filho e, tomara, passar o resto da vida. E riu do caderno no criado mudo ao lado que, apesar de nunca ter sido preenchido, e do marido nem mais fazer terapia, continuava lá, com um lápis sobre, esperando um dia para, quem sabe, ganhar a narrativa de um sonho maluco (ou não). Se é que ele sonha.

 

6:13. Ela abriu a porta do quarto do filho, que dormia largado na cama, pernas apoiadas na parede, cabeça para fora do colchão, cobertor e travesseiros no chão, uma zona. Como crianças conseguem dormir daquele jeito? Nem sentia frio, nem nada. Dormia gostoso, largado, como um leopardo sobre um galho estreito. Ela foi até ele e o endireitou, colocou o travesseirinho, o cobertor. Puxou o pai, pensou. Grande. Precisamos comprar uma caminha maior, já não é aquele bebê.

6:15. Abriu a porta e pegou o jornal no hall. Correndo. Para nenhum dos três vizinhos flagrar naqueles trajes e com os cabelos despenteados. Fazia isso até no verão, de camiseta ou toalha. Abria a porta correndo e, vupt, pegava o jornal e voava para dentro. Ficaria muito envergonhada se fosse pega. Ela gostava de correr o risco. Uma anarquia matinal. Para despertar com um irreverente bom-dia ao sol, ao frio, à vida.

6:16. Sentou-se no sofá com a bandeja: uma água de coco, um queijo de Minas, uma fatia de mamão papaia e um iogurte com polpa de morango e cereais coloridos danito. Sim, ela sabe que já não tem idade para comer aquele iogurte cereais coloridos danito, que estava na hora de trocar por um natural, sem açúcar, glúten, cálcio, diet, light, 0% colesterol e semidesnatado, isto é, um pote de iogurte com nada dentro. Quando o médico a proibir na UTI, ao lado de um padre, aí, sim, ela pararia. Já parou o cigarro e os destilados. Por enquanto, deixa ela se lambuzar.

6:30. Deitada no sofá, parou de ler o jornal. Olhou a sala e se perguntou se não estava na hora de trocar os quadros de lugar, ou de fazer uma reforminha. Adora fazer uma reforminha, já trocou a pia da cozinha quatro vezes, ela implica com aquela pia. Não. Chega de reformas. Aquela casa está perfeita. Depois de 4 anos, sim, eles acertaram ali, os móveis, a estante, até a ordem dos livros, divididos como numa livraria: autores nacionais, estrangeiros, filosofia, história, turismo, psicologia, tudo seguindo uma ordem alfabética pelo sobrenome do autor. Claro que os de culinários estavam num armarinho charmoso na cozinha.

6:31. Ligou o computador. Sim, aquela casa estava perfeita. Sentia-se bem ali. Aconchegante, charmosa, viva. Levou a bandeja para a cozinha e preparou o café do marido. Espiou o trânsito pela janela. Pena que tem que trabalhar. Ficaria o dia inteiro curtindo a sua casinha, cozinhando besteiras, lendo filosofia, ouvindo Lulu, Djavan, RPM…

6:32. Ligou a água quente. Desligou a cafeteira.

6:33. Checou os seus e-mails, enquanto a água esquentava. Spam, spam, spam… O irmão. Uma piadinha da amiga. Spam, spam, spam…

6:34. O vapor da água a pairar pelo corredor. Viu as portas dos quartos fechadas. Ninguém à vista.

6:35. Então, entrou no e-mail secreto que só ela sabe da existência. Ela e uma pessoa especial, que mora em Buenos Aires e vem a cada quatro meses. É difícil explicar. Ao abrir, suas mãos tremeram. Sim, ele enviou um. Sim, está na cidade. O coração disparou. Abriu a mensagem. “Hoje, 19h?”. Era só o que estava escrito. Não tinha “oiê”, nem nada mais, nem o endereço, porque ele sempre se hospedava no mesmo hotel. Ah, vá, não queira explicações. Ela pensou rápido. Hoje? Dá para fazer depilação e arrumar o cabelo na hora do almoço. Tudo certo, invento que tenho um curso à noite, que vou direto do trabalho. Curso? Palestra? Casa do Saber, Sempre um Papo, Instituto Moreira Salles… Com o mouse, ela foi no “responder” e clicou.

6:36. Ai, que computador lento. Precisavam trocar de computador urgentemente. Então, na resposta, com a tela em branco, pensou mais um pouquinho e respondeu: “OK. Bj.” Quando olhou para o lado. Seu maridode banho tomado sorria, encostado na porta:

“O que esta fazendo?”

“Nada.”

Ela desligou o computador. E ficou aflita. Pois não sabia se desligou antes ou depois de enviar o “OK. Bj.” E passaria então o dia com a dúvida.

“Não desliga assim, pode desconfigurar a conexão.”

“Desculpa. Sou tão atrapalhada…”

“É nada. Só um pouco distraída.”

“Não é a mesma coisa?”

“Você precisa parar com isso.”

O coração dela disparou. 6h40. Cedo demais para ser julgada?

“Com o quê?”

“Parar de aquecer o planeta. A água já está pelando.”

“É que esse chuveiro demora para aquecer. Estou com tanta pressa”, ela disse e se levantou. Beijou o marido na boca. Um selinho matinal.

“Você volta cedo?”

“É que hoje à noite eu tenho um curso na Casa do Saber.”

“Não vem nem pro jantar?”

“Vou chegar tarde. Não me espere.” Então, olhou para os olhos dele e perguntou: “Tudo bem, né?”

“Claro…”

E foi para o chuveiro, sem responder à pergunta: “Curso sobre o quê?” Correu para o box, para decidir se ela precisava parar com aquilo e sobre o que era o curso.

6h43. Ficou um tempo imóvel debaixo da água pelando. Para se acalmar. E se perguntar se era justo o que ela acabou de armar. Por que fazia aquilo? Por que não começava também uma terapia.

6h45. Só então pegou o sabonete e esfregou no corpo, esfregou muito, em todas as partes. Decidiu: não irá à depilação nem ao cabeleireiro. E deixará o tempo moldar a sua noite.

7h05. Vestiu-se no quarto. Casual, pensou. Selecionou cuidadosamente a roupa de baixo. Vestiu uma calça preta, uma camisa branca, botas, a jaqueta jeans. Amarrou um lenço na cintura. Olhou-se no espelho, virou-se para um lado, para o outro, virou-se de costas e torceu a coluna para checar o ajuste da calça na bunda. OK. Parou de repente. O que você está fazendo, está se vestindo para ele!? Teve vontade de chorar. Teve vontade de sorrir. Afinal, ele estava na cidade. Alguém consegue chorar e sorrir ao mesmo tempo? Tirou o lenço da cintura e colocou um cinto neutro. Examinou-se de novo no espelho, perfil direito, esquerdo, costas. Então, viu o marido na porta, rindo, com uma caneca de café na mão.

“Ai, que susto!”, ela reclamou.

“Você não envelhece”, ele disse.

“Odeio quando você diz isso.”

“Estou te elogiando.”

“Está me lembrando que um dia eu irei envelhecer.”

“Um dia todos iremos envelhecer.”

“Você entendeu o que eu quis dizer.”

“Por que o mau humor? Eu fui sincero.”

 

 

Ela vai até ele, passa a mão nos cabelos dele e dá um beijo na boca. A língua dele estava quente, com gosto de manhã e café. Uma delícia de beijo. Ela grudou nele, colou o seu corpo. Chegaram a cair na cama. Mas quando ele pensou em “ação”, ela pensou em “corta” e se levantou.

“Você acha que um dia vou te trocar por uma universitária?”

“Acho. Todos trocam.”

7h10. Ela acordou o filho abraçando-o como querendo esmagá-lo. Ele reclamou do abraço.

“Vai, filhão, papai já está te esperando.”

“Eu não quero ir.”

“Por que não?”

“Quero dormir.”

“Sábado e domingo você pode dormir até mais tarde. Dia de semana tem escola.”

“Sábado e domingo não é dia de semana?”

Indagador como o pai. Beijou-o em todos os cantos do seu rosto. Fez cócegas nele e tirou o cobertorzinho. Abriu a janela.

7h23. Já na garagem, ligou o rádio do carro. Ouviu aquele solo de guitarra meio indiano, distorcido; inconfundível. Ela aumentou o volume, abriu o portão da garagem, saiu para a rua e cantou junto:

 

“Meu caminho é cada manhã, não procure saber onde estou, meu destino não é de ninguém, e eu não deixo os meus passos no chão. Se você não entende não vê, se não me vê não entende, não procure saber onde estou, se o meu jeito te surpre…”

 

Quase atropela um motoqueiro. Distraída ou atrapalhada? Ele xinga: “Tá louca?! Vaca!”

8h10. Sentou-se na sua mesa. Que ódio. Ligou o computador. Checou no seu e-mail secreto. “Hoje, 19h?” Era só o que estava escrito. Nenhuma saudação. Nem o endereço. Porque ele sempre se hospedava no mesmo hotel. Ela pensou em responder novamente. Mesmo ciente de que duas respostas, se é que a primeira fora enviada, apontaria ansiedade. E ela sabe muito bem que, no jogo da corte, o que importa é a sutileza. Ela responderia com o mesmo texto da primeira: “OK.” Digitou. Não se lembrava se na primeira escreveu “Bj” além do “OK”.

“Que inferno!”, murmurou. Porque então ele receberia duas respostas com dois textos diferentes. Se estivessem iguais, a culpa cairia sobre o provedor, que, estranhamente, como são os mistérios da internet, mandou duas vezes o mesmo texto em horários diferentes.

“Calma, mulher! Esquece essa história!” Foi pegar um café. 8h21. Voltou para a mesa. Buscou no site da Casa do Saber os cursos daquela noite. Filosofia, psicologia, cinema, teatro, religião, temas contemporâneos. Fixou o ponteiro do mouse no ícone do curso A Paixão e o Crime – De Euclides Da Cunha a Pimenta Neves. Palestrante: Luiza Nagib Eluf. “Estudo de casos de crimes passionais célebres, que ocorreram no Brasil a partir de Euclides da Cunha até Pimenta Neves, sob a ótica social e de gênero.” Não, não, não. Nada disso.

8h46. Foi pegar outro café. Imaginou como o marido a mataria, com uma arma ou uma faca? Aquele lá não mata nem uma mosca. Passivo demais. E como ela o mataria? Não, ela não o mataria, mas sim a outra, se houvesse. Ela estava uma pilha. Devia é fazer um curso de psicanálise.

8h55. Voltou para o computador. Notou o curso Freud e a Sexualidade, de Mario Costa Pereira. Agora sim. Clicou no ícone. Checou datas. Teria que ligar para se inscrever. Sim, se era para ser tudo perfeito, teria até de se inscrever de verdade. Quem sabe até assistir a alguns minutinhos do curso. Mas sair logo depois de iniciada a palestra. Costa Pereira ficaria chocado com aquela mulher audaciosa ir embora no começo de uma exposição sobre Freud, para encontrar um amante de fora que vem a cada quatro meses. Interna, decretaria. Nossa, se internassem todas as mulheres que têm um caso eventual…

9h00. Correu para a reunião. Prestou atenção? Em nada. Caso eventual. Que horrível expressão, pensou. É um caso eventual, mas não é. Perguntou-se se deveria ou não o encontrar. Por que fazia aquilo, a adrenalina comandava o seu dia, havia uma mescla de sofrimento e expectativa, a ansiedade se moldava com os ponteiros do relógio, minuto a minuto, a ideia de ir ou não ir era seu único pensamento. Levaria o dia como se fosse ao encontro. Na última hora, decidiria. Era isso que atraía?

10h13. Ligou para a Casa do Saber. Inscreveu-se num curso de ciência, de dois encontros: LHC – Em Busca Da Partícula De Deus. De Maria Cristina Batoni Abdalla.

10h44. Recebeu um telefonema do marido. Confirmou que iria ter um curso à noite sobre o LHC, Large Hadron Collider, o acelerador de partículas construído na fronteira da França com a Suíça. O marido perguntou desde quanto ela se interessava por Física. Ela contou que o funcionamento do LHC propiciará uma quantidade imensa de novas tecnologias, da internet às de imagem usadas na medicina, como terapias de combate ao câncer. Foi o que ela leu no site.

“Os resultados das experiências ajudarão a desvendar a constituição íntima da matéria, o que pode mudar a compreensão sobre o funcionamento do Universo e atestar a existência da última partícula elementar cuja existência ainda precisa ser comprovada, a ‘bóson de higgs’, que exerce papel-chave na explicação das origens da massa de outras partículas, a ponto de ser chamada de ‘a partícula de Deus’. Sim, vão ter trechos de filmes.”

“A partícula de Deus?”

“Não é lindo?”

“Você vem para jantar?”

“Não. Como por aqui mesmo.”

“Tá, se eu estiver dormindo, quando você chegar, não se esqueça de uma coisa.”

“Do quê?”

“De que eu te amo.”

“Ai, amor… Eu também. Beijos.”

Desligou. Não conseguiu trabalhar. Passeou com o mouse pela tela.

11h55. Respondeu o e-mail: “OK. Bj.” Ligou para o salão. Reservou um horário para às 17h. Cortar as pontas. Só. Sem depilação, unhas, nada.

 

 

 

12h00. Desceu para o almoço. Mas antes de entrar no natural em que vai todos os dias, cruzou a rua, entrou na farmácia. Pegou uma cestinha. Percorreu as gôndolas. Pegou escova de dente para o filho, fio dental para toda a família, Buscopan para ela, Sinvastatina para abaixar o colesterol do marido, que sempre esquece de tomar. Cheirou um creme hidratante novo.

12h19. Foi para a fila do caixa. Na sua vez, olhou bem ao redor. Ninguém conhecido. Examinou a prateleira ao lado. Lubrificada, não lubrificada, extra, com espermicida? Large. Action. Sensitive. Lite. Riu. Por que usam termos em inglês, para descrever as qualidades dos preservativos? Colocou na cesta o lubrificado testados um a um eletronicamente, que mantém a sensibilidade natural, transparente, com látex e reservatório. Um envelope com três unidades. Colocou a cesta no balcão. Deixou ao lado o seu cartão eletrônico.

Pegou uma bala de mel. E decidiu pegar outro envelope de 3 unidades. É melhor garantir. Nunca se sabe. Uma mão encostou no seu ombro.

“Que coincidência.”

A voz familiar do seu cunhado, irmão gêmeo do marido, que também trabalha na área. Não podia dar a mão, pois segurava a embalagem de três preservativos lubrificado testados um a um eletronicamente, que mantêm a sensibilidade natural, com látex e reservatório.

“O que você está comprando?”

“Nada”, ela disse e devolveu o envelope para a prateleira.

“Nada?”, ele estranhou e olhou para a cesta no balcão com escova, fio dental, remédios e preservativos.

“Crédito ou débito?”, perguntou a caixa.

“É da minha amiga. Ué, aonde ela se meteu?”

E saiu pela farmácia, procurando a amiga.

“Neide? Neide?”

Correu pelos corredores, gôndolas, Dipirona Sódica, cestinhas, cremes, pastas, escovas de dente, alicates de unha, Advil, vitaminas. Derrubou uma pilha de esparadrapos e microporos, agachou-se para pegá-los, respirou fundo. Tonta. Permaneceu por instantes escondida, selecionando os impermeáveis. Recolocou os esparadrapos na estante, levantou-se. Seu cunhado apareceu.

“Tudo bem?”

“Minha amiga sumiu.”

“Sumiu? E agora?”

“O que você está fazendo aqui?”

“Estou no meu horário de almoço.”

“Eu também.”

“Vamos almoçar juntos?”, ele convidou.

“Tem a minha amiga.”

“Ela sumiu. Vamos. Só nós dois. Nunca ficamos a sós. A gente fala mal da família toda.”

Ela riu. Gostava dele. Muitas vezes, ela perguntou de brincadeira se ele não era o gêmeo com quem deveria ter se casado. Era bem mais bonito do que o marido. Mais culto. Divertido. Gostava das coisas boas da vida. Jantar fora. Viajar. Touro, como o marido. Mas tão diferente. Porém, um pequeno detalhe encerrava o projeto platônico: ele era gay.

“Claro. Vamos almoçar. Tem um natural aqui…”

“Pra beber alface batido com agrião?”, ele interrompeu e fez uma divertida cara de nojo. “Vamos naquele italiano da esquina. E tomamos um vinho.”

“Boa. Vamos lá então.”

“Toma. O seu cartão eletrônico. Você esqueceu no balcão.”

12h22. Brindaram duas taças de um rose gelado. Ele era gentil. Explicou que o rose perdeu o estigma e se tornava uma opção. Escolheu as entradas. Então, confessou algo. Estranho, pois nunca tinham trocado intimidades. Que ele estava apaixonado. Que encontrou um cara para casar. Um arquiteto lindo, carioca. Que é o homem da vida dele. Mas entrou num mar com correntes traiçoeiras. Que, apesar de estar amando, não conseguia deixar de paquerar outros caras. Que ficou muitos anos solteiro, na galinhagem, tem muitos rolos, paqueras, ex-casos, ex-namorados, médico, dois psicólogos, policiais militares, um vereador de direita, um jogador da Série A, que, como faria agora, eliminaria todo esse círculo vicioso, para se dedicar a um cara só?

12h31. Chegou a comida. Penne ao pesto, para ele, com camarão e legumes, para ela. Continuou. Que curtia a galinhagem, mas um homem daquele exigia o compromisso com a fidelidade, e o que é trair, afinal? Tinha medo de sentir falta da liberdade. Tinha medo de amar aquele homem e ser abandonado. Tinha medo de morrer só. De ficar velho, gordo, careca, com nariz e orelhas grandes e só. Então, passou a falar do irmão gêmeo, de como invejava a vida planejada do irmão, que sabe quanto vai ganhar daqui a cinco anos, da dedicação com o filho e a mulher, de parecer não ter conflitos nauseantes, dilemas sem solução. Que preferia ser o irmão a sofrer tudo o que ele sofre com as suas indecisões e a ilusão de que há algo melhor atrás do planejado. E perguntou se ela tem vontade de trair.

“Eu? Ah… Sei lá. Trabalho tanto.”

“Claro que, às vezes, você sente atração por outro cara.”

“Normal.”

“Que tipo de cara?”

“Um bem diferente.”

Riram.

“Vocês são fiéis um ao outro? Está na cara.”

“Você acha?”

“Não existe casal tão apaixonado. O casal perfeito.”

“Não existe casal perfeito.”

“É. Ninguém é fiel”, ele disse e riu, olhando com seu olhar penetrante, que atordoa e seduz até porteiro de boate.

“Ele não é fiel?”

“Meu irmão? Olha, eu até te diria, se soubesse. Mas aquele lá é um mistério…”

Racharam uma torta de maçã com sorvete de canela e falaram mal da família. Ele tomou um curto, ela, um carioca. Ele pagou a conta. Gentleman.

“Vamos marcar mais vezes. Adorei conversar com você”, ela disse, segurando mãos delicadas e bem cuidadas dele. “Quero conhecer o homem da sua vida.”

“Deixa pra lá. É o homem da minha vida hoje. Não sei se será amanhã.”

13h07. Despediram-se na calçada. Ela acendeu um cigarro e esperou ele entrar no prédio de escritório da esquina. Então, voltou para a farmácia.

13h09. Na farmácia, comprou uma paçoca natural, uma Coca e um envelope com três unidades de camisinhas lubrificadas testadas uma a uma eletronicamente, transparentes, com látex e reservatório, que mantêm a sensibilidade natural.

13h21. Sentou-se no banco em frente para tomar a Coca e fumar outro cigarro. Ao lado, outros fumantes aproveitavam os últimos minutos da pausa do almoço, antes de voltarem ao maldito edifício em que é proibido fumar. Três advogados fumavam e falavam com ela, que mal prestava atenção. Gracejos. Cantadas inocentes. Tipo: “Ela nunca sairia para beber com a gente, porque não merecemos a sua companhia…” “É ocupada demais.” “No que tanto pensa?” “Aposto que é corintiana.” Aqueles três sempre a cantavam. Advogados do andar de cima. E quer apostar? Os três são casados com garotas lindas, bem vestidas, submissas. Submissas? Que mania de julgar sem conhecer. Preconceito, sabia? Ela se perguntou por que a maioria dos homens beija a esposa, sai de casa e canta mulheres na calçada, no trânsito, no metrô, no trabalho, na pausa do almoço, é um costume tribal? Auto-afirmação do macho alfa. Riu. Qual daqueles três advogadozinhos recém-formados, recém-casados, seria o macho alfa?

13h29. E se eu for embora agora, entrar correndo naquele táxi, mandá-lo seguir pela Imigrantes, descer a serra até a praia, tirar a roupa, entrar no mar e sair nadando? Adorava pensar em atitudes intempestivas. Ela já foi tão louca anos atrás. A mais maluca. Quantas vezes não foi para a praia e voltou no mesmo dia, matando aula, estágio, trabalho? Saudades de ser volúvel! Saudades da vida.

13h30. Sempre há algo melhor atrás do planejado? Despediu-se dos galanteadores com sorriso, apagou o cigarro, jogou fora a paçoca e a lata no lixo reciclado e subiu.

Trabalhou sem parar. Desde o almoço. Quase como um surto, não viu a hora passar, planilhas e relatórios, várias janelas abertas no seu monitor, nem leu os e-mails, nem atendeu o telefone, nem tomou café. Até o celular no vibracall chamar a sua atenção às 17h20. Era do salão. Reservara o horário das 17h. Cortar as pontas. Esquecera-se completamente. Pediu mil desculpas. Consegue chegar em 40 minutos, dá?

17h22. Salvou os seus arquivos, um por um, fechou as janelas. Desligou o computador. Olhou ao redor. Apesar do escritório estar apinhado, em horário de pico, ela nunca se sentiu tão só. São seus amigos. Seus colegas. Trabalham “na casa”, como chamam a empresa, com sinergia e transparência. Mas, no fundo, são apenas colegas. Ninguém teria tempo para escutar o dilema que queima o seu estômago desde quando acordou. Nem os três advogados do andar de cima.

17h24. Pegou um café num copo descartável da máquina e saiu à francesa.

18h03. Sentada diante do espelho, coberta por um pano preto, com o logo do salão impresso no peito, olhou para Jonas, o seu cabeleireiro, e teve vontade de chorar. Ele transmitia confiança. Desde a adolescência, fazia o seu cabelo. Fez na sua formatura e no seu casamento. Mas Jonas e todos pareciam ocupados. Corriam. “Só as pontas, amor”. E sorriu sem graça.

18h41. Parou no estacionamento credenciado da Rua Mário Ferraz. Olhou o aviso: 24 HORAS. Guardou o recibo.

18h45. Pagou o curso da Casa do Saber. Pegou o recibo e a apostila. Circulou pelas estantes. Folheou um livro sem reparar no nome ou capa ou autor.

18h50. Comeu um pão de queijo com um capuccino pequeno, no café da livraria. Acendeu o cigarro e olhou o relógio de parede avançar. 18h52. Tragou e não pensou em nada. 18h53. Bebericou. Tragou. 18h54. Tragou. 18h55. Não fez nada. 18h56. Tragou. 18h57. Não fez nada. 18h58. Bebeu, tragou e apagou o cigarro. Fechou os olhos, respirou uma, duas, três… Levantou-se às 19h em ponto.

19h01. Entrou num táxi. Retocou a maquiagem e meteu na boca uma balinha de hortelã. Sorriu. “Pode aumentar o rádio?”, pediu ao motorista. Começou a cantar junto, baixinho: “Eu só queria te contar, que eu fui lá fora e vi dois sois num dia e a vida que ardia sem explicação. Explicação. Não tem explicação. Explicação. Sem explicação…” Ficou tão emocionada. Triste. O pôr-do-sol da primavera é vermelho. Cássia Eller morreu. O Ibirapuera está tão colorido.

19h16. Bateu na porta do flat. Ele atendeu, sorriu. Ela entrou. Ele olhou para o corredor, para um lado, para o outro, e fechou.

 

 

 

23h39. Ela abriu a porta do quarto e saiu. Olhou na bolsa o celular desligado. Voltou para pegar na pia do banheiro o anel de prata, que sempre tira quando lava as mãos. Ele, esparramado nu na cama, dormia. Ela deu um tchau com a mão direita, sem falar nada.

23h41. No corredor do flat, ligou o celular. Chamou o elevador. Olhou o visor do aparelho. A campainha do elevador tocou.

23h42. Entrou e apertou o térreo. Ele desceu um andar e parou. Ficou apreensiva. Entrou um casal jovem, bêbado. Nem a cumprimentaram. Ela se encostou na parede e voltou a apertar o térreo, apesar da luz do botão estar acesa. Olhou o celular. Ainda nenhuma informação sobre mensagens de texto ou recados. O elevador fechou a porta. Reconheceu o rapaz que tentava beijar a garota: um dos advogados que trabalha no andar acima do seu escritório. Que agarrou a garota por trás e colocou as duas mãos nos peitos dela, que deu uma cotovelada na barriga dele. Ambos riram e olharam para a terceira passageira. Comportaram-se. Ele no canto, abraçando a sua garota por trás, que pediu:

“Aperte o térreo.”

“Já está.”

“Obrigada.”

O rapaz começou a beijar o pescoço da garota, que inclinou a cabeça.

“Oi”, ele disse.

“Oi”, ela respondeu.

“Você conhece?”, perguntou a garota.

“Não”, ele respondeu.

Ela sentia como se quisessem ler os seus pensamentos. Alguém tem poderes para isso? Era como se ambos estivessem concentrados, esforçando-se para roubar os seus segredos. Como enxadristas russos. Ela abaixou a cabeça. Imaginou o que este garoto vai contar para todo o escritório. O aquela mulher, que fuma depois do almoço, fazia num flat?! Vai contar para todo o bairro. Ela olhou o visor do celular. O elevador desacelerou. Abriu a porta. Nenhuma mensagem de voz ou de texto. Ótimo. Será que estou desarrumada? Saiu num pulo.

23h44. Olhou-se no espelho do hall. Só o cabelo desarrumado. “Me chama um táxi, por favor”, pediu ao segurança encostado na porta giratória. O cara apontou para o lado, onde um taxista com o seu táxi estacionado dormia no banco do motorista. Como são mal-educados. Ela odeia aquele flat. Vai sugerir, por e-mail, para ele se hospedar em outro lugar. Tantas opções na cidade. Ela ficou ao lado da porta traseira do carro, esperando o segurança abri-la. Mas o teimoso não o fez. Deu três tapinhas no capô, acordando o motorista que, ao vê-la, abriu a porta por dentro. “Mário Ferraz, por favor”, ela disse ao entrar. Sem querer, bateu a porta. O taxista olhou irritado. Deu a partida. Por que ela está de mau humor, perguntou-se? Deu tudo certo. Por que você sempre sai mal-humorada deste flat? Por que será?

Tirou um espelho da bolsa e se penteou como pôde. Tirou um cigarro da bolsa. “Desculpe, mas não pode fumar”, o motorista deu o troco. Ela guardou o cigarro e pediu: “Pode aumentar a música?” Ele demorou, mas obedeceu. Ela cantou baixinho, junto: “Silêncio por favor, enquanto esqueço um pouco a dor no peito. Não diga nada sobre os meus defeitos. Eu não me lembro mais de quem me deixou assim. Hoje eu quero apenas uma pausa de mil compassos…”

Abriu a janela. Sentiu o vento úmido. Reparou que chovera muito. Enquanto ela estava trancada no quarto, rolou uma tempestade. Nem percebera. Poças, carros molhados, galhos caídos, faróis piscando no amarelo. Uma árvore caída interrompia o trânsito nos Jardins. Sentiu-se culpada: a cidade vivendo um caos, e ela num quarto de flat. “Porque hoje eu vou fazer, ao meu jeito eu vou fazer, um samba sobre o infinito…”

0h15. Chegou no estacionamento em que deixara o carro, perto da Casa do Saber. Pagou o táxi. Acendeu um cigarro ainda no banco traseiro. Tragou com prazer. De repente, percebeu o portão do estacionamento trancado por um cadeado. Viu apenas o seu carro, solitário, no fundo do pátio. Desesperada, correu até a Casa do Saber, também fechada. Chamou o segurança da esquina.

“Moço, meu carro ficou lá dentro!’

“Está fechado.”

“Fechado? Mas olha a placa, 24h HORAS.”

“Fechado. Fecha à meia-noite. Às 24h”, e fez aquela cara que todo segurança faz, quando não pode ajudar.

Então, desprotegida, ela começou a chorar. Encostou numa mureta e chorou muito. Ele pegou um celular-rádio. Atendeu o manobrista do estacionamento, já no ponto da Rebouças, esperando o busão para Taboão da Serra. Não adiantaria voltar e abrir o cadeado, o sistema de cobrança estava desligado. Ela voltou a chorar desesperada, enquanto o segurança tentava convencê-lo.

0h27. Chegou o manobrista com a chave. Ela teve vontade de abraçá-lo, pular, dançar. Mas sorriu envergonhada, como se uma criança tivesse sido liberada de um castigo, depois de ouvir um sermão. Deu uma nota de R$ 50. Ele recusou. Pediu apenas que pagasse o valor de R$ 10; turno da noite.

0h47. Ela entrou em casa sem fazer barulho. Deixou a apostila do curso que não fez da Casa do Saber sobre a mesa de jantar. Colocou água na chaleira. Correu para ver o filho. Ele dormia, com o abajur aceso e as pernas para fora da cama. Arrumou-o. Beijou todo o rosto. Arrumou a sua mochila, o criado-mudo. Começou a arrumar o seu armário. Ouviu a chaleira apitar.

0h52. Ela bebia um chá verde. O gato entrou na cozinha. Não passou por entre as pernas dela, como sempre. Parou e se sentou no meio da cozinha. Ficou examinando-a, como se a repreendesse. Ela acendeu outro cigarro, colocou a ração no pote. Ele não saiu do lugar.

1h07. Já deveria ter saído do chuveiro pelando. Já se lavara, mas continuava, não tinha vontade de sair. Por ela, ficaria a vida toda debaixo daquele chuveiro, ensaboando-se repetidamente.

1h19. Vestida com uma camisola creme de cetim, e sem acender a luz, ela se enfiou na cama delicadamente. Sentiu o colchão se mexendo. Olhou para o marido. Ele estava deitado, de olhos bem abertos, encarando-a.

“Ai, que susto”, ela disse sem graça.

“Tudo bem?”

“Tudo. Boa noite, querido”, ela disse, beijou-lhe a testa e virou de lado, para ficar de costas para ele.

“Eu te amo”, ele disse.

“Eu também.”

Silêncio. Será que dormiu? Não. Ele então perguntou:

“Como foi a sua noite?”

Que pergunta inusitada, desesperadamente fora de hora, por que acordou, por que não dormia pesadamente, roncando, sonhando, como na maioria das noites, por que estava concentrado, curioso? Ela fechou os olhos e respondeu:

“Normal.”

 

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