Revisionismo geral começou

Revisionismo geral começou

Marcelo Rubens Paiva

17 de janeiro de 2019 | 14h19

(Meu pai, quando jovem e ia a Eldorado Paulista nos anos 1940 e 1950)

“Darwing” (como se referem) estava errado, a Terra é plana, a globalização é obra de marxistas, e a ditadura como a tortura foram boas para o país.

Paulo Freire era o demônio vermelho, apesar de escrever o método adotado em escolas americanas e ser o pesquisador brasileiros mais estudado e reverenciado no mundo acadêmico (especialmente dos países capitalistas).

Revisionismo científico e histórico é parte preponderante da nova direita. E, por aqui, veio de quem menos se esperava: BBC News Brasil.

O problema é que todo ele tem sido feito à base de crenças, não fatos, dados científicos,  pesquisa. Sob crenças, não se faz política, não há diálogo. “No que eu e minha igreja acreditamos, lemos na rede ou ouvimos dizer” passa a ser realidade.

Pactos e política só são possíveis com fatos. Diverge-se em torno de fatos, números, não em torno de crenças. E, no jornalismo, como na Justiça, todos sabem: a fonte é a parte fraca (alguns usam “podre”) da matéria.

A vítima da vez foi (pra variar) minha família. O que se faz desde 1971.

Numa reportagem longa da BBC News Brasil, meu pai foi retratado como um riquinho mal-educado. E eu, um esnobe.

Reportagem entrevistou alguns moradores da região de Eldorado Paulista visivelmente orgulhosos com a chegada ao Poder de alguém que se criou lá, e por onde passou Lamarca com guerrilheiros, fugindo do cerco do Exército ao campo de treinamento da VPR, no episódio conhecido como Guerrilha do Vale do Ribeira.

O nome da minha família estava já no título da matéria:

Bolsonaro: a infância do presidente entre quilombolas, guerrilheiros e a rica família de Rubens Paiva

Mas não entrevistou UM membro da minha família, UM historiador, muito menos sobreviventes da VPR, nem os que combateram com Lamarca e estão vivos. Também não entrevistou militares da velha guarda, que combateram a luta armada.

Nem procuradores federais que revelaram todo esquema e detalhes da prisão e morte do meu pai (detalhes que a família não conhecia) ao intimar todos do DOI-Codi (RJ), inclusive torturadores, que participaram da morte sob tortura e foram condenados pela Justiça Federal do RJ.

Processo que está disponível na internet; usei partes no meu livro Ainda Estou Aqui.

Usou frases informais de uma troca de e-mails comigo, em férias, o que não autorizei, e em que pedi (e dei os telefones) para que entrevistasse minha tia Maria Lúcia Paiva, irmã do meu pai, e o procurador Federal Sérgio Suyama, quem colheu depoimentos de gente que torturou meu pai ou testemunhou, o que a Comissão da Verdade não tinha poder para.

A repórter estava com pressa e não o fez.

Ela queria detalhes sobre meu avô Jaime Paiva. Não convivi com ele. Figura controversa, apoiou a ditadura que cassou e exilou seu filho deputado federal. O que causou um rompimento definitivo entre os dois.

Ao voltar do exílio, nos mudamos para o Rio de Janeiro. Raramente meu pai ia ao Vale do Ribeira.

A reportagem confundiu meu pai com os irmãos dele. Eles, sim, como meu avô, tinham terras anexas por lá. Meu pai chegou a comprar um terreno longe, do outro lado do rio, com o que ficou por pouco tempo, que ficou abandonado, e repassou ao meu tio Carlos em 1967.

Já que a BBC Brasil usou minha família para adular os Bolsonaro, denegriu quem não pode se defender (meu pai e meu avô), resolveu fazer associações com quem não tinha nada a ver com a história, me queixei com Thomas Pappon, meu amigo desde os anos 1980 e da BBC Brasil.

Ele respondeu (e me autorizou a publicar):

“Oi Marcelo, lamento que tua família tenha ficado triste, lamento mesmo. Mas discordo de que a matéria adule o Bolsonaro ou tenha usado tua família para isso. A história da Eldorado dos anos 60 passa pelo Jayme Paiva, pelos quilombos, pela passagem do Lamarca. É o que foi contado. A matéria contrapõe afirmações do Bolsonaro com conclusões da Comissão da Verdade. Trabalho há mais de duas décadas aqui e sei que a BBC Brasil, assim como a BBC toda, quer – e tenta sempre – ser isenta e imparcial. Não é fácil. Se a matéria tiver erros, o pessoal conserta. Um abraço, Thomas.”

Meu pai era rompido com meu avô desde 1964, que até fazia negócios com militares (importava tanques e exportava armamento fabricado no Brasil) e era amigo de Alfredo Buzaid, ministro da Justiça do Governo Médici.

Bolsonaro morou dos 11 aos 18 anos em Eldorado, a dois quilômetros da fazenda do meu avô. Eu tinha, então, cinco e 12 anos, morava no Rio e nunca o vi na vida. Nessa fase, eu e meu pai não íamos a Eldorado. Passei a ir entre 12 e 14 anos, exatamente quando me mudei para Santos; meu pai estava morto, e meu tio Carlos e avô morreram em seguida.

“Rubens Paiva tinha 12 anos quando o pai comprou as primeiras terras por ali – ele e os irmãos estudaram em colégios de elite em São Paulo”, diz a reportagem.

Claro. Moravam todos em Santos e São Paulo. Foram internos nas escolas Arquidiocesano e São Bento. Meu avô morava na Praça da República, em São Paulo, e depois Canal 1, Santos. Por que colocar os filhos para estudar em Eldorado?

Sobre meu avô, diz a reportagem: “Quando tinha a festa da laranja, se ele cismava com a pessoa, quebrava o copo na mão dela com a bengala. Andava cheio de capangas em volta”. Fonte: Antônio Carlos de Melo Cunha, de 64 anos, engenheiro agrônomo aposentado e amigo de Jair Bolsonaro dos tempos de colégio.

Era mixirica. Não andava com capangas, a fazenda não tinha seguranças, a sede era cercada por uma mureta de menos de um metro, não tinha cercas, entrava quem quisesse, não tinha armas, mas uns cachorros dóceis, que brincavam com as 30 crianças, netos do meu avô.

(Minha tinha Renee e seus dois filhos, contemporâneos de Bolsonaro)

Diz Bolsonaro: “Eu tinha 15 anos de idade e morava na cidade de Eldorado paulista. Ali – já mudou de nome – existia a Fazenda Caraitá. Proprietário: família Rubens Paiva. Rubens Paiva tinha uma chácara ali. Do cocoruto, do topo da cidade de Eldorado Paulista, cidade bastante pequena, via-se a chácara de Rubens Paiva, a montante do Ribeira de Iguape…”

Era do meu tio Carlos, irmão mais velho do meu pai, que tinha o Sítio OK, colado à cidade, e três filhos mais velhos do que eu.

Num bizarro maniqueísmo, no texto da BBC News Brasil, a família Bolsonaro é tratada pelas fontes como gente humilde, o pai era dentista prático, “era conhecido por seu senso de humor e educação”. A família Paiva era do mau.

“Fui amigo dos netos de Paiva. Conheci Rubens Paiva, convivi com Marcelo e os irmãos”, diz Antônio Avelino de Melo Cunha, policial aposentado e dono de uma pousada em Eldorado que hoje mora no litoral paulista.

Eu não tenho irmãos, mas quatro irmãs. E nunca o vi na vida. Meus tios Carlos Paiva, Cláudio Paiva e René Paiva tinham mais de um filho homem e eram assíduos de lá. Eu curtia Leblon, Arraial do Cabo, Angra, Cabo Frio, Búzios, casas de amigos dos meus pais e dos pais dos coleguinhas da escola.

(Quando eu ia à fazenda e, segundo dizem, eu esnobava o presidente)

Diz a reportagem: “Apesar de não ser um cara ‘ruim’, Jaime e sua família não eram sempre bem vistos pelos moradores. Entrevistados descreveram que nos meses de verão, quando filhos e netos visitavam a fazenda, era comum ver os Paiva cavalgando seus cavalos de raça pelas ruas.”

Não tinha cavalos de raça. Eram pangarés, dóceis com as crianças. Só meu avô teve um puro-sangue, que ninguém montava, nem ele, e morreu picado por uma cobra.

“Por lá também passava Rubens Paiva, que tinha uma chácara anexa à do pai e construiu uma pista de pouso para chegar à cidade em seu avião.”

Não tinha chácara anexa alguma. Ia eventualmente nos levar do Rio de Janeiro e nos buscar no avião emprestado pela firma de engenharia carioca em que trabalhava, Geobras. Pousávamos em Registro, cidade a 50 quilômetros de Eldorado. Antes dos meus seis anos.

Algumas vezes, fomos no busão Rio-Curitiba. Parávamos em Registro, e uma carona nos levava pela estrada de terra até a fazenda. Total da viagem: 15 horas.

“Um dos moradores de Eldorado mais próximos do presidente, o funcionário público aposentado João Evangelista Correa, conta do dia em que entregou um bolo a Rubens a pedido da confeiteira local. Ele e um colega caminharam os dois quilômetros até a fazenda na esperança de ganhar um trocado pelo serviço. Chegando lá, João diz que Rubens olhou irritado para os meninos: ‘o que vocês querem aqui? Falei que ia buscar na cidade’. Ao responderem que a confeiteira havia prometido uma gorjeta, teriam ouvido um ‘não’ resoluto.”

“’Não tinha amizade com pobres’, diz João Evangelista, das cadeiras estofadas que ficam em sua garagem.”

Era meu pai? Que confeitaria? Que bolo? Pediu bolo como? Não tinha telefone na região. Quando ele ia à fazenda, ficava um ou dois dias. Meu pai não dar gorjeta? Bem. Como ele não está aqui para se defender, fica a versão que a BBC escolheu.

“João conta que, apesar de sua eventual irritação, Rubens convidava os meninos para jogar futebol em suas terras. Bolsonaro teria participado de algumas partidas.”

Meu pai jogando futebol? Em que terras? Em que campo de futebol? A do meu tio Carlos? Meu pai jogava pôquer, bebia uísque e fumava cigarros e charutos. Nem assistia a futebol.

Bolsonaro teria sido, nas palavras do agricultor Celso Leite, ‘um dos maiores ladrões de mexerica da família Paiva’. Ele conta isso aos risos, explicando que os furtos, comuns entre os meninos locais, eram ‘só farra mesmo’. Para proteger sua plantação, Jaime Paiva teria colocado um vigia de plantão e um cão de guarda, que teria corrido atrás de Celso e de Bolsonaro enquanto os meninos fugiam em direção ao rio.”

A história é boa, Bolsonaro é criativo. A plantação seguia os dois quilômetros entre a cidade e a sede, qualquer um podia pular e pegar. Não tinha vigias.

“Íamos de canoa até um lugar que tinha uma laranja muito boa. Quando o cachorro latia, a gente pulava n’água.”

Na beiro do rio, em todo Vale do Ribeira, planta-se bananas, que gosta de água.

Diz a BBC sobre a biografia Mito ou Verdade escrita por seu filho Flávio Bolsonaro, que os filhos de Rubens Paiva eram da mesma faixa etária de Bolsonaro e, “não raras vezes”, eram vistos comprando picolés Kibon em Eldorado, “inacessíveis à garotada local, que ao ver um deles jogar o palito fora, corria na expectativa de estar premiado com ‘vale um picolé’ marcado na madeira”.

Me confundiu com meus primos mais velhos, estes sim da mesma faixa etária (aliás, eleitores do pai dele, e se engajaram apaixonadamente pelas redes sociais, para a nossa surpresa).

A reportagem lembra que Bolsonaro disse no plenário da Casa em fevereiro de 2013. “Está todo mundo vivo lá. A Fazenda Caraitá está em cartório. A base de renda do Lamarca está lá na fazenda da família Paiva. É muito fácil verificar isso.”

Era mais fácil Lamarca financiar meu pai, que morreu e nos deixou apenas um terreno no Jardim Botânico.

VPR roubou US$ 2,5 milhões de um cofre com as propinas recebida pelo governador de São Paulo, Adhemar de Barros, o “rouba mas faz”. Valor corrigido hoje: US$ 18 milhões.

Honra seja feita ao pai de Bolsonaro. Segundo a reportagem, “foi fichado e monitorado pela ditadura em razão de sua candidatura pelo MDB. Documentos oficiais mostram que o Departamento de Ordem Política e Social (Dops), o Serviço Nacional de Informação (SNI) e o comando da Aeronáutica monitoraram suas atividades políticas e registraram o crime pelo qual ele tinha sido acusado, de exercício ilegal de profissão (medicina, odontologia ou farmácia).”

Colegas falam que era “um cara democrático, liberal e tranquilo”, e que os irmãos de Bolsonaro “seguiram caminhos diferentes” do presidente.

Queria ter conhecido.

O novo presidente e sua família, mais seu vice, já declararam que é preciso rever os livros que retratam a ditadura.

O Flávio pediu a uma escola do Rio de Janeiro, Santo Agostinho, que retirasse do currículo Meninos sem Pátria, livro acusado de comunista sobre uma família (história real) que foi exilada pela ditadura. E foi atendido.

O governador do RJ proibiu uma perfomance que simulava a tortura praticada no período.  Foi atendido.

O que virá? Que Herzog se suicidou, que dom Paulo era comunista, e o livro Tortura Nunca Mais um delírio marxista?

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