memórias de um escritor sem memória

memórias de um escritor sem memória

Marcelo Rubens Paiva

14 de dezembro de 2012 | 13h15

contei essa história algumas vezes, mas talvez ela tenha se modificado na memória, alguns neurotransmissores a revelam de maneira diferente, sem contar que posso ter contado de uma maneira que me favorecia demais, já que a insegurança de um escritor o leva a valorizar e exagerar pra cima os fatos ocorridos, e depois de velho desistimos de traçar um perfil interessante de nós mesmos, que, com o fim das utopias [adoro essa desculpa para darmos desculpas do por que só agora somos sinceros], nada mais é do que o perfil de um cara comum, que deu sorte de conhecer um bom editor, com um bom capista, uma boa divulgação e distribuição, e resenhistas que acordaram de bom humor, ou beberam um bom uísque na noite anterior- na época em que jornalistas culturais bebiam uísque-, ser hábil com as palavras, contar boas histórias, cheias de truques narrativos em que o leitor cai, como público de ilusionistas.

Pois faz exatos 30 anos que fiz minha primeira noite de autógrafos.

Eu era um coitado estudante cadeirante duro. E tudo mudou.

Foi no SESC POMPEIA recém-inaugurado, num corredor. Pico que eu mesmo escolhi, fui lá, agendei e, como eu era um grande ninguém, me deram o corredor que liga o auditório principal, e uma mesa.

Vejo nas fotos que quem compareceu em massa foi a minha turma da faculdade [de Comunicações da USP].

 

 

Apareceram amigos do meu pai, da família e A família, a máfia italiana [por parte de mãe] e a portuguesa [por parte de pai].

Veja o arquiteto JOAQUIM GUEDES e LILIANA, saudosos, que com certeza foram checar a obra da colega LINA BO BARDI e aproveitaram para dar um abraço na família e no garotinho que viram crescer.

 

 

Acho incrível eles terem se descolado até a antiga fábrica da zona oeste para o lançamento que tinha tudo para dar errado, de um livro que descaradamente jogava com o nome do grande clássico de Rubem Fonseca, FELIZ ANO NOVO, de uma editora que lançava uma coleção esquisita de livros mais finos [12 x 21], Cantadas Literárias, para caber no bolso, sem orelhas para economizar, de autores que ninguém tinha ouvido falar, como REINALDO MORAES, CAIO FERNANDO ABREU, ANA CRISTINA CESAR, e depois lançaria RADUAN NASSAR, ALICE RUIZ, tantos outros, abrigaria a obra de WALT WHITMAN, D H LAWRENCE, de tantos outros…

A maioria foi para ver o prédio reformado pela grande LINA.

Meus amigos da ECA, porque o vinho branco alemão era grátis, cujo logo estava no convite.

E família tem que aparecer em peso, pois quem não vai é logo alvo de fofocas e se arrepende de orelha quente de perder a chance de falar mal dos primos, tios, cunhados, noras, genros e de todos os outros.

Aí está a noite de 14/12/1982 em que lancei FELIZ ANO VELHO. Ou teria sido no dia 15?

Veja o colega jornalista WILLIAM BONNER, de óculos e barba, tentando se aproximar para dar “boa-noite”. Desde aquela época, WILLY, como o chamava, era obcecado em dar boa-noite. O jornalista VITOR PAOLOZZI me protege.

 

 

Veja que BONNER dribla PAOLOZZI e outros ecanos e se prepara para dar o bote, digo boa-noite. A editora MARIA EMÍLIA põe a mão na cabeça se perguntando o que estou fazendo aqui?

 

 

Veja a ex-namorada do autor, FERNANDA, quem leu os manuscritos, o demoveu da ideia de imitar KAFKA e sugeriu imitar SALLINGER, lembrando o nome do sujeito da fila, já que o jovem escritor demonstrava ter um  precoce problema de memória. Que se agravou depois do VERÃO DA LATA. Passa atrás BIA ABRAMO, jornalista que costumava beber uísque. NA época, bastante até.

 

 

Veja o jovem político EDUARDO SUPLICY angariando simpatia de eleitores e da eleitora saudosa MILU.

 

 

 

Também lancei o livro no RIO, na antiga DAZIBAO, para amigos cariocas e família, com a presença de FERNANDO GABEIRA.

Que nem fez uma presença.

 

 

A charmosa livraria em Ipanema sumiu anos depois.

Aliás, a editora também.

E no RECIFE, na antiga LIVRO 7, em que apareceu ALCEU VALENÇA, pernambucano mais ilustre da época, além de GIVANILDO e Antônio José da Silva Filho, mais conhecido como BIRO-BIRO.

Sim, como todo paulista que se preza, tenho uma turma de amigos pernambucanos.

Livraria que também sumiu, mostrando o quanto o autor é pé-quente.

 

 

 

O bacana de ser famoso é que você conhece pessoas famosas, como DENTINHO

 

 

Do meio artístico, como GEISE.

 

 

Visita lugares incríveis, como o começo da TRANSAMAZÔNICA, em ALTAMIRA

 

 

Viaja pro estrangeiro e faz coisas incríveis, como alimenta gaivotas com ração para gatos em MIAMI [com amigo CLAUDIO TOGNOLLI].

Se pegos, seríamos deportados.

 

 

Faz programa de índio também, claro.

 

 

Mas tem seu preço, como pousar para fotos com escritores iniciantes, que se aproveitam da minha fama, como esse colombiano que não largava do pé de minha guia cubana, um tal de GABO.

 

 

 

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