Suba

Suba

Marcelo Rubens Paiva

01 de dezembro de 2009 | 12h04


FOTO RUI MENDES

Este é SUBA. Músico iugoslavo que veio ao Brasil pra estudar bossa nova no período Collor. Tinha uma bolsa [do governo brasileiro]. Chegou na confusão do impeachment. Ficou perdido por aqui.

Até pouco a pouco fazer amigos. E se casar com TACIANA BARROS, irmã da NATÁLIA, que era da banda FANZINE, programa que eu apresentava na TV CULTURA, nos anos 90. Ambas santistas, como os PAIVA.

Gravaram um disco deslumbrante. Então, ele produziu o disco do EDGAR SCANDURRA. E não parou mais.

Dava à música brasileira contemporaneidade. Mesclava nossos ritmos mais puros com as batidas do que se tocava na Europa. Reinventou a MPB.

Descoberto, passou a ser requisitado. Produziu discos da Bebel Gilberto, Marina Lima, Daniela Mercury, uma faixa com Chico Science, entre outros.

Porém, o incomodava afastar de seus projetos e tinha o sonho de gravar o próprio disco.

Me pediu umas letras para serem musicadas. Eu raramente escrevo letras de música. Acho das coisas mais difíceis, apesar de eu ter começado na “vida literária” como compositor.

Éramos amigos. Morávamos no mesmo bairro. Conheci quando ainda não falava português. Passei uma noite lhe contando em inglês que meu pai tinha passaporte iugoslavo. Portanto, éramos conterrâneos.

Explico. Em 1964, meu pai, durante o golpe militar, teve que fugir do Brasil e se refugiou com dezenas de outros na embaixada da Iugoslávia, pulando o muro. Segundo eles, porque era a única que tinha piscina na recém-inaugurada Brasília.

A ditadura demorou meses para permitir que saíssem do país com um salvo-conduto. Eles moraram nessa embaixada, onde comemorei meu aniversário de 5 anos.

Então, meu pai foi exilado, teve os direitos civis cassados, e não lhe deram o passaporte brasileiro. Mas a Iugoslávia deu. Até antes de morrer, meu pai ainda usava este passaporte.

Voltando.

Seis meses depois reencontrei Suba, e o cara já falava português. Em meses, aprendeu? Ou a bebedeira era muito forte.

Quando ele e Taciana me pediram a letra, não imaginei que o projeto, SÃO PAULO CONFESSION, tivesse aquela dimensão.

Ele e a TACIANA editaram. Ela cantou. O disco foi lançado. VOCÊ GOSTA, a nossa música, virou a música de trabalho.

Virou um fenômeno na Europa. Ganhou vários remixs. Saiu elogios até na Rolling Stone americana. Madonna declarou que era seu disco preferido.

Então, numa noite de 1999, a quadras daqui, ele dormiu com um cigarro aceso. Ou teria sido um curto no maluco estúdio dele, um quarto apertado com dezenas de aparelhos eletrônicos plugados em poucas tomadas.

Foi o porteiro quem viu a fumaça saindo pela janela do prédio da João Moura. Subiu correndo, bateu na porta.

Chegou a acordar SUBA, que saiu, mas se lembrou que tinha 40 mil dólares em dinheiro, que levaria para a mãe na Iugoslávia, sob bombardeio da OTAN, dois dias depois.

SUBA era a contradição da guerra: seu pai era sérvio, e a mãe, croata, e viviam na fronteira entre as duas regiões inimigas e em luta sangrenta.

Ou voltou para o apê já tomado pela fumaça tóxica para salvar a demo do disco da Bebel Gilberto. Ninguém sabe. Suba voltou. E não saiu mais. Seu corpo foi encontrado pelos bombeiros, no rescaldo.

Sua morte precoce chocou os amigos. Foi desesperador. Enquanto isso, seu disco estourava na Europa.

E hoje vamos relembrá-lo no SESC POMPÉIA, às 21h, com presença de todos, inclusive de Taciana, Edgar, João Parahiba, Marina Lima, Daniela Mercury.

SUBA CONNECTION

Em que lerei a letra original de VOCÊ GOSTA, música que fiz para a TACIANA.

VOCÊ GOSTA

Eu sei do que você gosta
Azul, eu sei que você gosta
Suor, eu sei que você gosta
O mar, eu sei que você gosta
Amar, você gosta de mim

Você não gosta de dormir
E não gosta de acordar

Você gosta que eu descubra do que gosta

Você gosta de fazer música
E gosta de ficar muda
Você gosta de beber sem gelo
Eu gosto de ser seu cowboy
Você gosta de rima
E disso eu não gosto
Você gosta de rir
E disso eu também gosto
Você gosta de fazer careta
E disso eu adoro

Você gosta de coisas que eu não entendo
E mesmo assim você gosta de mim

Você gosta de fazer perguntas
E não gosta de ouvir as respostas
Você gosta que eu te cubra
De agosto, setembro e outubro
De chuva, vento e lua
De sombra, você quer ter um filho meu
Você gosta que eu te pegue de costas
E se esconde quando a luz se acende
E mesmo assim você gosta de mim

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