Equilíbrio?

Equilíbrio?

Marcelo Rubens Paiva

23 de abril de 2009 | 22h46

Dois filmes mexeram comigo nessa semana.

1. SYNECDOCHE, NEW YORK, o primeiro longa do roteirista que arrasta admiradores, Charlie Kaufman (QUERO SER JOHN MALKOVICH, BRILHO ETERNO DE UMA MENTE SEM LEMBRANÇAS), que decidiu acabar com intermediários e arriscar na direção.

Cadem (Philip Seymour Hoffman) é um diretor de teatro hipocondríaco. Sua mulher parece entediada. A filha assimila o pânico do casal. Ele dirige uma peça de teatro (A MORTE DO CAIXEIRO VIAJANTE, de Arthur Miller), colocando dois atores jovens para fazer papéis idosos. Ela pinta quadros minúsculos. Pouco a pouco, doenças aparecem nele. Sua pupila indica problemas neurológicos. Passa a não salivar nem a produzir lágrimas. Depois, tem espasmos e apnéia.

A mulher se manda com a filha para Berlim, abandona o cara, não dá notícias e vira celebridade. Cadem recebe uma grana para criar um espetáculo de grandes proporções. Escala um elenco gigantesco, se instala num armazém e passa o resto da vida ensaiando uma peça hipernaturalista, que fala de todos os momentos da sua vida, inclusive das duas recentes separações e do seu caso sem fim com uma bilheteira de teatro, que mora numa casa sempre em chamas.

O filme foi mal recebido pela crítica. Eu esperava encontrar um cinema vazio. Mas abarrotou- voltava gente. Muitos curiosos para ver mais uma trama desse roteirista que sempre surpreende, fala dos dilemas humanos como poucos e traz um protagonista que procura, até a velhice, entender porque seu primeiro casamento, “o casamento”, não funcionou.

O filme é longo e pretensioso. A trama dá um nó. Mas vale a pena. Sou suspeito. Porque me identifiquei do começo ao fim. Como Cadem, sou hipocondríaco, tive uma vida amorosa incomum [eu ia escrever “atribulada”, mas qual vida amorosa não é?] e escrevo sobre a minha vida ou uma simulação dela, buscando naturalismo, explicações, maneiras de me desculpar.

Outro dia, conversando com uma amiga atriz recém-separada, nos perguntamos se o comum é estar casado com a namorada da faculdade, ter filhos e uma aposentadoria planejada, ou viver como a maioria das pessoas com quem convivo, que tem muitos casamentos, profissões de risco, de altos e baixos, que prefere abandonar um casamento do que mergulhar numa crise em busca de soluções. Sim, invejo casais casados há mais de 20 anos. Sou um romântico abestalhado. Apesar de viver no [e do] caos. Quem está certo, se é que ele existe? Ando piegas pacas… É a idade. Ou o inferno astral. Bem, quem fala “pacas”, tem uma bem avançada.

E adoraria ter um mega elenco representando todos os passos conturbados que vivi, para me exibir meus sentimentos contraditórios, complexos e doloridos. E ensaiá-lo até o fim da vida. Eita ego… Kaufman mergulhou na própria carreira, para entender o sentido do que faz. Vive da sua vida. Isso é ser escritor: viver da vida.

2. O outro filme foi O EQUILIBRISTA, de James Marsh, vencedor do Oscar de documentário de 2009, que relembra a aventura do francês Philippe Petit, artista de rua performático, que há 35 anos se equilibrou sobre um cabo de aço estendido entre as torres gêmeas do World Trade Center (Nova York).

Planejou a empreitada assim que soube que os dois prédios seriam construídos. Arregimentou amigos, foi diversas vezes a NY, falsificou documentos, burlou a segurança, treinou (já tinha andado sobre um cabo em Paris, na Notre Dame, e numa ponte de Sidney). Era uma operação de guerra, quase um atentado sem vítimas contra o empreendimento destruído no 11 de Setembro.

E pra quê? Ele mesmo não soube explicar, indagado pela imprensa depois do feito. Não queria chamar a atenção para nenhuma causa, não vendia um produto; ao contrário, gastou uma grana para apenas andar sobre um cabo de aço a 450 metros do solo, num símbolo da engenharia e de um País. Até o guarda que o prendeu se maravilhou com o feito. E pra quê? Pra se equilibrar, arriscando a própria vida. Algo que nos toca, nós é comum, nos remete à liberdade, como uma travessura infantil. É uma provocação contra a normalidade, o equilíbrio sobre o desequilíbrio.

Tenho um ENORME quadro em casa chamado O Equilibrista, pintado para mim pela minha amiga de infância Cacau. Ela disse que o quadro é a minha cara. Almoço todos os dias diante dele, me perguntando se sou realmente um. Quem não é?

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