Singing in the rain?

Singing in the rain?

Marcelo Rubens Paiva

17 Fevereiro 2010 | 01h10

Não tem jeito, dependendo do bairro, choveu, acaba a luz, mesmo em ano de eleição.

Em janeiro, mais de mil árvores caíram na cidade, levando junto a fiação. Por que não as podam, não escoram as mais frágeis ou corroídas por cupins? Porque nem a queda de mil árvores é suficiente para comover um burocrata municipal.

Por que não enterram a fiação? O ex-vereador Nabil Bonduki passou quatro anos do mandato tentando entender e organizar a ocupação do solo. Enviou um projeto de lei propondo aterrarem os fios e criarem galerias subterrâneas, para garantir a livre circulação de pedestres. Não recebeu apoio.

Matou a charada: não interessa às concessionárias de exploração de serviço público a fiação subterrânea.

Simples. A prefeitura passou a alugar o espaço aéreo para a Eletropaulo instalar os postes, que por sua vez aluga os totens de concreto para as telefônicas, tevês a cabo, redes de transmissão de dados e de fibra ótica. Ninguém quer abrir mão do dinheirinho que corre à vista de todos.

A concessionária entrou com uma liminar, defendendo que o aluguel passou a ser cobrado depois da privatização. Portanto, ela teria o direito adquirido de não pagar. E não paga. Mas cobra dos outros.

Enfeia a cidade, interrompe os serviços temporariamente, porém dá lucro. É o símbolo do desprezo.

Quinta-feira, dia 4, eu tomava um café na esquina com um amigo, quando começou a chover às 17h. Sugeri de imediato subirmos para o meu apê, antes que acabasse a luz.

Dito e feito. Entramos em casa e, bum, explodiu algum transformador perto, caiu alguma árvore ou um meteorito, ou um gato se abrigou no lugar errado, e lá se foi a luz.

Cacei as velas pela casa. Separei alguns livros. Semanas antes, eu ficara cinco horas no escuro, sem velas. Desta vez, me preparara.

Não segui os conselhos do Kiko, com quem passei o blecaute de 2009, que tem um verdadeiro kit de sobrevivência em casa, lanternas de emergência, lampiões e violão acústico à mão. Mas comprei velas de reza, aquelas que duram sete dias.

Meu amigo se foi. A chuva, idem. Até apareceu um disparatado pôr-do-sol. E depois a lua. Eis que descubro que não se consegue ler com velas de reza. Nem em braile. A luz é muito fraca.
Encontrei tocos de velas de outros apagões. Entendi o mecanismo delas. Não é a grossura do rolo de cera que garante a luz de que um leitor precisa. É a do pavio. Ele é o rei do candelabro.

Sugestão: que se informe nas embalagens a duração de uma vela (além das de reza), pois as minhas duraram poucas horas, e, descobri, não se lê à luz da lua. Restou a chama infeliz de algumas velas de reza, que iluminam apenas os espíritos.


FOTOS JORDANA PAIVA

Passei a noite brincando com Hugo, o gato. Ao ponto de ele se entediar. Nunca ninguém brincara com ele por tanto tempo. Esses humanos são muito instáveis, deve ter pensado, ou me ignoram, ou me estressam.

Nem telefonei para a Eletropaulo. Imaginei a atendente fazendo as unhas e, lendo a Contigo, respondendo blasé: “Previsto para daqui a duas horas”. Elas sempre respondem isso. Talvez seja uma voz gravada quem nos atende.

Imaginei os funcionários da concessionária jogando truco, esperando a chuva passar, o trânsito melhorar, o jogo acabar, para irem a campo. Sentem-se pequenos deuses neste mundo de mandachuvas.

Não foi o primeiro gesto d’Ele dar a luz? Se vocês pensam que o cara da Net, da banda larga, da configuração do roteador, o técnico da geladeira, da bateria arriada são os tais, pois agora aprendam, cristãos: somos o messias que os salvarão do tédio e devolverão suas rotinas, tenham fé.

No escuro, me restou a varanda, a vista da cidade. Vejo toda a zona oeste. E parte da norte. Só a minha quadra estava sem luz. E como estamos dependentes dela…

Planejo comprar uma extensão longa e instalar pelo céu até uma casa próxima. Se acabar a minha luz, empresto a do vizinho, e vice-versa.

Então, meia-noite, escuto um caminhão circular o meu condomínio. Chegaram. Me deem a redenção, sou um pecador, quero a salvação!

Ele parou. Encontrou o problema. Eu via apenas luzes piscando. Ouvia suas vozes. Deviam estar dizendo: “Isso é moleza”. Mais barulho. E se foram. Sem nos darem a luz de que tanto precisamos. Voltem, voltem, não desistam, nós acreditamos! Em vão. Mais fácil um camelo passar pelo buraco de uma agulha.

Minutos depois, outro caminhão. O mesmo procedimento. Isso, tenham fé. Mas, desta vez, esticando o pescoço, consegui ver. Não era aquele com quem Deus se comunica mesmo num blecaute. Eram os caras recolhendo as caçambas, com seus caminhões potentes e a eficiência de dar inveja a muito serviço público.

Então, refleti. Vamos dar para eles a tarefa de administrar a cidade: destemidos, pontuais, acostumados ao trabalho pesado. Serão eles os salvadores?

Sim, a luz voltou na manhã seguinte, às 10h15. Mais de 15 horas sem luz. Dessa vez se superaram. Restaram a poça de água na cozinha (degelo do congelador), mistura estragada e as malditas velas de reza ainda acesas. Heresia!