Setenta anos do amadurecimento teatral

Setenta anos do amadurecimento teatral

Marcelo Rubens Paiva

24 Janeiro 2019 | 10h53

Há 70 anos, nascia o TBC (Teatro Brasileiro de Comédia), que profissionalizou de vez o teatro brasileiro, trouxe uma dramaturgia densa e relevante.

Dois anos antes da fundação da primeira tevê brasileira (TV Tupi).

A técnica foi apurada.

Atores adotaram o “método”. Passaram a seguir Stanislavski, como Marlon Brando, James Dean, Jane Fonda, Paul Newman, e a geração de ouro do Actors Studio, fundado dois anos antes.

Na sexta-feira, dia 25, aniversário da cidade, na Biblioteca Mário de Andrade, o TBC será lembrado.

São Paulo vivia um crescimento vertiginoso. A cidade passava a ser centro de produção de bens e cultura.

No pós-guerra, muito dinheiro entrava no país. Muitos emigrantes fugiram de uma Europa e Ásia destroçadas.

Franco Zampari, um engenheiro apaixonado por teatro, decidiu largar a Indústria Matarazzo, em que trabalhava, e montar a sua própria companhia.

Escrevia e produzia num casarão alugado da Rua Major Diogo, 315. Com uma estrutura nada amadora: duas salas de ensaio, uma sala de leitura, oficina de carpintaria e marcenaria, almoxarifados para cenografia e figurinos, equipamentos de luz e som.

Estrearam com La Voix Humaine, de Jean Cocteau, e A Mulher do Próximo, de Abílio Pereira de Almeida.

Revezaram-se nas produções seguintes: Cacilda Becker [foto acima], Fernanda Montenegro e Fernando Torres, Ziembinski, Sérgio Cardoso, Paulo Autran, Tônia Carrero, Cleyde Yáconis, Cacilda Becker, Walmor Chagas. Na direção artística, o italiano Adolfo Celi.

John Patrick, Tennessee Williams, Eugene O’Neill traduziam o drama e desânimo da família americana, cética, para a brasileira.

Tudo que veio a seguir no teatro brasileiro, de Antunes ao Oficina do Zé Celso, assim como o Arena, nasceu ali. Inclusive o que se seguiu na teledramaturgia brasileira.

A partir de 1960, a turbulência não era mais dentro dos lares, mas nas ruas, em todo Brasil.

Flávio Rangel, o novo diretor artístico, levou a nova dramaturgia engajada brasileira, de Dias Gomes (O Pagador de Promessas) a Jorge Amado (Vereda Salvação)

Nesta sexta, no dia 25 de janeiro, das 14h às 20h, atores Denise Fraga, Celso Frateschi, Daniel Alvim, Joca Andreazza, Élcio Nogueira Seixas, Luciano Gatti, Lúcia Romano, com as diretoras Cibele Forjaz e Johana Albuquerque, farão parte no evento com curadoria do crítico e pesquisador teatral Álvaro Machado, do diretor teatral Ruy Cortez e do ator Sílvio Restiffe, membros da diretoria da ATBC (Associação dos Amigos do TBC).

O dia será dedicado a dois dos maiores diretores do TBC: Ziembinski e Flávio Rangel, com espetáculos que dirigiram, Volpone, de Ben Jonson, e A Semente, de Guarnieri.

Assim, representam os dois momentos da companhia; uma segunda fase nacionalista.

Detalhe.

O casarão, tombado pelos Conpresp (municipal) e Condephaat (estadual), e que pertence à Funarte (ex-MinC), chegou a reviver no começo dos anos 2000 a euforia da casa cheia, com salas em atividade, café, peças, comédias, dramas, lançamentos de livros, debates.

Mas foi fechado novamente.

Permanece fechado desde 2007, apesar dos R$ 20 milhões gastos (5 milhões para a aquisição do prédio).

E o MinC sumiu.

Todas as fotos acima são de Fredi Kleemann, fotógrafo ”oficial’ do TBC, que conheci e me levou ao teatro na década de 1970 (me dirigiu como ator infantil). Um mestre do retrato.