Que marxismo cultural?

Que marxismo cultural?

Marcelo Rubens Paiva

28 Janeiro 2019 | 11h53

Quando alguém usa a expressão “marxismo cultural”, logo me vem à cabeça o refrão: “O nome dela é Jeeeniffffer, eu encontrei ela no Tiiinder, e não é minha namoraaaada, mas poderia seeeer…

O hit do verão 2019, de autoria de Gabriel Diniz, toca todo instante em toda parte, e gruda como chiclete

É marxista?

Mas ela veio me xingando, enchendo o saco e perguntando quem é essa perua aí? Mas peraí! Mas peraí! Você não paga as minhas contas, já não é da sua conta o que é que eu tô fazendo aqui…

Vê-se no início da canção popular queixas e uma revolta contra a submissão que reprime. Há presença da busca de uma utopia (sexual) plena. Um sujeito procura controlar para concentrar a renda de outro. Há indícios de tentativa de exploração do homem por uma mulher desbocada.

Logo… Machista e marxista.

O economista Joel Pinheiro da Fonseca, filho do economista Eduardo Giannetti, me incentivou indiretamente a criar um detectômetro da predominância da esquerda na cultura brasileira.

Na sua coluna O Bicho-Papão Marxista, publicada na Folha, escreveu: “’Marxismo cultural’ é uma teoria da conspiração que visa a explicar e dar um sentido a um fato que, esse sim, existe e é problemático: o predomínio intolerante da esquerda em diversos âmbitos da cultura nacional”.

Roberto Carlos? Nem laico é.

Marcelo D2? Huuummm…

Pensei nos musicais que hoje dominam a cena teatral brasileira.

Mamonas – O Musical não é de esquerda. Nem Chacrinha, Shrek, Xanadu, Alô Dolly.

Em My Fair Lady, A Ópera do Malandro, Saltimbancos, Jesus Cristo Superstar, Elis há traços.

A presença “tóxica” de Chico Buarque e Broadway, antro de marxistas, nos palcos brasileiros, formam a coluna do teatro com ideologia esquerdista intolerante.

Anitta não é esquerdista convicta, apesar da proposta de empoderamento feminino e de estar cercada por gente da esquerda.

Mas Ivete não tem nada com isso, nem Claudia Leitte. Querem o sentimento liberal de concorrência livre e tocar repertório amplo e meritocrático.

Timbalada é esquerdistas. Olodum, idem. Gil e Caetano, nem preciso dizer… São esquerdistas, gaysistas, abortistas, maconhistas e intolerantes.

Tem a ala explicitamente vermelha de MCs, encabeçada pelos Racionais que, apesar da autocrítica, mantêm-se no topo da cadeia ideológica.

O rock brasileiro já foi marxista. Mas mudou de lado, como Carlos Lacerda, com predominância hoje para o pensamento liberal de direita; alguns aderiram à extrema-direita.

“Um ponto de partida de que poucos discordariam: em certos âmbitos da cultural —como universidades, órgãos de imprensa, artistas— há mais gente com visões que podem ser classificadas no amplo balaio de gatos da ‘esquerda’. Em muitas redações ou faculdades, os votos foram muito mais para políticos de esquerda”, escreveu Fonseca.

Vejamos.

Zé Celso é de esquerda. O Oficina votou em peso na esquerda.

Bia Lessa, Kike Diaz, Galpão, Tapa, Ornitorinco (os três últimos assumidamente brechtianos), Parlapatões, Bortolotto, Felipe Hirsh, Aderbal Freire e o Teatro Poeira, para ficar com algumas figuras relevantes da cena teatral brasileira, idem.

No cinema, temos o campeão de bilheteria, José Padilha. Algum duvida em quem ele votou?

Mas Fernando Meirelles, que se esconde por trás de ecológico apoiador da REDE, apoiado por Giannetti, Walter Moreira Salles, mais todo cinema pernambucano e baiano… Não disfarçam o viés ideológico em suas obras.

Na indústria, quem os livram a cara é a comédia brasileira, que é o que faz dinheiro mesmo, e por mérito e consequência da livre concorrência: Pernas pro Ar, Se Eu Fosse Você, Milton Hassum, Minha Mãe É Uma Peça, Meu Passado me Condena...

Ideologia? Preferem bilheteria.

Literatura só tem comuna, sempre teve, é uma tradição que vem dos tempos de Oswald de Andrade, Jorge Amado, Graciliano Ramos, filiados de carteirinha do Partidão.

Antonio Candido resistiu e preferiu o socialismo do PSB, partido que fundou.

Tivemos resistência de João do Rio, Nelson Rodrigues, Rachel de Queiroz, Rubem Fonseca, o republicanismo de Euclides da Cunha, a indefinição de Guimarães Rosa.

Mas Machado… Ora. Desdenhando daquela maneira a burguesia que nascia no fim do Império, taxando-a de um bando de desocupados, contemporâneo de Marx e Engels, era de esquerda, o que só foi revelado um século depois, por Roberto Schwarz, marxista também estudioso de Brecht.

Agora, convenhamos. Olha a lista das mais tocadas atualizada (já em 2019):

  1. ATRASADINHA               Felipe Araújo

2             ZÉ DA RECAÍDA Gusttavo Lima

3             SOFAZINHO  PT. Jorge Mateus e Luan Santana

4             NÃO FALA NÃO PRA MIM            Humberto e Ronaldo

5             NOTIFICAÇÃO PREFERIDA            Zé Neto e Cristiano

6             QUEM PEGOU, PEGOU Henrique e Juliano

7             OLHA ELA AÍ      Eduardo Costa

8             CIUMEIRA           Marília Mendonça

9             BEIJO DE VARANDA         Bruno e Marrone

10          CORAÇÃO INFECTADO   Maiara e Maraisa

11          MEIO SEU  PART.             João Neto e Frederico

12          TRINCADINHO   Jorge e Mateus

13          INFARTO             Diego e Victor Hugo

14          PROPAGANDA    Jorge e Mateus

15          SOLTEIRO NÃO TRAI       Gustavo Mioto

16          AO VIVO E A CORES   Anitta

17          COMO A CULPA É MINHA ?         Jefferson Moraes

18          LARGADO ÀS TRAÇAS    Zé Neto e Cristiano

19          APELIDO CARINHOSO     Gusttavo Lima

20          TIJOLINHO POR TIJOLINHO         Enzo Rabelo