quando os homens não prestam

quando os homens não prestam

Marcelo Rubens Paiva

25 Setembro 2013 | 12h17

 

Imagine um filme em que os personagens masculinos só pensam naquilo.

São injustos e violentos, estupram, abusam, batem em meninas adolescentes que só querem se divertir.

O professor abusa de alunas. O tio, da sobrinha. Os colegas, estupram a irmãzinha do amigo menor.

O casado quer farrear. E um psicopata ataca uma que nem tem seios ainda.

Todos os homens são uns desgraçados!

As colegas da escola se unem, criam uma gangue e partem para o contra-ataque, numa cidade no meio do nada, numa década de transição, 1950, em que o movimento feminista engatinhava, depois de que os rapazes voltaram da guerra e reocuparam os cargos nas fábricas.

 

 

O longo filme FOXFIRE – CONFISSÕES DE UMA GANGUE DE GAROTAS [mais de duas horas] sofre com este maniqueísmo primário.

Nós, homens, somos os bad guys em todos os planos do roteiro. Não temos curvas dramáticas. Somos uns tarados incontroláveis. Ninguém se salva.

Baseado no livro de Joyce Carol Oates e dirigido pelo premiado diretor Laurent Cantet [ENTRE OS MUROS DA ESCOLA, de 2008], é considerado um contraponto ao filme de Sofia Coppola, BLING RING, cuja gangue de meninas e meninos tem parafusos soltos e atacam o establishment afanando de celebridades roupas e joias que colorem e são a essência do próprio establishment.

Em FOXTROT, as meninas são mais ambiciosas e discutem os dilemas do capitalismo na sua raiz.

Se relacionam com a velha esquerda americana e partem para o ataque inspiradas na dualidade da Guerra Fria, e no clima da Revolução Cubana.

“Imagino que alguém possa dizer que sou ultrapassado, que luta de classes é coisa do passado. Eu acho que essas pessoas deveriam voltar a ler Marx, se é que algum dia leram. Os excluídos sociais e políticos são legião, o consumismo fútil gerou uma alienação sem precedentes”, disse o diretor para Luis Carlos Merten, aqui no ESTADÃO.

O que o filme remete, que poderia ser mais explorada, é que a gangue de meninas sofre da doença que a esquerda sempre sofreu: rachas, rupturas internas, lideranças divididas.

O radicalismo sedutor, a la Black Bloc, acaba implodindo o grupo. Como acontece com os movimentos de massa há séculos.

“As jovens libertárias terminam virando terroristas. Se não fosse um grupo, mas uma nação, diria que o ímpeto revolucionário degenerou numa ditadura, e isso é o que ocorre com frequência. A história não deixa mentir”, explica o diretor.

O mote do filme, a sociedade utópica de justos que reproduz os mesmos enganos das dos injustos, seria a salvação do filme, se priorizada.

O problema é que o ódio que alimentam contra a classe masculina.

Contra toda ela.