Quem vazou?

Quem vazou?

Marcelo Rubens Paiva

11 de junho de 2019 | 11h24

O vazamento das conversas da Lava Jato tem efeito político imediato, como jurídico; o aconselhamento de um juiz a qualquer parte de uma ação é crime pelo Código Penal (artigo 254) e coloca suspeição sobre o julgamento. Até aí…

A quem interessa vazar?

A quem interessa desestabilizar um núcleo civil da República, colocar em dúvida a isenção do “super-herói” Sérgio Moro, atacar sua honra e encerrar suas pretensões de ocupar uma cadeira do STF?

Seu sucesso e popularidade causam ciumeira em gente graúda da política.

As conversas foram tiradas do aplicativo russo Telegram, que tem mensagens criptografadas ponta a ponta, mas pode ser sequestrado pela clonagem do chip da operadora, cartão SIM, de algum celular de grupos da Lava Jato (golpe do SIM SWAP): sequestram a senha do usuário temporariamente e baixam as conversas armazenadas por anos nas nuvens iCloud ou Google Drive.

Para isso, entram via operadora de celular. O Telegram informa que ninguém hackeou as conversas do aplicativo. Bem, você confia no que informam sobre eles mesmos?

É preciso de tempo e dinheiro para tamanha invasão.

Moro denunciou que alguém entrara por seis horas na semana passada no seu celular. Mas o site The Intercept afirma que já tinha os arquivos das conversas antes da invasão.

O juiz tem muitos inimigos, inclusive no próprio governo, já que é candidato forte a concorrer contra o chefe em 2022. Foram os russos, ligados a Eduardo Bolsonaro barra Steve Bannon?

Ele tem a chave da investigação de gente importante do governo, como a da relação entre Flávio Bolsonaro, o laranja Queiroz e as milícias.

Tem dossiês sobre as ligações entre metade do Congresso e doadores. E sobretudo o cofre do conteúdo das delações.

Uma ala contra seu pacote anticrime pede a sua cabeça.

Suspeita imediata: Lula e o PT. Têm uma rede high tec e militância de apoiadores hackers? Duvido.

Moro conseguiu um feito considerável: o de interferir numa eleição presidencial, vazando mesmo que ilegalmente escutas e trechos de delações pontuais.

Ala grande da Polícia Federal o detesta, por ter se colocado à frente dos holofotes de quem de fato se arriscava, perdia noites em claro, escutava conversas, vigiava, madrugava e investigava para um soldo mensal de R$ 11.983 (agente) a R$ 22.672 (delegado).

O Exército? Apenas o vice Hamilton Mourão e Augusto Heleno, da Segurança Institucional, condenaram o vazamento de forma protocolar, como Villas Boas.

Legalistas do Supremo o detestam.

Moro lembra John Edgar Hoover, o todo poderoso do FBI, que manteve refém, através de dossiês, escutas e arquivos, durante 48 anos, presidentes, políticos, líderes dos direitos civis e artistas e atravessou intocável oito presidências (Coolidge, Herbert Hoover, F.D. Roosevelt, Truman, Eisenhower, Kennedy, Lyndon Johnson e Nixon).

Moro, como Hoover, tornou-se mais poderoso que a própria República.

Uma coisa é certa: vazamentos dessa grandeza (Pentagon Papers, Watergate, Snowden, WikiLeaks) foram feitos por alguém de dentro do sistema, contra os rumos tomados por ele, como Death Throat (informante do Watergate que se revelou em 2005 ser o segundo do FBI, William Felt) e Bradley Manning.

O que leva a uma suspeita: tem gente de dentro interessada em desestabilizar o governo. Bom, sempre tem.

E muita gente incomodada com tamanho poder de Sérgio Moro.