leitura obrigatória?

leitura obrigatória?

Marcelo Rubens Paiva

27 de agosto de 2009 | 13h32

Ontem conheci, na Livraria da Vila, uma professora de Português do EQUIPE, Luana, escola em que quis ter estudado na adolescência, pois tinha shows, filmes, debates, todos organizados pelo amigo Serginho Groisman, umas meninas com fama de “liberais” [termo da época], em que os alunos fumavam maconha no pátio.

Durante a ditadura, Serginho era o agitador cultural do Equipe, enquanto o medo e o silêncio dominavam as ruas.

Organizava sessões de filmes proibidos ou esquecidos, películas que pegava na Boca do Lixo. Junto, para abrir, shows de resistência com o que havia de melhor na MPB, dos “malditos” Luis Melodia, Tom Zé, a Cartola e Gilberto Gil. Por vezes, havia palestras para entendermos o que se passava com o mundo- um dos palestrantes, Luis Carlos Prestes. Tudo dentro de um teatro ou no pátio da escola “alternativa” do centro de São Paulo.

No meu colégio, Santa Cruz, era expulso quem fosse pego com algum tipo de droga [meu amigo Ito foi], as meninas eram osso duro de roer e tinha shows muito cabeçudos. Era uma escola forte. Fábrica de intelectuais revoltados, seminerds, que estudavam sem parar.

Eles discutiam a Tropicália. A gente, Irmãos Karamazovski, leitura obrigatória do primeiro colegial! Eram artistas. Nós, produtores culturais e de grana.

Na vitrine da livraria, uma cópia de Franny & Zooey, um dos meus livros favoritos de Sallinger. Luana disse que o indicou para seus alunos do ginásio, pois acharam Apanhador no Campo de Centeio, clássico de Sallinger e leitura obrigatória em todas as escolas americanas, meio deprê.

Como assim? O moleque Holden Caulfield, protagonista de Apanhador, que foge da escola aos 15 anos e vai sozinho pra Nova York, foi o ícone da minha e de muitas gerações. Seu sarcasmo e sentimento de inadaptação são a essência de um adolescente. Os garotos de hoje não são mais revoltados?

Ela contou que muitos livros que indica são criticados em aula, por não trazerem esperanças. Um aluno chegou a dizer que Caulfield, além de reclamão, deveria tomar Prozac.


FOTO RARA DO RECLUSO SALLINGER, QUE COMPLETOU 90 ANO

Outro livro que indicou, MEMÓRIAS DO SUBSOLO [ou NOTAS DO SUBSOLO], do Dostoievski, causou indignação entre seus alunos, pois era muito pessimista.

Interessante. A garotada de hoje quer histórias felizes. Não se identifica mais com aqueles que abordam os temores e conflitos da alma humana. Talvez porque o conflito de gerações hoje em dia seja algo que apenas seus pais viveram. Os adultos de hoje se assemelham muito aos garotos.

Pensando bem, meus amigos punks hoje têm filhos de mais de 20 anos. Sem falar dos hippies, ou da Geração Anos 60, que já devem ser avós.

Então, qual livro seria apropriado para essa geração?

Ela disse que FELIZ ANO VELHO é um, pois traz mensagem de esperança, além de humor. Ao seu lado, minha amiga NINA LEMOS confirmou. Leu na escola em JUIZ DE FORA. Sei que ainda é adotado. É, para essa geração, o que OS MENINOS DA RUA PAULA foi para a minha: a porta de entrada do universo da literatura.

Quais outros livros?

Na minha escola, indicavam KAFKA [CARTA AO MEU PAI, PROCESSO], SARTE [NÁUSEA, SURSIS], DOSTOIEVSKI [KARAMAZOVSKI], CAMUS [A QUEDA], contos de TOLSTOI, DURRENMATT, THOMAS MANN, além da leitura obrigatória para o vestibular, OSWALD e MARIO DE ANDRADE, MACHADO, GUIMARÁES, JORGE AMADO, MÁRIO PALMÉRIO, GRACILIANO, LIMA BARRETO, BANDEIRA, DRUMMONT e outros.

Soube, pela nova geração de PAIVINHAS, quase nada disso é mais lido no Santa Cruz, tirando a leitura para o vestibular. O que me deixou revoltado.

Aliás, Luana contou que CAPITÃES DE AREIA, de AMADO, é um dos livros que a garotada do Equipe curte. Além de Clarice [A HORA DA ESTRELA].

Professores não deveriam abandonar os clássicos. Nem se intimidar pelas “preferências” juvenis. Deriam obrigar e pronto! Leiam! Quem não ler, repete! Ou mude de escola. Mal não faz.

Para contribuir para o futuro do País, aqui deixo uma lista de livros que eu obrigaria a leitura, caso fosse dono de uma escola. Pela ordem:

ILÍADA, DE HOMERO [claro, começaria pelo começo de tudo]
MIL E UMA NOITES
ÉDIPO REI
DOM QUIXOTE [o começo do romance]
HAMLET
CELINE [cuja parte da história se passa no Brasil]
MADAME BOVARY
OS MORTOS [do livro mais digerível de JOYCE]
CRIME E CASTIGO
CARTA AO MEU PAI
POR QUEM OS SINOS DOBRAM [de HEMINGWAY, o pai do diálogo moderno]
PÉ NA ESTRADA
CEM ANOS DE SOLIDÃO
CONTOS DE BORGES
APANHADOR NO CAMPO DE CENTEIO
COMPLEXO DE PORTNOY

Claro, evitaria PROUST e tantos outros que poderiam “assustar” a garotada, como MONTANHA MÁGICA. Mas incluiria EDGAR ALAN POE, DASHIEL HAMMET, a peça ESPERANDO GODOT, BRECHT. Isso sem falar dos autores brasileiros, que, por enquanto, ainda são lidos, pois caem no vestibular.

Me esqueci de alguém? Aberto a sugestões…

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Esse papo rolou, porque fui ao lançamento do novo livro [RELÓGIO SEM SOL], do amigo e meu veterano na ECA-USP, CADÃO COLPATO. Cabeça da banda FELLINI, de que já falei aqui e fez shows no começo do mês, no STUDIO SP, uma raridade, pois a banda se reúne só quando THOMAS PAPPON, o motor da banda, que mora em Londres, vem passar férias no Brasil.

CADÃO contou que, entes de Thomas voltar para o Reino Unido, eles entraram num estúdio e gravaram um disco do FELLINI- as mesmas músicas que marcaram os anos 80, só que com uma levada mais punk.

Ueba!!! Em breve, estará no mercado.

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