Rubem Fonseca e o Golpe de 64

Marcelo Rubens Paiva

18 de abril de 2020 | 14h18

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Amigos meus e de Rubem Fonseca ficaram indignados, quando lembrei que ele trabalhou no Ipês (Instituto de Pesquisa e Estudos Sociais), instituto anticomunista financiado por empresários brasileiros e o governo americano, para achincalhar o Governo Jango.

Eu não sabia que lembrar disso no Twitter deixaria amigos ofendidos. Imaginei que era fato consumado, afinal o próprio assumira em 1990. Peço desculpas por ter levantado sua biografia polêmica no momento de luto. Errei.

Fui indelicado, insensível com o momento (e apaguei os comentários).

Sou dos maiores fãs de Rubem Fonseca, li  de tudo, até romances, e meu livro Feliz Ano Velho, frase repetida por mim quando estava na UTI, é também uma homenagem ao seu Feliz Ano Novo.

Sempre dizia que fora influenciado por ele, e nunca tive rancor em relação ao seu passado, como também não tive em relação a posições políticas de outros escritores. Tomamos um café juntos, ao nos encontrarmos casualmente no Leblon, e falamos disso.

Eu sempre soube que ele teve um papel relevante no Ipês, que desgraçou a vida do país, especialmente da minha família; meu pai era o relator da CPI Ipês/Ibade, que descobriu a enxurrada de dólares americanos em contas de deputados, militares, jornalistas, para acender o duvidoso alerta de uma suposta ditadura comunista, e acelerar o Golpe de 64.

Por conta disso, meu pai foi cassado em 1964, exilado, morto e torturado em 1971.

O instituto foi fundado pelo conspirador-mor, general Golbery do Couto e Silva, em 1962.

Produzia peças de propaganda, filmetes, anúncios e artigos em jornais, assustando a sociedade conservadora brasileira com as ideias socialistas do novo governo.

Fazia propaganda exibida em cinemas e na TV, como:

Fonseca trabalhara como assessor de Antônio Galotti, ex-presidente da Light de 1956 até o final dos anos de 1970, um dos muitos empresários próximos dos militares, conhecido como o braço civil da ditadura. Foi quem o teria recrutado e o apresentado a Golbery.

Ele colaborou no Ipês desde o começo, em 1962.

Amigos me mandaram mensagens dizendo que ele saiu antes do golpe, ao descobrir o real sentido do instituto.

E que, apesar de décadas de silêncio, era absolutamente contra a ditadura militar; Feliz Ano Novo, livro de contos lançado em 1975, obra-prima do autor, foi censurado e recolhido das livrarias pelo governo militar; não sofreu censura política, mas de costumes, de um regime que o perseguiu.

Silêncio quebrado em 27 março 1994, quando escreveu para a Folha de S. Paulo [a carta toda, no final do post]:

“Eu atuava na área de estudos e divulgação de projetos. Foram preparados e enviados ao governo e ao parlamento, projetos de reforma agrária, tributária, bancária e administrativa, pelo que recordo, tendo sido dada aos mesmos ampla publicidade. À medida em que crescia a rejeição ao governo João Goulart na classe média, em setores empresariais, eclesiásticos, militares e também na mídia, no Ipês se desenvolveram duas tendências. Uma, fiel aos princípios que haviam inspirado a fundação do Instituto, manteve-se favorável a que as reformas de base por ele defendidas fossem implantadas através de ampla discussão com a sociedade civil, o governo e o parlamento; a outra passou a julgar a derrubada do governo João Goulart como única solução para os problemas políticos, econômicos e sociais que o país enfrentava.”

“A eclosão do movimento militar solucionou, no que me concernia, a controvérsia existente entre as duas tendências dentro do Instituto. Eu afastei-me completamente do Ipês e nunca me aproximei do novo governo, nem daqueles que o sucederam. Não era, como homem de empresa, nem sou agora, como escritor, favorável à ruptura da ordem constitucional em nosso país através de revoluções ou golpes de estado, militares ou civis. O grupo favorável à solução de força, em entrevistas e declarações, procurou destacar sua irrelevante e indireta participação nos acontecimentos políticos de março. Alguns, dessa tendência radical, e outros da corrente democrática, foram nomeados para cargos no governo Castello Branco e deram sua contribuição a mudanças administrativas e políticas que se realizaram, todos acreditando no patriotismo do seu engajamento.”

Foi o historiador uruguaio René Dreifuss quem revelou que Fonseca supervisionava a unificação de materiais de divulgação do Ipês.

Teria feito parte da equipe do Grupo de Opinião Pública encarregado de fazer doutrinação política elaborando linhas de análise para editoriais de jornais. A tarefa da unidade editorial era inserir comentários e opiniões na imprensa e divulgar artigos.

Segundo a jornalista Denise Assis (Globo, JB, Veja, IstoÉ, assessora-pesquisadora da Comissão Nacional da Verdade e CEV-Rio, autora de Propaganda e Cinema a Serviço do Golpe – 1962/1964), Fonseca teria também roteirizado alguns filmes do IPES.

Escreveu para o 247:

“Ali, José Rubem Fonseca exerceu todo o seu talento com a escrita e a sua objetividade para coordenar o Grupo de Opinião Pública. Cabia a ele não só redigir textos de propaganda a serviço do golpe, como também manter contato através de cartas com as empresas e instituições que pudessem colaborar financeiramente com o núcleo de conspiração. Escrevia a sindicatos – que quisessem contratar cursos para a formação de quadros com viés de direita – e artigos para serem distribuídos na imprensa, assinados por figuras de proa do empresariado. Sim, eles estavam ‘pari passu’ com os militares na preparação da derrubada do presidente eleito, João Goulart.”

Ao pesquisar a documentação do general Golbery, para uma reportagem para o Jornal do Brasil, ela descobriu que, num conjunto de 14 filmes de curta-metragem, eram de José Rubem Fonseca os roteiros concisos, ágeis e bem elaborados.

“Terminada a reportagem dediquei-me a escrever o livro: Propaganda e Cinema a Serviço do Golpe – 1962/1964, a fim de contextualizar toda esta engrenagem montada pelo Ipês de propaganda e mídia. Ali o foco era convencer a opinião pública a, não só a aceitar o golpe, como a torcer por ele”, afirma.

Continuo fã dele, e peço desculpas aos leitores e amigos que ficaram ofendidos. História e verdade, para mim, são visceralmente sagradas. Estarei sempre em busca delas.

 

 

Carta à Folha publicada em 27 março 1994:

Decidi escrever estes breves apontamentos para satisfazer a curiosidade de algumas pessoas que me perguntam por que teria eu participado, há mais de 30 anos, como escritor, da agremiação empresarial conhecida pela sigla Ipês. Em 1962 eu não havia ainda publicado meu primeiro livro, e sequer imaginava que, um dia, escrever seria a minha profissão. Era diretor de uma empresa privada e como tal fui convidado por um grupo de colegas e amigos empresários, dirigentes das principais associações representativas do comércio e da indústria do Rio de Janeiro e de São Paulo, para participar da organização de um instituto inspirado nos princípios contidos na encíclica “Mater et Magistra” e baseado na ata da “Aliança para o Progresso”, documento conhecido como Declaração da Punta del Este, elaborado em 1881 pelos países das Américas, entre eles o Brasil.

O Ipês (Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais) tinha como finalidade, “por meio de pesquisa objetiva e livre discussão, chegar a conclusões e recomendações quanto às diretrizes das atividades econômicas, no sentido de contribuir para o fortalecimento da democracia brasileira, de modo a acelerar o desenvolvimento do país, assegurar uma melhor distribuição da renda nacional, elevar o padrão de vida do povo e preservar a unidade nacional mediante a integração das regiões menos desenvolvidas”. A conclusão e recomendações do Instituto seriam levadas a todas as camadas do povo brasileiro, a começar pelos empresários, e também ao governo, “a fim de que todos se tornassem conscientes e solidários na obtenção de soluções democráticas para os problemas do país”.

No ato de fundação do Ipês a Assembleia Geral me escolheu como um dos diretores do Instituto. Toda a direção era composta de empresários que continuavam trabalhando em suas companhias e não recebiam remuneração pela sua colaboração. Havia também um quadro de funcionários distribuídos pelos vários setores do Instituto, que era financiado pela contribuição mensal ostensiva, e legalmente contabilizada, de associados, na grande maioria empresas de todo o país. O início de suas atividades teve uma extensa cobertura da imprensa. Eu atuava na área de estudos e divulgação de projetos. Foram preparados e enviados ao governo e ao parlamento, projetos de reforma agrária, tributária, bancária e administrativa, pelo que recordo, tendo sido dada aos mesmos ampla publicidade. À medida em que crescia a rejeição ao governo João Goulart na classe média, em setores empresariais, eclesiásticos, militares e também na mídia, no Ipês se desenvolveram duas tendências. Uma, fiel aos princípios que haviam inspirado a fundação do Instituto, manteve-se favorável a que as reformas de base por ele defendidas fossem implantadas através de ampla discussão com a sociedade civil, o governo e o parlamento; a outra passou a julgar a derrubada do governo João Goulart como única solução para os problemas políticos, econômicos e sociais que o país enfrentava. O governo Goulart, que se sentia, com motivo, cercado e pressionado, decidiu atacar. Uma CPI, envolvendo o Ipês, foi instaurada por parlamentares governistas para avaliar a influência do poder econômico nas eleições; constantes ameaças de punições fiscais e de outra natureza passaram a ser feitas aos dirigentes e associados do Instituto.

A eclosão do movimento militar solucionou, no que me concernia, a controvérsia existente entre as duas tendências dentro do Instituto. Eu afastei-me completamente do Ipês e nunca me aproximei do novo governo, nem daqueles que o sucederam. Não era, como homem de empresa, nem sou agora, como escritor, favorável à ruptura da ordem constitucional em nosso país através de revoluções ou golpes de estado, militares ou civis.

O grupo favorável à solução de força, em entrevistas e declarações, procurou destacar sua irrelevante e indireta participação nos acontecimentos políticos de março. Alguns, dessa tendência radical, e outros da corrente democrática, foram nomeados para cargos no governo Castello Branco e deram sua contribuição a mudanças administrativas e políticas que se realizaram, todos acreditando no patriotismo do seu engajamento.

Mais tarde, quando já começava a me dedicar ao ofício de escritor, meu livro “Feliz Ano Novo”, sob o pretexto de ser “pornográfico e contrário à moral e aos bons costumes”, foi proibido, por um dos governos militares, de circular em todo o território nacional. Junto com a proibição, veio a ordem de que todos os exemplares existentes nas livrarias e no depósito da editora fossem apreendidos. Acusaram-me de fazer a “apologia do crime” em minha literatura; influentes políticos e autoridades do go- verno militar declararam publicamente que, além de ter meu livro proibido, eu devia ser preso por minhas “atividades imorais, subversivas e criminosas.” Isso me levou a manter uma longa e dispendiosa ação judicial contra a União. Fui condenado em primeira instância. Só consegui ganhar a causa nos tribunais superiores, depois de 13 desgastantes anos de uma prolongada batalha jurídica, graças ao extraordinário empenho e competência dos meus advogados.

 

 

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