se liga, hippie velho

se liga, hippie velho

Marcelo Rubens Paiva

26 de junho de 2012 | 14h50

 

FEBRE DO RATO é um filmão, que deve ser visto e sobre o qual refletido.

Apesar de CLAUDIO ASSIS, seu diretor, ser um baita mala e nos odiar [já comprou briga com HECTOR BABENCO, WALTER SALLES, TROPA DE ELITE, E AÍ, COMEU?, BETO BRANT, PAULO SACRAMENTO], nós o amamos, respeitamos e acompanhamos atentos as suas provocações.

CLAUDIO ASSIS é um artista que pode nos detonar.

Tem currículo e obra.

Mas vive num mundo eletrizante, delirante, do qual também tenho saudades. Em partes.

Defende aquelas utopias que foram corroídas pelos ratos da industrialização e da tecnologia alienante, que seduziu e se consumiu da nossa poesia anárquica, paixão descabida, contradições eternas.

O filme é como se o Grupo Oficina renascesse em Recife.

É como se os anos 1970 nunca tivessem acabado.

E como se CHACAL reaparecesse para colar poemas em postes.

Apesar do poeta marginal PEDRO BIAL de antigamente hoje apresentar o esculacho de grande audiência.

Sim, bora protestar ao ver atores maravilhosos atuando como mordomos e empregadas em novelas das seis.

E ver grandes dramaturgos escrevendo programas de humor populacho, cineastas fazendo filmes publicitários para sobreviver, gente de teatro, programa de TV infantil.

Paradoxalmente, CLAUDIO ASSIS faz filme justamente no Estado que há dez anos cresce mais do que a CHINA, na cidade que troca o seu pátio e escombros do antigo porto por um polo tecnológico.

Filme financiado por prefeituras de Recife e Olinda, empresas de energia do Estado, porto estatal e, lógico, a nossa amada Petrobras, mãe do cinema, teatro e dança nacionais, teta da qual se alimenta o que há de melhor na cultura brasileira. Sem todas elas, FEBRE DO RATO não sairia do papel.

E como somos todos parte de um mercado imaturo e dependente, como filhos com diploma que não largam a casa dos pais, pois não querem entrar para o mercado corporativo, pouco nos lixamos para o estrago que o combustível fóssil causa nos mares e na mente pequeno burguesa e agora auto suficiente do brasileiro, ou se o dinheiro estaria melhor investido ou se dará bilheteria.

Ainda bem que não precisamos nos preocupar com a bilheteria e fazer o nosso cinema.

Isso aqui é um capitalismo pela metade. É o CAPIBERISMO.

CLAUDIO ASSIS critica todos nós por sermos vendidos, e garanto que passa o chapéu em escritórios de marketing cultural das grandes empresas mistas e públicas, como nós, em busca da grana suada do brasileiro, macbetiana manchada de sangue e dor, chamada patrocínio cultural de isenção fiscal. Como nós.

Vai, FAUSTO, ser guache na vida…

 

 

CLAUDIO ASSIS não é um babaca. Não o conheço profundamente, mas já o vi eventualmente, papeei com ele, bebi ao seu lado, temos amigos e bares em comum. Mas é bem chato quando abre a descarga dos seus lamentos e atinge colegas que dão duro como ele.

O filme foi baseado num poeta marginal, ZIZO, Irandhir Santos [de TROPA DE ELITE 2], que mimeografa seus poemas, cria um jornal, adora mulheres mais velhas, provoca a cidade e se apaixona enlouquecidamente por uma garota mais jovem, que o despreza.

Grita com seus seguidores pela cidade: “Anarquia e sexo!”

Não dá mimos para as pessoas, dá poesia.

Quem viveu naquele período viu muitos ZIZOS perambulando pelas capitais e interior, seres inconformados que decidiram não aderir ao caminho sem volta do iHomem.

Adoro seus filmes [AMARELO MANGA, BAIXIO DAS BESTAS]. Acho divertido e estranho ele detonar ½ mundo. O BRASIL precisa disso?

Febre do rato é uma expressão típica do Recife. Designa pessoas fora de controle, sem limites. É o nome do tabloide de notícias publicado por Zizo.

Como se diz no RECIFE, o filme é “du caraiu!”

Da fotografia em P&B à trilha NAÇÃO ZUMBI, de JORGE DU PEIXE a JUNINHO BARRETO- uma trilha da ponte que liga o MANGUE ao BAIXO AUGUSTA e VILA MADÁ.

Com um elenco que se joga e se expõe.

Arrisca tudo.

 

 

NANDA COSTA maravilhosa fez muita novelinha também [COBRAS & LAGARTOS, VIVER A VIDA].

MATEUS NACHTERGAELE fez minisséries e séries globais.

IRANDHIR fez BESOURO, filme inspirado no cinema américano, como diria Glauber.

Cara, ninguém é santo neste País de indústria e mercado cultural apadrinhados pelo Estado, que dificilmente vive das próprias pernas. Somos eternos índios paternalizados pelo Estado.

Então, relaxa aí, veio…

E, pra falar bem a verdade, dá saudades, mas prefiro os dias de hoje do que voltar ao romantismo sem âncora dos anos 1970. Pelo fim das utopias!

Aliás, ele também. Afinal, é sobre isso o filme, sobre os ratos que corroeram nossas fantasias.

Se liga, hippie velho:

I’m an antichrist, I’m an anarchist

Don’t know what I want

But I know how to get it

I wanna destroy the passerby

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