Será o fim do cadeado do amor?

Será o fim do cadeado do amor?

Marcelo Rubens Paiva

03 de junho de 2015 | 11h33

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Numa das paisagens urbanas mais deslumbrantes, fruto da engenharia humana, a Pont des Arts, de Paris, casais do mundo todo resolveram intervir e prender cadeados em seu gradil, como prova de amor.

Não amor à civilização, humanidade, igualdade, fraternidade e liberdade.

Mas ao casinho, ao namorido, ao parceiro, ao amante.

Trancavam um cadeado no beiral de ferro trabalhado há séculos, da ponte construída no começo de 1800, e jogavam a chave no Sena, esperando um amor duradouro.

Me lembro que a vi com meia dúzia de cadeados. Fui a Paris umas quatro vezes (a trabalho) e acompanhei o crescimento desordenado e exponencial desta aberração urbana, numa das minhas e de muitos paisagens preferidas.

Paris é abarrotada de turistas.

É a cidade luz, do romance, do amor, das artes, o museu a céu aberto.

Prender cadeados numa obra de arte, além de pretensioso, não ia dar certo.

Nem sei se funciona numa relação amorosa se sustentar apenas com a tranca de um cadeado de bicicleta que custa de dez a 50 euros.

Não deu: começou a abalar a estrutura de 45 toneladas.

Finalmente, o gradil começou a ser retirado, depois de meses de debate na Prefeitura.

Nem teve protestos. E sim turistas, com sua câmeras.

O medo é que os casais procurem outras pontes, como a Pont Neuf, para simbolizar o amor.

Já são vistos cadeados na Pont de l’Archevêché e nas redondezas.

Enquanto os apaixonado não encontrarem formas mais sensatas de provar o amor, falta agora catar as estimadas 700 mil chaves que estão no leito do Sena, que corre abaixo.

Daria para construir outra ponte com elas.