policarpo

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Marcelo Rubens Paiva

04 de agosto de 2010 | 12h22

policaropo

Sou daqueles que consideram LIMA BARRETO tão fundamental quanto MACHADO DE ASSIS. Minha amiga PAULA CESARINO o considera superior.

Junte seu livro mais deslumbrante, O Triste Fim de Policarpo Quaresma, com ANTUNES FILHO, e o resultado é também deslumbrante.

Alguns têm dito que é o RETORNO do “velho” ao seu grande teatro.

Sim, lembra a boa fase do GRUPO MACUNAÍMA e do CPT.

Mas ninguém retorna ileso.

ANTUNES partiu para uma experiência, a partir dos anos 90, em que questionou toda a carpintaria, da dramaturgia à fala; especialmente o ato naturalista de representar.

Muitos não o entenderam.

E, a cada espetáculo, maior era o mergulho em busca de um teatro puro e invertido.

Agora, dispensa cenário, apoia-se numa trilha incrível e cria um jogo de cena que lembra um balé.

Sem deixar, como sempre, de pensar no BRASIL.

A peça POLICARPO QUARESMA é uma das melhores que vi ultimamente.

E lá está LIMA BARRETO, autor genial ofuscado pelo MODERNISMO.

Que, como MACHADO, traduziu a grande transformação do País, em busca de uma MODERNIDADE viciada no passado escravocrata e em rebeliões, cuja elite nunca largou o Poder, apenas mudou de figurino.

Se a crítica o relegava ao segundo plano, percebe-se que ele, sim, foi o pai do MODERNISMO, propôs a antropofagia cultural, entendeu o processo dialético da formação da REPÚBLICA, que deveria olhar para o futuro com uma aliança com o nosso passado [e antepassados].

POLICARPO é internado num hospício quando sugere que a língua oficial do Brasil fosse o tupi.

Como o autor, às voltas com uma bipolaridade ainda não detectada, que se internava voluntariamente.

POLICARPO é, como BRAS CUBAS, dos grandes narradores da nossa mutação.

É profético, ao anunciar que o Brasil poderia virar potência agrícola; o que somos hoje. Revela um ceticismo político provando que, à frente das utopias, existem os homens condenados à corrupção.

O fim da peça é tão violentamente niilista, que a plateia demora para entender que terminou e não aplaude.

E LEE THALOR, que interpreta o papel principal, é um caso à parte.

Há muito não se via um ator tão inteiramente dedicado ao personagem ingênuo, puro, e por isso mesmo vítima.

Quando sapateia o HINO NACIONAL como se esmagasse as formigas que detonam a sua plantação, revela o amor e ódio que temos pela nossa República e pela terra que nos abriga e consome.

Não deixe de ver!

Parabéns véio ANTUNES.

 

Policarpo Quaresma – Sesc Consolação. Rua Dr. Vila Nova, 245. Tel. (011) 3234-3000. 6a. e sáb., 21h; dom., 19h. R$ 20. Até 6/6.

 

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E hoje e amanhã tem O PREDADOR ENTRA NA SALA, 21 hs, no ESPAÇO PARLAPATÕES. 

Aliás, duas cenas foram inspiradas em ANTUNES.

Inclusive o andar de DIRCEU.

Um dia eu conto.

Quem quiser saber mais, veja a ótima matéria que a TV CULTURA fez na estreia:

http://www.youtube.com/watch?v=pptvz8_fyMM&feature=youtube_gdata

Ta aí uma palhinha:

 

 DIRCEU

Quem é você?

BARROS

Estou encarregado de cuidar dos seus livros. Não publica nada há anos.

DIRCEU

Contrate o Linhares. É o cara. Um cara da moda sempre substitui o antigo. Já leu? “Vermelho, meus olhos estão vermelhos, o ônibus é vermelho, o sangue que escorre pelas esquinas é vermelho, te amo com este vestido vermelho, Sandra, te como, estamos no vermelho, tua menstrução é vermelha, meu sexo é vermelho…”.

BARROS

O senhor recebeu um adiantamento.

DIRCEU

“Dor, sinto dor, o mundo tem dor, dói ver a chuva, dor tem sabor, dói amar você, Sandra, que sente dor quando penetro. A dor dói..”

BARROS

Não pode nos deixar na mão.

 

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DIRCEU

Que diferença faz saber como sou. Leve a merda da sua vida como sempre levou. Isso é liberdade, não ter um pai de merda, não ter nenhum modelo a seguir, ser você seu próprio modelo.

CACAU

Fiz umas fotos como modelo prum anúncio antidrogas. Fiz porque devia dinheiro pro meu traficante. Para posar, tive que fumar haxixe, de tão enjoada que estava daquele ambiente fútil. É normal isso na vida, fazer coisas que não gosta? Você escreve por dinheiro ou por prazer?

DIRCEU

Você já fez análise, terapia, algo do gênero?

CACAU

Uma vez fui a um psicólogo. Eu que quis. Me achava loucaça. Coloquei uma saínha bem curta. Ele ficou a sessão inteira olhando para as minhas pernas. E me cobrou um dinheirão. Qual é, tem que pagar pro cara olhar suas pernas e nem elogiar?! Nem me comeu, filho da puta. Porra. O cara me deixou mais complexada do que quando entrei. Por que ele não me comeu? Eu não sou gostosa? Larguei das drogas. Virei uma garota normal. Todos os pais se orgulhariam de mim.

DIRCEU

Querem o Linhares, o grande Linhares, está em todas.

CACAU

Eu adoro o Linhares. Você leu…? Ele é bom. É denso. Eu daria pra ele.

DIRCEU

É um marceneiro. Ele pega a palavra e martela. Escritores sem verdade, com seus estilos pessoais, que doença incurável.

CACAU

Linhares tá com câncer?

DIRCEU

Não.

CACAU

É você, daddy?!

DIRCEU

Era uma metáfora.

CACAU

Ah… O que é uma metáfora?

DIRCEU

É uma doença.

CACAU

Nunca peguei uma metáfora. Já tive H1N1. Metáfora tem cura?

DIRCEU

Tem.

CACAU

Então você não tem com que se preocupar. Por que você não procura um analista, um psicólogo?

DIRCEU

É o mundo que está uma merda. Você vai a um museu e sai do banheiro. Vê tijolos, latas, uma pia jogada, acha que é da reforma de um banheiro, mas é uma obra de arte.

CACAU

Pensei que tudo estivesse melhor. Agora que tem Bulgari até no Brasil, cura pra metáfora. Você me faz pensar tanto… 

 

Programa Predador frente_fn

[fotos THAYS BITTAR, arte CARCARAH]

 

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