Telefone sem fio – retirada de árvore causa tumulto em escola

Telefone sem fio – retirada de árvore causa tumulto em escola

Marcelo Rubens Paiva

24 Maio 2017 | 12h08

 

Professores anunciaram que vão aderir à greve geral da sexta. A direção da escola não interferiu, reprimiu, ameaçou. Pediu apenas que bolassem um jeito de avisar às crianças. Que aproveitassem o momento para praticar uma experiência pedagógica, debatessem princípios da democracia, explicassem o que era uma greve, por que ficariam sem aula na sexta.

Era uma pré-escola que eventualmente promovia discussões e exercícios baseados na realidade.

Os pais teriam que ser avisados, para se planejarem. Se bem que, em se tratando de greve geral, acreditava-se que os pais, diante de um mercado repleto de opções, matricularam conscientemente seus filhos numa escola que, sabiam, costumava fazer exercícios baseados na realidade. Os pais não só adeririam à greve, como provavelmente já se planejaram.

Um (ou outro) pai (ou mãe), claro, se revoltaria. Acusaria a escola de aderir a um movimento conduzido por esquerdistas que querem transformar o Brasil numa outra Venezuela, que deveriam se mudar para Cuba, levar seus filhos a estudar (e passar fome) em escolas cubanas, em que sofreriam lavagem cerebral para se transformarem em massa de manobra do comunismo internacional.

Crianças que deveriam ler mais Mises e menos Marx.

Uma minoria se revoltou com a notícia de que a escola aderiria ao movimento de parar o país contra reformas que tirariam alguns direitos trabalhistas.

Um deles, que já se revoltara anteriormente, quando os alunos da escola, num exercício de cidadania, organizaram a simulação de uma votação à eleição municipal, em que, diferentemente do resultado oficial, ganhou o candidato da extrema-esquerda, seguido pelo candidato da esquerda, deixando em último o candidato considerado coxinha, o que de fato foi diplomado prefeito da cidade, sugeriu em e-mails enviados à direção, e ele sempre enviava e-mails à direção, que a escola abrisse as portas para todos os “pobres e negros do bairro” (assim mesmo ele escreveu), se quisesse de fato transformá-la numa comuna exemplar, e deixasse sem-teto, imigrantes sírios e haitianos se alimentarem com as crianças.

E-mail que a direção, claro, não respondeu.

Os professores, a maioria jovens pesquisadores, estudantes de psicologia, pedagogia, fariam uma roda, como costumavam fazer rotineiramente, com as crianças de seu grupo. Uma delas teve a ideia: e se inventarmos que a direção da escola pretende tirar a árvore do meio do parque, que serve de lastro a balanços de tiras de pneus, em que as crianças brincam?

Aquela árvore resiste há décadas. Testemunhou o crescimento de gerações. Homens e mulheres adultos, profissionais liberais que fizeram pré-escola naquela escola, e que matricularam seus filhos nela, lembram-se da árvore com carinho.

Diremos que a direção tiraria a árvore, e que todos, crianças e professores, se organizariam para protestar e demandar que a árvore continuasse onde sempre esteve.

O lamento foi geral. Crianças choraram. Perguntaram o que poderia ser feito para reverter e manter a árvore tão querida em seu lugar. O papo na roda foi direcionado para que se organizassem e protestassem.

Então, foi-lhes explicado que, não, a árvore não sairia, era uma hipótese, e que esse era o sentido de movimentos sociais se unirem para protestar e demandar, que é o que fariam na sexta, eles e muitos profissionais, professores, diretores, pais, funcionários, porteiros, estudantes, trabalhadores.

Sexta-feira, enquanto manifestantes estavam em praças discutindo as reformas (os pais foram convidados), uma criança comentou em casa que tirariam a árvore. A mãe correu para o grupo de pais do Whatsapp e perguntou se era verdade o que foi dito pela filha. O que foi perguntado em outras casas a outras crianças, no dia em que a cidade parou. Algumas negaram, afirmaram se tratar de um jogo. Mas o boato se espalhou.

Pais se indignaram. Por que tirariam a árvore?! Estudei naquela escola, aquela árvore faz parte do meu imaginário, foi importante para a minha educação, para aprender a respeitar a altura e a me segurar em cordas e balançar, e desenvolver domínios corporais, que ele pode, com a ação coordenada dos braços, me levar para cima, flutuar, para o alto, para o céu, e voltar, subir e voltar…

No sábado, a boataria migrou para outros grupos de pais de outras turmas. A revolta se instaurou. Não, não deixaremos arrancar a árvore, precisamos nos organizar, protestar.

Iniciaram um abaixo-assinado online, uma petição. Outro pai montou uma pesquisa: quem era a favor ou contra tirar a árvore. Domingo, montaram gráficos coloridos com estatísticas para serem enviados à direção.

Sugeriram entupir os e-mails da escola com protestos. Outros sugeriram abraçar a árvore nas primeiras horas da manhã de segunda. Outros achavam melhor não levar os filhos na segunda, como numa greve.

Um pai jornalista ficou de mandar a história para os jornais: um crime ambiental ocorreria no coração do bairro. Até aí, grupos em outras redes sociais foram formados. Denúncias com fotos da árvore tão querida, publicados com textões, eram compartilhadas por ex-alunos. Usuários postavam fotos suas de criança com a árvore ao fundo.

Amanheceu. Segunda-feira, para a surpresa do porteiro, dos professores e na direção, nenhum aluno aparecia. Uma leve neblina pairava no bairro. A rede de computadores da tesouraria travou. Uma enxurrada de e-mails carregados com fotos derrubou o sistema.

Uma passeata surgiu na rua. Faixas travaram a entrada da escola. O trânsito foi desviado. Uma comissão de pais e ex-alunos trouxe uma equipe de TV, advogados, ambientalistas, o Ministério Público e um representante da subprefeitura. Entrou para negociar.

coluna do caderno 2 do dia 20/05/2017