super-herói c’est moi

super-herói c’est moi

Marcelo Rubens Paiva

29 de julho de 2012 | 21h56

Cachorros que falam, que protagonizam um dos beijos cinematográficos mais celebrados pela indústria, o de A Dama e O Vagabundo, ursos que são guias e divertidos, patos que têm sobrinhos, simbolizam a avareza de um capitalismo ganancioso e convivem numa cidade com outros cachorros…

Que tal uma cidade com gatos vira-latas que infernizam a vida de um policial de ronda, o Guarda Belo?

Gatos e ratos amigos que se perseguem mas se unem nas diversidades. Ou um passarinho ingênuo, feliz, Piu Piu, preso na gaiola da contracultura, que repete doidão como se viajasse de ácido: “Acho que vi um gatinho…”

Sem contar o Coyote que persegue pelo deserto um avestruz que só diz “bip bip”, o Papa-Léguas, e se comunica com a plateia por placas de sinalização.

Temos esquilos que convivem com mamutes da Era Glacial e disputam uma noz entre icebergs, bichos do zoológico de Nova York, no Central Park, que entediados decidem dar um rolê por Madagascar, ou esqueletos e animais empalhados do Museu de História Natural, do outro lado do parque, que ganham a vida à noite.

A imaginação desses americanos não tem limites.

E, surpresa, praticamente todos, até ditadores, como o da Coreia do Norte, e seu irmão, que foi flagrado com um passaporte falso tentando entrar na Disneylândia japonesa, se identificam com seus delírios.
De um império que se alimentou de contos de fada da tradição oral medieval que, com o avanço das técnicas de impressão e industrialização do livro, se popularizaram, atravessaram oceanos e ganharam outras formas. Arquétipos que revelam nossos segredos mais bem guardados, desvendados pelos Irmãos Grimm e Charles Perrault.

É infinita a quantidade de interpretações do sucesso dos personagens da indústria de entretenimento americana.

Começaram em tiras de jornais e exploravam apenas o humor. Os tempos foram ficando difíceis.

De grandes cidades brotou o vilão, fruto da psicopatia e violência desordenada, que se esconde no anonimato de Gothan City, Smallville ou Manhattan. A evolução da indústria bélica forçou o alistamento em laboratório de homens com mais poderes. Talvez o super-homem de Nietzsche esteja por trás das solitárias figuras que, dada a incompetência do Estado e a morte de Deus, arregaçam as mangas, desenrolam as capas e saem voando para lutar contra o mal.

Tarzan, Zorro, Buck Rogers, Fantasma, Flash Gordon foram os primeiros a aparecer em livros populares, quadrinhos, novelas de rádio e filmetes.

Suas identidades são secretas, e todos têm uma força e habilidades acima da média. Como Sansão, Ulisses e Hércules, personagens bíblicos e da mitologia.

O fetiche por eles vem desde os gregos.

Os três grandes, Super-Homem, Batman e Homem Aranha, são órfãos. E há mais coisas entre eles do que a farda- como guerreiros que fazem pinturas de guerra no corpo ou soldados que vestem uniforme-, uma mulher e o tilintar do livro-caixa da Marvel e DC Comics. Por trás da máscara, eles são “quase” como a gente.

O primeiro é o lado oculto do nerd Clark Kant, jornalista míope, malsucedido, que por vezes sofre assédio moral no trabalho.

Homem Aranha é Peter Parker, estudante que sofre bullying na escola, tira fotos nas horas vagas e mora com a tia.

Batman é Bruce Wayne, playboy e filantropo, soturno e assustador, niilista que acredita que o mundo viverá sempre nas trevas.

Combatem o crime com ou sem a ajuda da polícia local. Enquanto o primeiro é de outro planeta, o segundo é do subúrbio, e o terceiro, um milionário sofisticado, marrento. O auge das refilmagens de Batman foi na década da farra dos derivativos.

Com a quebra do Lehman Brothers e o abalo de confiança nos mercados, é o Homem Aranha o represente do sujeito “comum” que estreia uma nova trilogia com Andrew Garfield e se torna disparado o mais lucrativo herói, dispensando a presença de Tobey Maguire e outros Vingadores.

Super-Homem nasceu em 1938 justamente quando o mundo em desordem se preparava para entrar em guerra contra uma incógnita, um armamento desconhecido e de grande poder. Seu uniforme, como o do Homem Aranha, tem as cores da bandeira americana. Estranhamente o Homem de Aço veste a cueca por cima das calças. Por causa dele se cunhou o termo “super-herói” (superhero).

A tragédia com Christopher Reeve, que caiu do cavalo, ficou tetraplégico e morreu de infecção generalizada, contaminado como o personagem por uma criptonita fatal, o levou à gaveta. Em 2013 ele volta. Ao apresentar trechos do Super-Homem com Henry Cavill durante a feira Comic-Con, em San Diego (EUA), o diretor Zack Snyder disse: “Superman precisa ser apresentado a uma nova geração.”

Precisa? Sim, na guerra contra o terror, e quando sociopatas emergem dos bueiros se confundindo com vilões e fuzilam espectadores na sala de exibição de uma superprodução, é melhor convocar todos eles.

 

 

Os tempos mudam, os heróis ganham parceiros. Mulher-Maravilha e Batgirl surgiram com a emancipação feminina. Como As Panteras, que são habilidosas na luta marcial e no xaveco.

Lanterna Verde agora assumiu ser gay, apesar de há décadas a relação Batman e Robin levantar suspeitas.

 

 

Os X-Men são contemporâneos ao debate dos direitos civis- um paralelo entre os projetos e diferenças de Luther King e Malcom X. Professor Xavier, líder de uma facção, é a favor de uma convivência pacífica entre mutantes e humanos, embora sejam descriminalizados, ao passo que Magneto, dissidente, propõe pegarem em armas e partirem para uma racha definitivo, uma revolução mutante.

Hulk, o meu super-herói preferido, o solitário andante que, quando sofre assédio ou ameaça, se agiganta, era a fantasia de todo adolescente que, como eu, apanhava mais do que batia. Capitão América anda fora de moda. É muito nacionalista para uma era globalizada. Homem de Ferro, Wolverine, Sr. Fantástico, Tocha Humana, Mulher Invisível, O Coisa, Thor, Justiceiro precisam aparecer juntos para angariar público.

O super-herói revela nosso lado sombrio, ou o oposto, nós o criamos à nossa semelhança?

Até hoje não se sabe o efeito que a representação tem sobre o real.

Não me lembro de nenhum jovem imitar o príncipe da Dinamarca, se vestir de preto, matar toda a família afirmando que recebia ordens do fantasma do pai.

 

 

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