Love lovely

Love lovely

Marcelo Rubens Paiva

09 de junho de 2009 | 12h31

No fim de semana eu estava num congestionamento monstro na Dr. Arnaldo. Havia um Jeep antigo ao meu lado. Me lembrei do meu avô Paiva, fazendeiro, que colecionava esses carros.

Na verdade, os comprava como utilitário, para carregar bananas. Chegou a pintar um como uma zebra. Nesse, ele passeava com os netos, para mostrar orgulhoso suas plantações de banana e mexerica. Engatava um reboque atrás e encaixava mais de 20 netos, que pulavam e cantavam. E não aguentavam mais comer banana no café da manha, almoço, lanche da tarde e jantar.

Aliás, aprendi a dirigir num desses jeeps. Todos os meus primos aprenderam dirigir usando jeeps e tratores. Com 14 anos, eu dirigia um trator muito bem.

Na minha família, precisávamos ser “homens” muito cedo. Andar a cavalo com 5 anos. Tocar boiada com 8 anos. Nadar nas águas geladas do Rio Ribeira desde cedo. Atravessar lagos barrentos. Não temer cobras, sapos, corujas, vespas, abelhas, porcos do mato. Todos viraram grandes nadadores e cavalarianos. E garanto que não compram bananas nas feiras.

Admiro quem ainda tenha um Jeep desse na cidade. É um carro duro, sem vedação para ventos gelados, com uma mecânica ultrapassada, motor e suspensão que vivem dando problemas. E estava um frio do cão nesse fim de semana.

Quando eu olho com mais cuidado, reconheço o motorista, de gorro e casaco de couro. Não, não pode ser. Abro a janela e grito: “Aí, negão, tá indo pra guerra?!”

Era o Clemente, meu amigo há 25 anos, líder dos INOCENTES, a primeira banda punk brasileira a estourar em 1982. Chamo-o de “negão”, e ele me chama de “aleijado”, como muitos amigos íntimos dos anos 80 me chamam, o que nunca me incomodou. Éramos todos anarquistas e provocadores. Somos ainda?

Perguntei se ele “traiu o movimento” e enriqueceu. Me contou que pagou 8 paus por aquele carro. Que até aguenta o tranco, mas o maior problema é fazer baliza.

Então, parados no trânsito, me perguntou da família, se estou namorando- sobre essas coisas que as mulheres acham que só entre elas conversam. Clemente é assim. Apesar de ser um líder punk, é dos caras mais sorridentes, gentis e educados que conheço. Só fala de amor e família.

Interessante com alguns personagens são estigmatizados pelo que fazem. Conversei uma vez com Courtney Love, quando ela acompanhou o marido, Kurt Cobain, ao show do NIRVANA no Morumbi.

Eu cobria para a ILUSTRADA os bastidores do show histórico. Almoçamos juntos no hotel em que estava a banda. Ficamos horas falando de literatura e conjuntura mundial. Ela me perguntou muitas coisas sobre a minha vida. Estava interessada em conhecer a rotina de um brasileiro-cadeirante-escritor-repórter. Em nada lembrava a escandalosa grunge viciada em herô.

Sem contar que, sem a máscara da personagem que criou, era linda… O que deixou esse brasileiro-cadeirante-escritor-repórter e com um prazo para descer a matéria bem tímido e sem ação.


A PERSONAGEM


A MULHER

*

Linda… Sim, muitas vezes nos pedem, no jornalismo, para não usarmos adjetivos. Por sinal, já vi diversos escritores afirmarem que a boa literatura não tem adjetivos. Devemos criar imagens [“olhos de ressaca”], não simplificar as observações.

Nunca entendi essa implicância com a indicação que dá qualidade e modifica um substantivo. Em homenagem a ele, o adjetivo, tão desdenhado pela crítica, escrevi no meu livro novo, A SEGUNDA VEZ QUE TE CONHECI, narrado por RAUL, um jornalista com pretensões a poeta:

Fui frila, estagiário, trainee, ela não reclamava, gostava de me ler, comentava, acordava antes e me lia, lia e ria, especialmente quando fui repórter cultural, um péssimo repórter cultural, um erro, fiz até críticas, avaliei peças, livros e filmes, procurei adjetivos inéditos, que maluquice, adjetivos entram em moda, ‘incensado’ virou moda, como já ficou na moda ‘solar’. É, palavras entram em moda, ‘paradigma’, ‘sinapse’, ‘plataforma’, ‘interface’, ‘DNA da empresa’, ‘pro ativo’.

Adjetivos não devem ser utilizados em jornalismo, concordo, só discordo de quem defende que boa literatura é aquela sem adjetivos, porque um adjetivo reduz uma descrição?

O adjetivo é uma das maiores invenções da humanidade, não é, Fabi? Foi quando nos distanciamos dos instintos e passamos a qualificar as coisas de acordo com a única opinião: belo, bom, bonito, ruim, gostoso, fraco, forte, inerente, marxista, fofo, irado, sinistro, anacrônico, histriônico, complacente. Já os críticos podem, devem, abusar dos adjetivos, ruim, bom, feio, go-to-so, go-to-si-nho, você ri, tem roupa que não sai de moda?

‘Emblemático’ é outro adjetivo que não sai de moda, ‘ácida’, para descrever uma linguagem, até eu já usei, e muito. Linguagem ácida define tudo e nada e soa bonitinho, saboroso, go-to-so…”

*

Enfim, depois de muitas negativas, discursos otimistas, baboseiras ditas por homens públicos [marolinha?], que, irresponsáveis, esconderam a verdade, divulgaram os dados. E eles não mentem: estamos em recessão.

Ah, vá… Jura? Ninguém tinha reparado.

Bem. Mais uma. Foram tantas. Outras tantas virão. Estamos calejados. Enquanto o mundo entra em pânico, nos dizemos, com a calma e a sabedoria de quem vive atolado: lá vamos nós outra vez.

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