De graça

De graça

Marcelo Rubens Paiva

19 de junho de 2009 | 12h34

Alguém finalmente pensou em como a lei de incentivo à cultura deveria ser executada.

A CCR, concessionária de pontes e estradas, deu a grana, que pagaria para a Receita. Dois produtores de peso, J LEIVA e Sandro Chaim, abraçaram a causa. E, durante dez dias, 33 mil ingressos de mais de 100 espetáculos de São Paulo, de musicais aos mais alternativos, serão distribuidos de graça em postos fixos e móveis [Teatro Municipal, Centro Cultural e outros]. Olha a lista deles e das peças no site:

http://www.festadoteatro.com.br/

A ideia foi do meu ator e palhaço Hugo Possolo. Por sinal, nossa peça, A NOITE MAIS FRIA DO ANO, é uma das enquadradas. Na próxima terça e quarta, no ESPAÇO PARLAPATÕES, o espetáculo será gratuito. E a produção recebe da CCR o equivalente a duas casas cheias pagando meia entrada.

É um ótimo negócio para todos. O que quase segue a rotina: 80% dos ingressos vendidos em São Paulo são meia entrada, fruto da falsificação de carteirinhas. Parecemos nos conformar com tal abuso. Por outro lado, queremos também ingressos baratos e a adesão do público jovem.

Todos questionam a funcionalidade das leis de incentivo, que cobram as despesas de grandes e pequenas produções, viabilizam espetáculos, mas cuja contrapartida em alguns casos não oferece vantagens ao público contribuinte e popular.

O símbolo da contenda é o Cirque du Soleil, que arrecada milhões de empresas que deixam de pagar impostos do incentivo e oferece ingressos a mais de 200 paus.

Aí está uma iniciativa para sacudir o mercado, que nos faz repensar as leis e o papel do fomento da iniciativa mista e privada. Se a PETROBRAS, MASTERCARD, BRADESCO, BR, VISA, TIM, CLARO, VIVO, OI, CORREIOS, ELETROBRAS, SABESP, FIAT, ITAÚ, UNIBANCO e tantas outras fizessem o mesmo, imagina o quanto o País ganharia… Uma semana de cada mês, ingressos gratuitos. No teatro e cinema. Que tal?

*

Esse é o cara.

Depois de protagonizar uma das maiores bilheterias do cinema nacional, MEU NOME NÃO É JONNY, entra em cartaz batendo recordes, A MULHER INVISÍVEL, estreia JEAN CHARLES, rodou o próprio longa, FELIZ NATAL, e, em 17 dias, outro longa de Mauro Lima, REIS E RATOS, com Rodrigo Santoro, filme em preto e branco, no maior clima noir, sobre as trapalhadas de agentes duplos durante o Golpe de 64, cujo tieser [trailer longo de 8 minutos] vi outro dia e, adianto, é pra lá de bom.

No entanto, declarou à ÉPOCA que está em crise de criação. 5 personagens em meses. De onde mais ele pode buscar recursos e inspiração?

Falei sobre isso com minha amiga Bel, atriz de 20 anos, que rodou 2 longas agora, o filme do Arnaldo Jabor e o sobre o Lula. “Quem me dera fazer cinco filmes, cinco personagens, em tão pouco tempo…”

Eu entendo o cara. Teve um ano que fiz 4 peças de teatro [NO RETROVISOR, O CLOSET, AS MENTIRAS QUE OS HOMENS CONTAM e MARCIANOS]. Todas num mesmo semestre. Eu não sabia mais o que dizer nos ensaios ou na divulgação. Não encontrava mais conflitos, frases ou palavras que já não foram ditas. Todos os truques cênicos foram gastos. Entrei num estresse mental.

Encontrei o Selton outro dia na Merça. Ficamos bebendo a noite toda. Falamos disso. No entanto, me veio a luz. Se fazer o que você sabe fazer, cara, já está bom demais. O repertório dele não tem fim. E o público ama.

É o maior ator em atividade. Carisma. Todos o querem. Mistura comicidade com drama como poucos. Abraça a causa do cinema apaixonadamente. Fez CHEIRO DO RALO sem ganhar um tostão; ao contrário, pagou do próprio bolso o hotel em que ficou hospedado na cidade. Usa a publicidade [é garoto propaganda do SANTANDER, você já notou] para escolher os papéis e projetos. Despreza convites para fazer novela. Pensa mais nos desafios do ator do que na conta bancária. Não é o cara?

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências: