caça aos lexicógrafos incorretos

caça aos lexicógrafos incorretos

Marcelo Rubens Paiva

28 Fevereiro 2012 | 17h14

 

Dias de hoje, fronteira dos EUA com Canadá. Um misterioso objeto radioativo cai na Terra.

Testemunhas pensam ser um meteorito.

Outra hipótese é de que a Al-Qaeda espalha por um pequeno avião radioatividade no ar.

Mas a agência governamental recupera o que parece ser uma capsula espacial desconhecida da era soviética.

E, surpresa, dentro dela, encontra um moleque russo, debilitado, com câncer e imunidade baixa.

Talvez um sobrevivente de uma secreta missão a Marte dos anos 80.

Enquanto a Casa Branca precisa de respostas, a cada hora a história parece mais enrolada. O cosmonauta aparentemente nasceu em Marte, planeta para onde a antiga União Soviética mandara uma espaçonave, cujos tripulantes sobreviveram com os recursos de lá e procriaram, algo cientificamente possível.

 

 

É a sinopse de Pioneer One, série americana criada por Josh Bernhard, escritor, e Bracey Smith, diretor, que, diferentemente da maioria das séries produzidas, não teme a pirataria e nos quer corsários.

Ela é distribuída diretamente por meio da rede BitTorrent- responsável pelo compartilhamento de milhares de filmes e séries piratas-, proposta inédita que discute a guerra de trincheiras entre grandes produtores e torrents, extensões que possibilitam o compartilhamento de arquivos entre pessoas.

Com o engenhoso plot na cabeça, e sem a pretensão de fazer uma mega produção, a dupla largou empregos e levantou grana numa campanha no site Kickstarter– a maior plataforma para se levantar fundos a projetos criativos, apoiada por Sundance Festival, Youtube, New York Times, CNN, Wired e outros:

http://www.kickstarter.com/

Dois meses depois, estrearam o piloto no site VODO.net.

Ganharam o prêmio de melhor drama no NYFTV (New York Festival Television).

Inauguraram a era da “série de TV sem TV”.

Os dois avisam no primeiro episódio: os próximos só serão realizados se os telespectadores doarem uma grana ou comprarem a camiseta ou o poster da série no site de vendas com o sugestivo nome hackerthreads:

http://www.hackerthreads.com

Rolou.

Cada vez que a grana pingava, um novo episódio saía do forno.

Os primeiros quatro foram baixados mais de sete milhões de vezes.

Completaram os seis episódios da primeira temporada.

Uma segunda está prometida.

Tudo isso é novo, pioneiro e encorajador.

Não vai solucionar o problema da indústria, nem será o airbag da atual crise de direitos autorais do setor.

Porém, um grande e instigante roteiro, na boca de um ótimo elenco, é que faz da imperdível série realmente um sucesso.

Lição de moral: não basta rediscutir o meio, é preciso, como sempre, contar uma boa história (mensagem).

 

+++

 

Não foi só o dicionário HOUAISS, que pode ser tirado de circulação pelo MP, que teve problemas em definir a palavra CIGANO.

No AURÉLIO SEC XXI, versão 3.0, está:

CIGANO. Do gr. bizantino athínganos, pelo fr. tzigane ou tsigane.] S. m. 1. Indivíduo de um povo nômade, provavelmente originário da Índia e emigrado em grande parte para a Europa Central, de onde se disseminou, povo esse que tem um código ético próprio e se dedica à música, vive de artesanato, de ler a sorte, barganhar cavalos, etc. [Designam-se a si próprios rom, quando originários dos Bálcãs, e manuche, quando da Europa central.] [Sin.: boêmio, gitano; calom (bras.); judeu (MG); quico (MG e SP).] 2. Gloss. Romani (1 e 2). 3. Fig. Indivíduo boêmio, erradio, de vida incerta. 4. Negociante esperto, vivo.

Complicado enquadrar dicionários numa moral que não ofenda minorias.

Deveriam se isentar de explicar os significados de “bicha”, “viado”, “crioulo”, “judiar”?

Claro que não.

Talvez devessem apenas ser mais cuidadosos [afinal, são dicionários!!!], atualizados [ciganos = boêmios?] e alertar.

Como nos manuais de redação, que lembram que tais expressões existem, porém são polêmicas, induzem ao preconceito e devem ser evitadas.

Faltou bom senso ao INSTITUTO HOUAISS que, diferentemente dos responsáveis pelo AURÉLIO, ignorou os alertas do MP.

Deveria deixar mais claros o que é sentido figurado, depreciativo etc.

Porém será ridículo agora uma caça aos lexicógrafos incorretos.

Outra do AURÉLIO antigo?

Apesar do aviso Deprec, é meio esquisito e impreciso…

JUDIAR.  [De judeu + -iar, com síncope.]

V. t. i. Deprec.
1. Escarnecer, mofar, zombar: 2
2. Fazer sofrer; atormentar, fazer judiaria2; fazer sofrer; atormentar, maltratar: