Prazer, Pink Floyd

Prazer, Pink Floyd

Marcelo Rubens Paiva

11 Outubro 2018 | 12h13

Vocês conhecem Pink Floyd? Quem reclamou do discurso político de Roger Waters e das posições antifascistas, fazia o quê no seu show?

Os carecas, pais, barrigudos grisalhos, como eu, que acompanham a banda desde Syd Barrett, não acreditavam na reação irada de parte do público nos shows de São Paulo.

Ao incluírem Bolsonaro na lista de inimigos da democracia, vaias. Gritos “Ele Não!” abafados por gritos “Fora PT!” e xingamentos contra Lula.

A banda nasceu nos anos 1960 para contestar: a indústria fonográfica, o capitalismo, o sistema.

Seus shows duravam horas, suas músicas, longas, não eram tocáveis em rádios; tudo o que não podia. Estavam se lixando para as indústrias.

Tocava em clubes, como UFO-CLUB, inspirados no jazz, em jam sessions intermináveis. Nada de concessões.

Toda a cena musical ia assisti-los, de Beatles, Jimi Hendrix, The Who e Rolling Stones. E se influenciou.

Caetano Veloso, no exílio, os ouviu ao vivo em Londres. Nasceu daí Transa e Araçá Azul, seu disco mais experimental.

O LSD era a fonte de inspiração, quando ainda não era ilegal e passou a ser tomado em parques, clubes, análises e terapias.

Ontem, um amigo ao meu lado acendeu um baseado no show do Allianz Parque. Baseados rolam em 100% dos shows de rock em de vou desde 1975.

Um casal ao lado ameaçou chamar a polícia. O sujeito gritava com meu amigo. A mulher gritava indignada: “É maconha!”. Foi dos que gritaram “Mito”, nas críticas a Bolsonaro. Foi constrangedor…

O que estava acontecendo? Conhecem Pink Floyd? É pura rebeldia, contestação.

O primeiro disco deles, The Piper at The Gates Down, foi gravado no Abbey Road, em que gravava-se também Sgt. Peppers, revolucionou a música. Beatles e Floyd encontravam-se pelos corredores.

A banda radicalizou com Ummagumma, fez a trilha de Zabrinskie Point (filme político de Antonioni).

O disco Atom Heart Mother criticava a apatia e alienação da classe média inglesa.

Veio The Dark Side of the Moon, em que a música Money zoa com a ambição consumista: “Dinheiro é o máximo, agarre essa grana com as mãos e esconda. Carro novo, caviar, quatro estrelas, sonhar acordado, pode até comprar um time de futebol… Estou bem, cara, tire suas mãos do meu dinheiro. Não vem com esse papo de que caridade faz bem, quero viajar de primeira classe, quem sabe compro um jatinho…”

E conclui: “Dinheiro é um crime, divida ele irmãmente, é a raiz de todo o mal hoje em dia…”

Apesar do sucesso estrondoso, a banda não dava shows em estádios, mas nas ruínas de Pompeia e em Machu Picchu; em ruínas de civilizações.

As guerras, o liberalismo econômico de Thatcher, o fim do estado de bem-social, Reagan, a ascensão do fascismo e neonazismo, deram em The Wall e na manipulação das crianças na educação sem sentido.

Veio Animals (inspirado na Revolução dos Bichos).

Pigs virou metáfora da sociedade alienante, contemporânea, militarizada. E gíria de polícia. Pig é o poder.

Escrevi este texto ao ler a radialista Amanda Ramalho tuitar “Roger não dá uma dentro”, depois de mostrar uma foto em que Walter levanta um cartaz escrito PIGS RULES THE WORLD. O cartaz seguinte, FUCK DE PIGS. Palmeirenses acharam um afronta a eles.

Pig é o personagem aterrorizador. É a SS. É Trump.

Ela é radialista?! Deveria defender a música, não a burrice. Gosto muito dela, sou fã, acho das poucas que se salvam na rádio Jovem Pan, território livre do MBL, mas…

Amanda nasceu em 1986. Pink Floyd acabava de se desfazer, porque Waters achava que a banda se acomodara. Talvez por notar que seu público não estava entendendo nada.

Como dizia Caetano, “vocês não estão entendendo nada, nada…”

Viva Pink Floyd!