fobias

Marcelo Rubens Paiva

13 de outubro de 2009 | 11h53

Bem que eu queria ir

Este é o nome do livro de Allen Shawn, que a editora Companhia das Letras me mandou pelo correio: Bem Que Eu Queria Ir. Se queria, por que não foi? Porque o subtítulo explica: Notas de Uma Vida Fóbica.
Me assustou a editora mandar justamente esse. Por quê? Notam que sou perturbado, leem as minhas colunas, me veem por aí e intuem que sou fóbico? Tudo bem que meu lema é na dúvida continue em dúvida. Mas sou um fóbico sem admitir ou sem saber?
Está nas entrelinhas do que escrevo os medos mais variados? Tirando receio de avião, animais peçonhentos [já fui atacado], alguns críticos de teatro [os peçonhentos], pau no Windows, acordar sem pasta de dente, sem jornal na porta e considerando uma leve hipocondria, como desconfiaram? Sou neurótico ou fóbico? A fobia é uma espécie de neurose? Será que também enviaram o livro para o Contardo? Ele escreverá sobre fobias? Mandaram pro Jabor? Pra quem mais mandaram? Tenho fobia de livros sobre fobias?
Claro que abri o livro no minuto seguinte. Allen, que assume que não é especialista, mas vítima, pesquisou tudo sobre o assunto. Revelou sua desesperadora agorafobia, fobia de espaços, considerada uma “neurose de ansiedade”, que herdou do pai, mas que consegue controlar através do trabalho criativo.
Chegou a conhecer uma mulher que, ao dirigir, era incapaz de fazer curvas para a esquerda. Para evitar a ansiedade, ela dava um jeito de chegar aos lugares só com curvas à direita. Maluca…

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Editoras me mandam livros. Caridade? Numas. Sou um veterano já em jornalismo cultural [25 anos].
Meus primeiros empregos foram varrer quintal do vizinho por cinco cruzeiros e dar aula particular de Física para alunos do Pio XII, colégio da elite campineira.
Para sustentar meus vícios universitários, que eram poucos e baratos.
A vontade mesmo era de enforcar cada aluno que não entendia as leis de Newton e a minha didática anárquica [ou a minha nenhuma didática], que mais parecia um conto de Joyce. Apesar de todos da minha família trafegarem pelo meio acadêmico, eu não nasci para dar aulas. Sou adotado?
Vendi artesanato de prata com dois peruanos que moravam comigo, fiz espionagem industrial para um tio que mexia com portos e containers, toquei violão em praças e barzinhos, já traduzi uma peça em alemão sem saber falar uma palavra dessa língua, mas me encontrei e comecei a trabalhar pra valer na imprensa escrita.
Aos 22 anos de idade fui crítico literário da revista Leia Livros, do falecido editor Caio Graco, quem depois me encomendou um livro [que nomeou]: Feliz Ano Velho.
Aos 23 anos a Veja me contratou. Apesar de alertá-los que eu não tinha idade nem para ser comentarista de jogo de botão. Mas era isso que queriam, sangue novo, espírito juvenil. E seduzia a minha linguagem coloquial e despretensiosa, a única que eu dominava.
Eu ainda frequentava o curso de Comunicações da USP, quando resenhei livros de Anatole France, Dalton Trevisan, Dionélio Machado, J. J. Veiga. Uma heresia. Daí, chega-se à conclusão que a crítica jornalística não é séria. E não é mesmo. Porque não parei mais.

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Eu tinha um defeito grave. Não conseguia falar mal de um livro. O que era notado em reuniões de pauta. Ninguém nas redações me levava a sério.
Por conhecer o mercado literário, as dificuldades pelas quais passavam os autores, e o tempo que gastavam em busca de um estilo, uma trama, as palavras exatas, desenhando conflitos e personagens, eu tinha pena de detonar o trabalho de anos. Crítico com pena é como um pombo sem asas.
No mais, diante da pilha de lançamentos que as editoras me enviavam, eu escolhia os que gostava. Meus princípios eram simples e lógicos: por que escrever [e indicar] ao leitor, nosso consumidor, sobre o livro que não valia a pena, se na mesma pilha havia outros que valiam?
O mais enigmático era entender por que os departamentos de divulgação das editoras me enviavam tais e tais livros. Sim, numa reunião semanal, os divulgadores apontam: “esse livro é a cara do Marcelo”, “esse é a cara do Bira”, “esse aqui vamos mandar pro Contardo”…
Alguns até telefonam: “Cara, estamos lançando um livro que é a sua cara.” Esse gesto já alimenta a curiosidade daquele que tem dezenas de livro ao lado e espaço para falar de um ou dois apenas. Ou será que dizem isso para todos? Profissionais sacam o gosto da maioria dos colunistas e críticos, pesquisam sobre eles?

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Depois que virei colunista dessa página que já foi de Raquel de Queiroz [já faz cinco anos, negão], fiz poucas resenhas e exercitei as minhas muitas neuroses. As editoras pouco a pouco deixaram de me mandar livros. Como qualquer cidadão digno, eu os compro agora.
No entanto, a Cia. das Letras me mandou o exemplar de Bem Que Eu Queria Ir, escrito por um compositor- filho de William Shawn, lendário editor da New Yorker, e irmão do dramaturgo Wallace Shawn. Um cara que nunca tinha escrito um romance, mas que, aconselhado por amigos, resolveu delatar as suas fobias, que não eram poucas.
Ele cresceu em Nova York e admite que adquiriu diversos medos urbanos. Não dirige por autoestradas, apenas pelas vicinais. Ao dirigir numa estrada vazia, ele cai sem perceber num estado semelhante ao de um sono, no qual a passagem de tempo fica dolorosamente lenta.
Não gosta de altura, estar na água, atravessar estacionamentos, parques ou campos abertos, evita pontes e túneis, quando vai ao teatro se senta no corredor, evita o metrô e elevadores, até os museus causam problemas. Tem medo de espaços abertos e fechados e de qualquer forma de isolamento. Que mala. Como diria John Milton, “a mente é seu próprio lugar, e em si própria pode fazer do inferno um paraíso, do paraíso um inferno.”
Allen descobriu que, como a dor, o medo é um sinal; um sinal de que há algo errado. Para ele, uma fobia é uma dor na alma.
Lembra fóbicos notórios, como Freud [medo de viajar de trem], Darwin [que adquiriu no Brasil Doença de Chagas], Emily Dickinson [“eu pisava de tábua em tábua, um caminho lento e cauteloso, sentia as estrelas perto da cabeça, o mar perto dos pés”] e o ator Richard Burton, que não podia ficar num cômodo em que tivesse um pote de mel.
Enumera algumas das mais de 500 fobias, como por estrelas [siderofobia], nudez [gimnofobia], sexo [genofobia], desorganização [ataxofobia], som da própria voz [fonofobia], espelhos [isotreofobia], ficar parado [estasifobia], ficar sentado [tasofobia], compulsão de arrancar os cabelos [tricotilomania].
E, para o cúmulo do movimento cíclico, o medo de adquirir fobias [fobofobia]. Ôpa, achei a minha.

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Estreia hoje aqui no Rio minha peça A NOITE MAIS FRIA DO ANO. No TEATRO POEIRA, em Botafogo. Ficamos terças e quartas, 21h, durante 6 semanas. Rola uma fobiazinha de ninguém aparecer. Essa não tem cura.

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