quem paga?

quem paga?

Marcelo Rubens Paiva

27 de março de 2011 | 20h43

Se a indústria do PIRATA prevalecer, o que está para acontecer- já que gerações nascem sem saber que, no tempo dos dinossauros, pagava-se para ter aquela música ou filme ou livro- a remuneração artística será repensada.

Uma sovietização dos valores é uma saída;  criadores são funcionários do Estado, e seus bens ao proletariado pertencem.

O escritor cubano Pedro Juan Gutiérrez, que em Cuba não ganha nada, só com suas traduções de originais, que saíram clandestinamente da Ilha, vê a cor do dinheiro.

No Brasil, o sistema predominante é o de leis de incentivo- captadores e empresas de “bom coração”, que desviam recursos que iam para o Tesouro, e vão para a cultura.

Na Argentina, preferem um instituto nacional de fundo de cultura.

Como era a nossa EMBRAFILME no milênio anterior.

Livram-se da figura temida do marqueteiro cultural de uma empresa que vende sabão ou gasolina. Entram as comissões de sábios que decidem quem deve produzir e quem deve esperar.

Quando o simples mortal vê a propaganda de um figurão do axé, sertanejo ou rock nacional afirmando que a pirataria prejudica os profissionais envolvidos, pensa:

“Mas a Ivete, o Daniel e o Flausino estão com problemas financeiros?”

É contra-propaganda.

O mesmo se dá quando lemos que Bethânia precisa de R$ 1,3 milhão para fazer um blog, Nando Reis de R$ 2,1 milhões para um projeto, e Gal de R$ 2,2 para gravar DVDs.

O que os pequenos produtores pensam?

“Mas já não são ricos o suficiente para precisarem de grana de leis de incentivo, que poderiam fomentar as massas?”

Caetano resolveu defender Bethânia na sua coluna do GLOBO.

Saiu atirando na imprensa, lembrou polêmicas anteriores e mandou msgs cifradas [alguns trechos]:

“Podem dizer que espero punição porque o idiota xinga minha irmã. Pode ser. Mas o que me move é da natureza do que me fez reagir à ridícula campanha contra Chico ter ganho o prêmio de Livro do Ano. Aliás, a Veja (não, Reinaldo, não danço com você nem morta!) aderiu ao linchamento de Bethânia com a mesma gana.”

“A histeria contra Chico me levou a ler o romance de Edney Silvestre (que teria sido injustiçado pela premiação de ‘Leite derramado’). Silvestre é simpático, mas, sinceramente, o livro não tem condições sequer de se comparar a qualquer dos romances de Chico: vi o quão suspeita era a gritaria, até nesse pormenor.

“Igualmente suspeito é o modo como Folha, Veja e uma horda de internautas fingem ver o caso do blog de Bethânia. O que me vem à mente, em ambas as situações, é a desaforada frase obra-prima de Nietzsche: ‘É preciso defender os fortes contra os fracos.’ Bethânia e Chico não foram alvejados por sua inépcia, mas por sua capacidade criativa.

“Os planos de Bethânia incluíam chegar a escolas públicas e dizer poemas em favelas e periferias das cidades brasileiras. Aceitou o convite feito por Hermano como uma ampliação desse trabalho. De repente vemos o Ricardo Noblat correr em auxílio de Mônica Bergamo, sua íntima parceira extracurricular de longa data. Também tenho fígado. Certos jornalistas precisam sentir na pele os danos que causam com suas leviandades.

“Toda a grita veio com o corinho que repete o epíteto ‘máfia do dendê’, expressão cunhada por um tal Tognolli, que escreveu o livro de Lobão, pois este é incapaz de redigir (não é todo cantor de rádio que escreve um ‘Verdade tropical’). Pensam o quê? Que eu vou ser discreto e sóbrio? Não. Comigo não, violão.”

Caetano ainda lembra que Bethânia recebeu permissão para captar menos do que os futuros projetos de  Zizi Possi, Erasmo Carlos ou Maria Rita.

E que o filho do Noblat, da banda Trampa, conseguiu R$ 954 mil.

Está certo ele. A imprensa ao invés de esclarecer criou uma polêmica pessoal.

O projeto de Bethânia pede para arrecadar R$ 1,3 milhão.

É um teto.

Todos os orçamentos de projetos enviados ao MinC vão pro teto.

Não quer dizer que o Tesouro lhe dará R$ 1,3 milhão.

Mas permite que ela tente captar.

Se conseguir, sorte dela.

A lei está a seu favor.

E se conseguir captar apenas 50% ou menos?

Sim, tem a permissão de realizar o projeto, contanto que abaixe a remuneração dos profissionais envolvidos e os custos.

Isso é comum em cinema, teatro, circo, dança…

E a imprensa sabe bem disso. Mas deixou de esclarecer.

Porém, e o bom senso?

É como se eu pedisse uma grana pública para financiar este blog, que ainda pode ser remunerado pelas leis do mercado.

Na conta do polêmico projeto de Bethânia, sua remuneração seria de R$ 50 mil por mês, durante os meses que durariam o projeto.

Temos o direito de captar dinheiro “público” para fazer arte.

É lei.

Mas também temos o dever de zelar pelas contas de um Estado que é de todos e tem muitas prioridades.

É moral.


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