Tiro no pé global

Tiro no pé global

Marcelo Rubens Paiva

09 Janeiro 2019 | 12h48

Vídeo Show era um dos melhores programas de variedade cultural até o fim do milênio. Quando a emissora deu um tiro no pé.

Nele, a agenda cultural das grandes cidades.

Equipes com Cissa Guimarães, Renata Ceribelli e Virgínia Novick nos entrevistavam em estreias de teatro, lançamentos de livros e exposições.

Obrigação exigir a nossos divulgadores um telefonema à produção do Vídeo Show.

Que comparecia e cobria tudo em cultura, divulgava a um amplo público, feminino e teen. Sem preconceitos.

Na estreia da minha peça E Aí, Comeu?, lá estavam eles debatendo o machismo decadente do papo de bar, tema da peça.

Foi a Era Boni.

Desde 1983, nomes como os de Marcelo Tas, Paulo José, Tony Ramos, Patrícia Pillar, Malu Mader, Miriam Rios, Carla Camuratti, Paulo Betti, Kadu Moliterno, Lúcia Veríssimo, Júlia Lemmertz, Herson Capri, Fernanda Torres, Débora Bloch se revezaram na bancada de apresentadores.

Idade não era impedimento: foi apresentado também por Eva Wilma, Dennis Carvalho, Nuno Leal Maia, Paulo César Grande, Paulo Goulart, Lucélia Santos.

Era uma festa com a cara de Dennis Carvalho.

Miguel Falabella, com seu carisma e cultura teatral, fez história.

Quando Marluce Dias assumiu como diretora-geral (ficou entre 1998 e 2002), oriunda do BNDES e do RH, substituindo Boni, o programa bateu num iceberg.

A com pouco experiência em programação, no cargo para ajustar as contas da empresa, decidiu que a rede batesse bumbo para a rede.

E que o programa ficasse apenas na programação da emissora, debatesse novelas, entrevistasse atores da casa, falasse dos produtos da empresa, vendesse a programação, mostrasse os bastidores do Projac.

Como se, na câmera do celular, invertêssemos a imagem para um selfie.

Ora, o que era mirado para fora, focou o umbigo.

Além de cinco horas de teledramaturgia própria exibidas por dia, agora tínhamos de aturar um programa sobre a mesma dramaturgia, com a inclusão dos realities e apresentadores sem repertório.

No caso de E Aí Comeu?, por conta do prestígio e sucesso da peça, que ganhou Prêmio Shell de melhor texto em 2000, rolou um movimento contrário: atores da peça foram reabsorvidos pela Globo, como Felipe Camargo e Bianca Byington, e eu passei a escrever para a rede, com Felipe Cardoso e depois para a dupla João Falcão & Guel Arraes.

Virou chapa-branca.

Perdeu a essência.

Perdeu o encanto. Perdeu o sentido, o público, a voz antes relevante.

Afundou.

E, cuidado. A emissora continua a prática de selfie. Não entrevista atores de outras emissoras, não divulga filmes que não sejam produzidos pela Globo Filmes, proíbe gente contratada da casa em programas de outras emissoras e, principalmente, de atuarem em séries de outros streamings.

Erro que a Globo News, Sport TV, GNT  Multishow não cometem.

Abra o olho…