supersuper-homem

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Marcelo Rubens Paiva

15 de novembro de 2010 | 12h25

Uma amiga brasileira teve uma relação com um americano e se surpreendeu. Defendeu:

São os melhores.

Era educado, gentil, carinhoso. Narrou:

“Ele me pedia licença para tudo. Perguntava: Posso te beijar? Sim, eu respondia. Posso abaixar a alça do seu vestido? Sim. Posso beijar o seu pescoço? Sim. Posso segurar? Sim. Posso abraçá-la mais forte? Sim…”

Comecei a rir, enquanto ela enumerava a trajetória de propostas e permissões por etapas.

Até, curiosa, me perguntar por que eu ria tanto.

“Ele segue o manual”, expliquei.

“Que manual?”

No começo dos anos 90, os Estados Unidos acompanharam o julgamento de Mike Tyson com atenção redobrada.

Não era apenas mais uma disputa racial.

Questionava a prática sexual de toda a sociedade.

Ele era acusado pela ex-miss América Negra, Desiree Washington, de assédio e estupro. A única prova era o testemunho dela contra o dele, um dos maiores ídolos do boxe, imbatível no tablado, mas com queixo de vidro na vida pessoal.

O caso ganhou a dimensão de um ringue em que se luta com conceitos.

Mas definiu enfim as regras que os novos tempos pediam: afinal, o que é juridicamente assédio sexual.

A resposta foi dada pela Corte. A partir do momento que um homem escuta um “não” de sua parceira, deve parar. E para aqueles que defendem que um não pode ser um charminho, inerente ao jogo de corte, e requer mais talento do sedutor, lembrem-se: pode dar em cana se prosseguir.

Como deu para Tyson, que viu por quatro anos o sol nascer quadrado.

O caso deu munição à guerra dos sexos.

Juízes, professores, empregadores, atletas, colegas de sala de aula passaram a ser processados por assédio sexual. Até uma grande rede de supermercados recebeu um processo milionário coletivo de suas funcionárias. E perdeu.

Normas foram criadas.

Numa universidade de Chicago, determinou-se que professores e alunas se reunissem com as portas abertas. Se um professor estivesse num elevador, e uma aluna entrasse, ele deveria sair, para não levantar suspeitas.

A paranoia se estendeu.

Não se sabia mais o que era xaveco ou abuso.

Nos bares, homens evitavam olhar para as mulheres. Tinham os olhos fixos em livros e revistas, ou no vazio, temendo escutar: “Tá olhando o quê?!”

A taxa de natalidade deve ter despencado naqueles anos de submissão ao politicamente correto.

Quando me inscrevi para estudar na Universidade de Stanford em 1994, recebi um formulário a ser preenchido e um manual do significado de assédio sexual. Ilustrado.

Folheei curioso quando cheguei em casa.

Dizia que cada passo da sedução deve ser consensual. Que se deve pedir permissão para acariciar, beijar, tirar a roupa, abraçar, amar. E que, se em determinada etapa, escutarmos um “não”, a corte deve ser interrompida imediatamente. Pois não deve existir um segundo não. Seria assédio, caso ele fosse proferido.

Foi o erro de Tyson, que lhe custou a liberdade.

Por isso, informei a minha amiga, que ficou decepcionada:

“Talvez os americanos sejam prudentes e preservam a sua liberdade. Por isso ele perguntou se podia abraçar, beijar, abaixar a alça do vestido etc. Deve conhecer o manual.”

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Quem acompanha a série de TV Mad Men, vencedora do Globo de Ouro e do EMMY de 2008 e 2009 (Melhor Série Dramática), que se passa no começo dos anos 60, surpreende-se com o ambiente em que a tensão sexual contaminava e ainda contamina muitas repartições.

O título é uma corruptela de homens da Madson, avenida em que se concentravam as agências de publicidade de Nova York.

Mas retrata também a loucura de um universo dominado pelos homens, em que quem manda são eles. A elas, o cargo de secretárias e telefonistas.

E o assédio entre patrões e empregadas é rotina, num explícito jogo de poder.

Ainda é na maioria dos locais de trabalho.

Chefes paqueram subalternas.

As novas estagiárias viram alvo de toda a munição masculina.

E a gata do escritório vive o drama de provar que, além de gostosa, tem cérebro.

Na primeira temporada da série, a mulher do protagonista, Betty, “tem tudo”: uma boa casa, um bom marido, Don, publicitário bem pago, filhos saudáveis. No entanto, inexplicavelmente, sente pânico. Vai ao psiquiatra, inconformada por duvidar da qualidade de sua vida, enquanto o marido visita rotineiramente o leito de uma amante beat às tardes.

Este costume é um dia abalado pelos pilares da emancipação sexual da mulher.

E mudou o homem.

Vemos nascer o super-homem.

Não aquele de Nietzsche, que se sente só e deve criar suas próprias regras e destino, já que Deus está morto.

Mas o que deve radicalmente aposentar as certezas ditas pelo comportamento passado e aprender com o feminino: a cozinhar, trocar fraldas, lavar a louça, cuidar de tarefas domésticas e, surpresa, obedecer.

Algo inconcebível por nossos avôs.

O super-homem deve agora ser duro, mas sensível em equilíbrio, decidido e duvidoso, romântico, mas nem tanto, zelar pela segurança e dividir, respeitar e tolerar, entender as divergências e a inconstância.

Aceitar ganhar menos que a mulher, ser a babá da casa eventualmente, e até tirar as botas da dona do lar, se ela chega cansada depois de uma rodada de trabalho e uma esticada num pôquer com as amigas.

Afinal, ela agora tem salário, planos de saúde e aposentadoria, é suficientemente independente para dizer good-bye, caso seu super-homem não seja um supersuper-homem.

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