reinventar-se

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Marcelo Rubens Paiva

04 de julho de 2010 | 12h46

Eu vinha de uma família muito rica de SANTOS.

Diziam que a casa do meu avô PAIVA era a maior da cidade.

Ele tinha fazendas no VALE DO RIBEIRA.

Eram milhares de alqueires de plantações de banana, mexerica e criação de gado, numa casa gigante, com mais de 20 quartos, perto do rio.

Tinha uma lancha no lago em que esquiávamos.

Aprendi a dirigir num trator.

Cada neto tinha um cavalo à disposição. Eles tinham nome de carro.

O meu se chamava FORDINHO, era esperto, ágil e calmo, gente boa… Tinha a rapidez de um bom cavalo, a obediência e bom coração, de que um cavaleiro precisa.

Às vezes, eu ia no avião particular do meu pai para a fazenda. Pousávamos na clareira de um bananal.

Às vezes com um motorista.

Mas o melhor era voltarmos na boleia de um caminhão, quando um motorista ia levar as bananas, e nós servíamos de assistente.

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[meu pai no aeroporto do rio, para levar os guedes no seu avião]

 

Eu sempre estudei em colégios da elite, VERA CRUZ e SANTA CRUZ em São Paulo, ANDREWS no Rio, TARQUINIO em Santos.

 

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Não cheguei a ser um playboy fresco babaca. Acho que não.

Ia de busão pra escola.

Era uma família espartana, natureba. Na fazenda, não tinha TV.

Na sala, livros e mais livros.

Na piscina, a maioria lia e dividia livros.

Meu avô declamava poesias.

CAMÕES era o seu forte.

No piano, meus tios se revezavam tocando CHOPIN, BACH, MOZART.

Minha mãe, intelectual, leu a trilogia de HENRY MILLER numas férias.

Minha tia RENEE era a maior entendedora de DOSTOIEVSKI que conheci.

Meu tio CARLOS era boêmio, amigo dos Modernistas, OSWALD, TARSILA, colecionava quadros.

Meu PAI era amigo de escritores, como HAROLDO DE CAMPOS, ANTONIO CALLADO, ANTONO CANDIDO, MILLOR FERNANDES, PAULO FRANCIS.

Paradoxalmente, os dois filhos deste homem rico de SANTOS eram de esquerda.

Meu tio do PCB. Meu pai do PSB.

 

 

 

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[or irmãos Cláudio, Jayme, Rubens, meu pai, e Carlos]

 

De manhã, eu e alguns primos íamos encilhar os cavalos.

Tocávamos a boiada com a peãozada.

Depois, tirávamos leite das vacas.

Às noites, íamos a pé por uma estrada de terra para a cidade, ELDORADO PAULISTA, que chamavam de XIRIRICA, cantando, todos os primos.

Para irmos ao único cinema da redondeza.

Era uma família incomum.

Nos Natais, representávamos uma peça de teatro para os adultos.

Até vir 1971.

3 deles morreram na sequência.

Meu pai torturado pela ditadura.

Meu tio CARLOS de câncer na cabeça.

Meu avô… De tristeza.

Os bens dos herdeiros, que não entendiam de negócios, se desfez em pouco tempo.

Foi-se perdendo tudo.

Ninguém sabia tocar a fazenda como o meu avô. O gado morreu.

O dinheiro acabava.

Aos 17 anos, eu dava aulas particulares de física para ajudar no orçamento.

Minhas irmãs trabalharam desde cedo.

Minha mãe foi estudar DIREITO e começou a trabalhar como advogada aos 46 anos.

Em 1977, eu morava numa pensão perto da rodoviária de CAMPINAS, estudava na UNICAMP.

Depois, morei em repúblicas que não tinham TV, telefone, carro.

Lembro-me: um estudante da UNICAMP que tinha uma geladeira era rei. Em torno dele que se montavam as repúblicas.

A geladeira era o maior bem de um estudante universitário duro.

 

 

foto viagem paraiba - osvaldo- web[estudantada dura; estou no meio de chapeu]

Lembrei-me de tudo isso ontem sob o sol, numa piscina de um resort perto de CAMPINAS, papeando com uma ex-colega da UNICAMP.

E posso falar?

Nunca fui tão feliz na vida: um duro, um ex-rico, sem expectativas, vivendo o dia a dia, conhecendo o mundo, andando de carona e busão, às vezes a pé, se a madrugada entrasse.

Tocando violão em feiras hippies pra ganhar um trocado.

Minha família me deu o mais importante bem, o respeito, a humildade, a consciência social, a literatura.

É mais valioso do que qualquer alqueire de terra.

E é com ele que toco a minha vida.

Isso tudo está no meu livro NÃO ÉS TU, BRASIL [1996].

 

nao es tu

 

Um ROMANCE HISTÓRICO.

Está vendo?

É assim que se aproveita do passado.

Reinventei uma família que é a minha.

Na vida, nos reinventamos cada dia.

E as fotos, como desta FAZENDA,  perdem a cor

 

 

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