quando alguém diz…

quando alguém diz…

Marcelo Rubens Paiva

27 de abril de 2012 | 12h36

Quando alguém diz:

“Não vai doer nada…” É porque vai doer muito.

“É rapidinho.” É porque será demoradíssimo.

“Vou e volto.” É porque vai voando, mas volta rastejando.

“Sem ofensas.” É porque já ofendeu.

“Nada pessoal…” Porque é claro que é pessoal,

Uma resposta ideal:

“Ó, só vou falar uma coisa.” Então fale, mas apenas uma coisa!

“Me dá um segundinho.” Você não prefere um segundão? Quer um pequeno? Então já dei.

Quem diz:

“Sem querer ser chato…” É chato, e por querer

“Sem querer me meter…” É porque já está se metendo.

Quando alguém pergunta:

“Posso fazer o papel de advogado do diabo?” E ele precisa? Intimações chegam lá no inferno?

“Posso ser sincero?” Deve. Aliás, desde quando entrou aqui. Não faça como em outras ocasiões em que você não foi sincero.

“Posso falar a verdade?” Por que, antes você só mentia?!

Quando receber:

Um twitter da Cleo Pires com uma foto anexada escrito “I’m in instagr…”, entende-se porque pagaram 1 bi por este aplicativo.

 

 

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Mística pessoal do ano terminado em 2. Meus livros:

FELIZ ANO VELHO faz 30 anos.

BALA NA AGULHA faz 20 anos.

MALU DE BICICLETA faz 10 anos.

Curiosamente, são meus 3 livros que foram adaptados para o cinema.

Corrigindo, BALA NA AGULHA está em pré-produção.

Aliás, estrelado e co-produzido pelo meu alter-ego MARCELO SERRADO, que agora é também conhecido como o CRÔ da novela.

Que protagonizou MALU e chegou a fazer teste para FELIZ ANO VELHO – O FILME.

E ainda fará NO RETROVISOR – O FILME, baseado na minha peça NO RETROVISOR. Que estreou em que ano? 2002.

Nós nos perseguimos. O 2 e o BIRUNDA [apelido carioca do Serrado]. Ele me sufoca…

Só não desmunheco igual. Nem ele desmunheca tanto assim.

Bem, 2012 vem o quê?

Além do filme E AÍ, COMEU?, que está para estrear, um livro que se chamará…

Ops, não poso falar.

Que seja bom como os outros anos.

 

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Uma curiosidade. Sabia que o livro BALA NA AGULHA é resultado de uma brincadeira que eu e CAIO FERNANDO ABREU fizemos com o editor CAIO GRACO?

Fãs de romance policial [RAYMOND CHANDLER, DASHIELL HAMMETT, RUBEM FONSECA], apostamos quem entregaria antes os originais de um romance no mesmo formato.

Ele ganhou. Publicou ONDE ANDARÁ DULCE VEIGA? semanas antes.

Aliás, as capas são parecidíssimas.

CAIO DE ABREU ganha em breve um documentário feito pelo amigo CANDÉ.

Espero que fique claro que ele não é este autor de aforismos de auto-ajuda em que usuários do FACE tentam transformá-lo.

A obra de CAIO vai além, é ampla.

Quando sacralizam a literatura, ela perde o ponto de partida para entendê-la: o contexto.

Outra curiosidade. BALA NA AGULHA quase virou minissérie da GLOBO.

Chegaram a anunciar, roteirizar [o noveleiro JOÃO EMANUEL CARNEIRO, de AVENIDA BRASIL, e EUCLYDES MARINHO].

Daniel Filho iria dirigir.

Mas a GLOBO entrou em crise, entrou MARLUCE pra botar ordem nas finanças da casa, cortaram as despesas e as minisséries.

Pena.

 

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Trecho do livro BALA NA AGULHA:

 

 

O grunhido:

— Ex? Ex? Ex?

O sujeito perguntava a quem passasse à sua frente cruzando a Washington Square, porta de entrada do Village. A primeira vez que o vi, imaginei que se tratasse de mais um michê alugando o corpo para uma trepada:

— Sex? Sex? Sex?

Não. Um reles traficante oferecendo uma viagem de ácido por dez dólares:

— Acid, acid, acid…

Há um bom tempo eu morava no Village. O bairro e eu, uma dupla. Atravessar a Washington Square era rota obrigatória para voltar para casa. O traficante me conhecia. Assim que me via, e mesmo sabendo que eu nunca parava, declamava, insistindo:

— Acid, acid, acid…

Eu amava sua persistência, sinal do regresso, prova de que eu continuava vivo. Talvez eu fizesse durante toda minha vida aquele percurso. Ele estaria sempre no mesmo lugar, oferecendo ácido, a despeito das transformações do mundo. Bom e ruim. Bom porque, na minha profissão, era agradável, harmônico, o alerta diário de que eu estava vivo. Ruim porque, na minha vida, não havia transformações, como se a história fosse o encontro de repetições. Talvez um dia eu pare e compre aquele maldito ácido.

16h30

Verãoem Nova York. Muitagente nas ruas, muito calor, tudoem excesso. Voltando para casa, o soneto:

— Acid, acid, acid…

Hino do regresso, eu estava vivo, e nada tinha mudado, e pela primeira vez, depois de anos, desejei que algo de muito sério me acontecesse, me tirasse do círculo. Que parassem de girar! Uma mudança.

Ao abrir a porta de casa, um número foi o prenúncio da transformação. A luz vermelha no visor da secretária eletrônica. Um número digital reluzindo. Seis. Um mau pressentimento. Não era comum ter seis recados gravados na secretária e eu sabia, por experiência, que o excesso tinha um significado perturbador: alguém estava ansioso atrás de mim, atrás de uma presença.

O número seis brilhando, eu, na dúvida se ouvia os recados, se ignorava, quando o telefone tocou. Seria o sétimo se eu não atendesse.

— Porra, caralho, estou o dia inteiro atrás de você!

Era a voz de Marcos de Sotto, do outro lado da linha, assessor de não-sei-o-quê do consulado brasileiro em Nova York. Deduzi que era ele o cliente ansioso.

— Onde você está? — perguntei num tom cordial, procurando ganhar tempo. Não fazia a menor diferença saber onde ele estava. A prática tinha me ensinado: a relação traficante e usuá­rio é mais que comercial, é sobretudo paternal. Numa negociação, a sede de consumo, a desconfiança e a paranóia estão abertamente envolvidas (fraturas expostas). Nós, traficantes, temos de frequentemente esfriar os ânimos de certos clientes ansiosos.

— Estou no Plazza e já te liguei uma porrada de vezes!

O nome Plazza me deu calafrios e quase me fez desligar. Quem podia pagar a diária desse hotel e procurava cocaína com tal urgência, certamente era brasileiro e do poder. Marcos de Sotto, claro, sempre a postos para satisfazer os desejos urgentes de um brasileiro do poder. Vender cocaína para esse tipo de gente é um risco, risco que normalmente eu não correria.

 

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E hj tem estreia no RIO.

Com festinha depois [show de MIRANDA KASSIN e ANDRE FRATESCHI].

Andrezinho, que tb fez FELIZ ANO VELHO, a PEÇA. Com a mãe, DENISE DEL VECCHIO.

Este mundo é uma noz.

Nós numa noz.

 

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