Por que o Brasil não dá certo?

Por que o Brasil não dá certo?

Marcelo Rubens Paiva

11 Março 2015 | 11h42

First+Class+Lounge

Viagem de avião lembra corredor da morte, num país em que pena capital é lei.

Nossas vidas ficam nas mãos de um aparelho supostamente organizado, a Companhia Aérea. Que tem fronteiras, bandeira, lema, liderança, presidente e um exército de funcionários que cumpre o dever com afinco, munidos de radinhos ensurdecedores, em que são transmitidas em códigos informações urgentes de vida e morte, como numa operação de guerra.

QAP tá na escuta?

Aliás, o que faremos juntos é invadir o espaço aéreo de outro país e desembarcar um pelotão em seu território.

Desembarcaremos num dia D, soldados de diferentes nacionalidades. Seguiremos o comandante de cabine, obedeceremos nossos oficiais de quepes e divisas. Vamos lá. Portão de embarque. Todos com suas mochilas. Sigam-nos por estes corredores. Chequem seus equipamentos de segurança.

Ordens são dadas em muitas línguas.

Mas nuvens pairam na Normandia. Uma voz entediante avisa em alto e bom som:

“Por problemas técnicos, nosso voo está cancelado. Por favor, façam uma fila para recolher vouchers de hotel e alimentação. Pedimos que retirem suas bagagens na Esteira 3. Ônibus na área externa do aeroporto os levarão para seus hotéis. Reapresentem-se amanhã de manhã com os mesmos cartões de embarque. Despachem novamente sua bagagem.” E ponto final.

Era domingo em Los Angeles. Quase todos os passageiros vinham de outras cidades para o voo ao Brasil da American Airlines.

Nevascas caíram sobre Dallas, sede da empresa, Nova York e Boston. O mundo está de ponta cabeça.

Estranhamente, a ordem de comando foi dada apenas em português, e apenas uma vez. Curiosamente, grupos se formaram. Brasileiro é esperto. Fascinante: logo buscamos união naquele momento de crise. Uma liderança nasceu. Os mais exaltados foram logo postos de lado e ignorados. Os poucos individualistas foram cuidar de suas vidas. Os mais diplomatas e sensatos passaram a nos representar, dialogar com o comando e trazer informações precisas. Que era do que precisávamos: onde pegar os vouchers? onde mesmo pegar a bagagem? como ir ao hotel?

Em pouco tempo, sabemos em quem confiar e quem evitar. Uma menina chora desesperada. Está há três dias naquele aeroporto. Rodou o país de conexão em conexão. Estressada, queria chegar logo em casa. Não tinha mais dinheiro para comer, nem direito a vouchers. Arrecadamos cem dólares em minutos. Uma outra falava alto pelo celular, criticava a empresa, criticava tudo, fazia o estilo “faço questão de ser ouvida por todos, que estou incrivelmente indignada”. Ficou falando sozinha.

Uma “marronzinha” organizava o tráfego da rua e parecia mandar mais do que o prefeito da cidade. Nos indicava ônibus que nos levaram a diferentes hotéis de rede. Passageiros de voos de companhias latinas, LAN e Copa, cancelados, dividiram hotéis com a divisão brasileira. No jantar, que custava o dobro do voucher, dividimos mesas “con nuestros Hermanos”. A Teoria da Conspiração 1 tomou forma: numa noite de caos aéreo e nevascas nos Estados Unidos, a prioridade é o voo doméstico; os aviões disponíveis voam dentro do país; processos contra empresas aéreas julgados em tribunais americanos geram gordas indenizações e são rápidos; diferentemente dos nossos tribunais lentos e corruptos. Fazia sentido.

Na manhã seguinte, todos lá, acumulados numa área em que a liderança indicou, o Portão 41, já que não tinha nada nos painéis sobre nosso voo. Os mais bem antenados, que trabalhavam em empresas locais, ou tinham aplicativos incríveis que revelavam segredos dos bastidores dos hangares, passavam informações atualizadas: o voo foi adiado para às 11h, depois para 11h45, depois para 12h45. Mas a tela do embarque do Portão 41 indicava um voo para Honolulu e depois Toronto. Detalhe: dois policiais da LAPD se instalaram no corredor bem em frente. Se o voo ia mesmo sair, incógnita.

A paciência de alguns se esgotou justamente quando funcionários da AA apareceram. Apareceram os que tinham reuniões inadiáveis, que foram canceladas devido ao atraso. Incrível como reuniões que jamais poderiam ter sido canceladas começaram a ser lembradas. Incrível como fazem reuniões que não podem ser canceladas horas depois da chegada de um voo transatlântico de 12 horas.

Mais conspiradores surgiram:

“Minha irmã A-DE-VO-GA-DA disse que isso dá um baita processo, ah ah ah…”, falava alto, tirando fotos de tudo, aliciando futuras testemunhas. Mas a liderança já tinha sido consolidada na noite anterior. Era formada por garotos que trabalhavam com ou no Google, Yahoo, Facebook, com seus dinâmicos Apps, que estavam no voo vindo de San Francisco. A volta vai rolar sim. E será aqui, no Portão 41.

Embarcamos depois do voo para Toronto lá pelas 13h.

Por alguma razão, me colocaram na primeira classe no rearranjo da aeronave. Eu nunca tinha viajado de primeira classe.

E nunca tinha me sentado numa poltrona com tantos comandos. Como um plebeu num jantar de gala, observei outros passageiros, para entender o funcionamento e o protocolo daquela poltrona: o que era lençol e cobertor, um botão, pimba, o televisor sai, com filmes que acabaram de disputar o Oscar, outro botão, a poltrona vira e vira uma cama. Me deram até um pijama! São todos amistosos, bem-educados e solidários. O sujeito ao lado foi ao toalete e voltou de pijama. Fofo: cinza escuro, com listinhas brancas, confortável. Foi quem me ensinou a virar a poltrona e a plugar o fone Bose. Outro passageiro me alertou: “Se eu fosse você, não vestia isso. Teve uma pane num voo, e eu estava com este pijama, tivemos que evacuar, e fiquei dois dias em Nova York só com ele.”

Pousamos enfim, 20 horas depois do previsto. O Brasil podia dar certo. Tem gente pra isso. Tem liderança que se forma na tensão. Tem solidariedade, bom senso. Tem gente esperta, ligada, que sabe agregar. Por que não dá?

A tropa se foi.

Esperei minha cadeira de rodas, que não apareceu. A pequena autoridade que tinha a chave da porta por onde viria minha cadeira porta sumiu. Ninguém tinha acesso ao novo elevador do novo Terminal 3, construído com o que teoricamente tem de mais avançado. Arranjaram uma cadeira improvisada, sem cintos. Fui carregado por funcionários sem treinamento. Quase caio no chão no finger.

Cheguei no Brasil.