Stand up!

Stand up!

Marcelo Rubens Paiva

17 de novembro de 2009 | 14h05

Ter amigos artistas requer algumas obrigações éticas, como comparecer em seus eventos.

Me senti no dever de ir ao Shopping Eldorado, num sábado à noite, para ver o meu amigo LEO JAIME, flamenguista, astrólogo, taurino como eu, no palco do Teatro das Artes.

A turma do pôquer de dadinhos ia. Mas deu o cano!

LEO já fez teatro, já o vi em cena e gostei. Me falou por alto que se tratava de um show de stand up comedy carioca. Fui com um pé atrás [ôps, no sentido figurado…]. Porque o gênero americano se popularizou de tal forma no Brasil, que nos oferece coisa boa, mas muita porcaria.

É interessante como demorou para pegar. Me lembro da GRACE, de quem sou amigo há… Melhor não falar, ela pode me bater. Com MARCELO MANSFIELD e ANGELA DIP, no AEROANTA.

Não faziam exatamente stand up comedy, eles tropicalizaram a coisa. Era uma síntese entre o besteirol e o stand up.

A TERÇA INSANA movimentou atores de stand up, mas que diferem do gênero americano, pois representam personagens, enquanto o original é aparentemente um desabafo de um cara comum. Gênero que movimenta tanto dinheiro nos EUA quanto o teatro. E que dominou o horário nobre da TV [Carson, Letterman, Seinfeld, Jay Leno].

Vi há uns anos os stand ups dos meninos que agora estão no CQC, Rafinha Bastos, Oscar Filho, e confesso que vibrei. Sim, era possível o gênero americano se instalar e se desenvolver no Brasil. Apesar de parte da classe teatral torcer o nariz.

Num mês, vi 3 show do ainda desconhecido Danilo Gentili. Um inclusive no bar do ESPAÇO PARLAPATÕES, de onde não arredo o pé [outra expressão figurada…]

E aplaudi de pé [chega, vai!] o moleque que quase não repetia as piadas.

Agora, há páginas nos guias culturais indicando os shows de stand up. Pegou.

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Cheguei naquele shopping abarrotado, intransitável, inestacionável, cruzei a praça de alimentação, que mais parecia a cela de uma delegacia super lotada.

Entrei por último no teatro. Imaginei ouvir uma quantidade enorme de piadas bobas, que falam de pum, coco, bichas, sogras, e com muitos palavrões, porque, mágica, alguém sempre ri quando se diz um palavrão. Dercy sabia disso muito bem.

O que vi foi um dos mais técnicos e sofisticados shows de stand up. E muito engraçado, lógico.

Do grupo COMÉDIA EM PÉ, que há anos pratica o gênero no Rio, se autodenomina o primeiro grupo de stand up do Brasil, pesquisa o assunto, viaja para Nova York só para se aprimorar, lê tudo quanto é livro sobre o gênero, explora a técnica e até já escreveu livros e manuais.

LEO JAIME, piadista de plantão, não decepcionou.

Cláudio Torres Gonzaga é o “mestre de cerimônia”, e já emplaca várias piadas sensacionais. A começar por um cara procurando vaga num estacionamento do shopping. “Sou daqueles que pegam o ticket e coloca na boca. Poderiam dar um sabor pra a gente ficar chupando, enquanto procuramos vaga.”

Eu também coloco o ticket na boca. A identificação rola na hora. Pronto, tá aí o segredo. Mostrar o ridículo das coisas banais.

O cara é ator e diretor de teatro, redator da Globo, onde escreveu para Escolinha do Professor Raymundo, Sai de Baixo. Atualmente é redator de A Grande Família. E está naquele quadro do Fantástico, EXAGERADOS, a única coisa boa do programa, junto com os gols da rodada.

Entram Paulo Carvalho, experiente ator de teatro, e Leo Lins, o único que não é ator, diretor, nem produtor. É comediante stand-up! Escreveu um livro sobre o gênero. E começou perguntando: “Alguém me viu no Fantástico?” Dois caras levantaram a mão. “Que estranho, nunca apareci no Fantástico”, ele disse.

E Fábio Porchat, ator, diretor e autor teatral. Que faz uma hilária performance de como ligar para a NET. “É preciso de um dia de folga do trabalho para ligar para a NET.” Ele também está em EXAGERADOS, que renovou a participação no programa dominical.

Bem, são descolados, estão no Youtube, Twitter, e, incrível, levando para o teatro pencas de adolescentes, o que há muito eu não via. Jantei com os caras depois, e me contaram alguns truques e garantiram que repetem pouco as piadas.

Vou levar a turma do pôquer e checar.

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Bem, agora sim, é a última semana da peça A NOITE MAIS FRIA DO ANO no Rio, hoje e amanhã, 21h, e só.

Fizemos na raça, pagando do bolso as passagens, só para mostrarmos a peça para esta cidade tão importante no cenário cultural brasileiro.

Muita gente pergunta se irá para outras cidades, me cobra. “Vem pra Goiana”. “Traz a peça pra Salvador.” Não é bem assim.

Iremos para Lorena, dia 2 de dezembro e talvez fiquemos de novo em cartaz no ESPAÇO PARLAPATÕES, a nossa casa, em fevereiro de 2010.

Não, não irá para outras cidades, porque é absolutamente inviável fazer teatro itinerante sem patrocínio. E eu lamento isso, porque minhas primeiras peças viajavam o Brasil sem patrocínio, de Porto Alegre a Manaus, e davam lucro.

Havia o “frentista”, produtor local que agendava as pautas, arrumava hotel e ganhava a sua parte da bilheteria. Tínhamos amigos na VARIG, TRANSBRASIL ou VASP, para quem ligávamos para pedir descontos nas passagens.

A da VARIG, de quem eu não me lembro o nome, era amiga de toda a classe teatral.

É, sou do tempo em que não existiam as leis de fomento. Teatro era um produto. Vendíamos o nosso talento.

As leis de fomento e incentivo alimentaram a cena teatral alternativa, ressuscitou o teatro, trouxe público, especialmente o jovem, novidades, gerou grandes companhias, autores, diretores inovadores, atores sem os vícios do naturalismo.

Mas nos deixou dependentes e viciados numa relação mercantil fantasiosa.

Para alguns grupos, o público passa a ser secundário. Prioritário é patrocínio, o projeto- objetivo e justificativa, orçamentos-, a montagem.

O truque da meia entrada era o que faltava para transformar o teatro num hobby para quem faz, já que costumamos gastar mais do que ganhar. 80% pagam meia: esteliotato e falsidade ideológica.

Não estou reclamando. Ao menos, graças às leis, ao SESC, editais, prêmios, ainda temos a chance de fazer teatro nesse País em que uma família prioriza o CARRO ZERO, não a cultura de todos.

O dinheiro que sobra não é gasto em livros, peças e filmes para os filhos. Vai para a indústria automobilística.

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