recordista

Marcelo Rubens Paiva

28 Abril 2011 | 23h11

Não sei por quê, mas o texto abaixo foi campeão em comentários [269]

Que está no livro O HOMEM QUE CONHECIA AS MULHERES.

Por que vou postar novamente?

Não sei.

Por quê?

A MULHER QUE ASSUSTA OS HOMENS?

Eles namoravam na casa do cara.

Assim que terminaram, ela se levantou rápido, olhou o relógio, checou mensagens do celular, sorriu e começou a se vestir. Ele ainda arfava, nem tinha tirado a camisinha, ficou olhando surpreso e perguntou:

‘Pô, você já vai embora?’

‘Tenho que ir. Acordo cedo amanhã.’

dark-door

Ele ficou mudo enquanto ela calçava as botas. O que eu fiz de errado? Foi ruim? Não, ela gozou duas vezes, forte. Mas ela nem beijou depois. Ela nem olhou com aquele ar apaixonado que toda mulher faz depois de gozar.

Tudo bem, era a primeira vez. Conheceram-se o quê, há uma semana, naquele restaurante? É. Onde rolou a troca de olhares. Onde rolou aquela conversa tola, enquanto aguardavam os carros. Onde ela deu o telefone do escritório, quando ele chegou perto, perguntou seu nome, o que fazia, elogiou sua roupa, disse na cara-dura que queria vê-la de novo, e ela ditou o número de seu telefone sem hesitar, e ele teve de decorar, ela disse que era arquiteta e zarpou, ele teve que pedir a caneta a um manobrista para anotá-lo na mão, e quando chegou em casa teve de se esforçar para decifrar aqueles números confusos em sua pele suada, para transpô-los para uma agenda em que anotou ‘garota do restaurante’, já que se esquecera do seu nome e teve de enrolar a secretária do tal telefone três dias depois — porque ele sempre ligava três dias depois —, porque se esquecera do nome da arquiteta que trabalhava lá, descreveu à secretária impaciente, até milagrosamente transferirem a ligação, e, sim, ela o atendeu, oi, sou eu, o restaurante, claro, ela se lembrou, conversaram alguns assuntos, marcaram um cinema, porque descobriram uma afinidade, filmes brasileiros, e tinha um bom em cartaz, em que foram dois dias depois, e mais um jantar.

Beijaram-se enquanto esperaram os carros, um beijo de recém-conhecidos, daqueles que ele investe, ela recua, ele insiste, ela cede, daqueles que apenas os lábios se encostam, as línguas timidamente se procuram, mas que depois se transformam e, apesar de dois desconhecidos, beijam-se intensamente, já as mãos dela em seus cabelos, já ele puxando o corpo dela contra o seu, pressionando-o, já seu pau endurecendo, com veículos de portas abertas e manobristas aguardando, até ela perguntar:

‘Onde você mora?’.

Transaram, terminaram, e ela se foi. Não foi daquelas que quiseram dormir. Nem daquelas que enrolaram para partir. Nem daquelas que perguntaram se ele ligaria. Nem fez questão de conhecer sua casa. Nem bebida, nem música. Foram pra cama assim que chegaram. E ela se foi enquanto ele ainda arfava.

Ele ligou dois dias depois, mas ela não o atendeu.

Nem quatro dias depois.

Nem quando mandou flores.

Nem quando mandou convites para a pré-estréia de outro filme brasileiro.

Ela é daquelas que assombram os homens.

Só quis naquela noite.

E por isso ele amargou uma paixão áspera.