Pelo direito de não opinar

Pelo direito de não opinar

Marcelo Rubens Paiva

07 Fevereiro 2010 | 13h47

Segunda-feira. Ele acordou e, do nada, como se tivesse desistido, decidiu não ter mais opiniões. Sobre nada.

Já no café da manhã, não soube responder se o pão estava passado, e o queijo, coalhado. Comeu apenas uma fatia de mamão. E não decidiu entre adoçante ou açúcar. O café desceu amargo.

Ao trabalho. O taxista perguntou se ele preferia pela Marginal ou por dentro, pela Lapa. “Qual caminho o senhor sugere?”, perguntou, simulando um contato rotineiro. O helicóptero da rádio informara que a Marginal estava parada, avisou o motorista: “Vamos por dentro?”.

Ele não respondeu. Não sabia responder. Não achava nada. O taxista repetiu: “Pela Lapa?”. Nada. Nenhuma resposta.

O cara deu a partida, engatou a primeira, foi percorrendo devagar, esperando a decisão do passageiro, que não vinha, e ele mesmo, o taxista, decidiu pela Lapa, mas sempre alerta, esperando a ordem de desviar para a Marginal, que não veio.

No elevador do escritório. “Sobe ou desce?”, escutou. Nenhuma resposta. A ascensorista perguntou o andar. Nada. Ele entrou e ficou no canto, parado. “O andar?”, repetiu. Ele gaguejou apenas: “Não sei…” Ela, surpresa, esperou.

Até outro passageiro entrar e pedir: “Sobe”. E ele foi, subiu. E desceu. Pois não pararam no seu andar. Só quando coincidiu de alguém pedir o seu andar, ele pode sair do elevador.

Ao entrar no escritório, a secretária logo mandou um: “Bom-dia.” Ele olhou e: “É? Não sei. Pode ser. É, pode ser. Você acha?”

Nem sentou em sua mesa, o telefone tocou. Um instituto de pesquisa. Queriam saber em quem ele votaria.

“Não sei”, respondeu.
“Ah… O senhor não se decidiu entre o governo e a oposição?”
“Não sei.”
“Vai votar em branco?”
“Acho que não.”
“Nulo?”
“Claro que não! Nunca votei nulo!”
“Muito bem, então, o senhor é um indeciso, deixa eu marcar, in-de-ci-so.”
“Veja bem, não sou um indeciso, não sou nada, eu não acho nada.”
“Mas quem não acha nada é indeciso.”
“Não. Indeciso é um cara hesitante.”
“Hesitante?”
“É quem ainda tem dúvidas, não escolheu. Eu não vou escolher, nunca mais, porque não tenho mais opiniões, não acho nada.”
“Não? Por quê?”
“Porque não consigo.”
“Coitado…”

Foi almoçar. Mas pela escada. Evidentemente, não conseguiu escolher a promoção do quilo. O fato de não ter mais opiniões dificultava o de tomar decisões.

Ficou minutos diante do balcão. Até colocar todas na bandeja, da promoção 1 àquela mexicana apimentada. Como não sabia por qual começar, comeu só batatas fritas.

Na volta, a secretária panicou. O telefone não parara. A notícia vazou: descobriram que ele era um homem que não achava nada.

Deu a primeira entrevista. Para uma rádio: “Como se sente não tendo opiniões? O acha de não achar nada?”.

A secretária apontava para fotógrafos que escalavam o prédio em frente para flagrá-lo sem opiniões. O porteiro avisou que equipes de TVs. queriam subir.

Naquele dia, não se falou de outra coisa. E ele foi a chamada de muitos telejornais: “Daqui a instantes, um homem afirma não ter opinião sobre nada.”

Sua semana foi tumultuada. Revistas de famosos queriam fotografá-lo com o look de quem não tem opinião. Apareceram muitos convites para palestras em departamentos de marketing de grandes empresas. “Mas o que vou dizer, se não tenho nada a dizer, não acho nada?”. Era isso que queriam, apontar que havia falhas no sistema, havia um indivíduo que não era absorvido pela propaganda.

Entidades o criticavam. Um alienado. Foi acusado de mau exemplo à juventude e um estorvo na sociedade de consumo. Mas algumas ONGs ligadas ao movimento antiglobalização passaram a apoiá-lo.

Organizaram uma passeata diante do seu escritório. “Pelo direito de não achar nada”, gritavam, auxiliados por membros do movimento contra a intolerância sexual, anarquistas, punks, chavistas, movimento em defesa do Teatro Oficina, da Mata Atlântica e dois bebuns.

Diante de sua janela, ele apareceu. Aplaudiram. Pediram para se pronunciar. Pararam para escutar. Ele gritou:

“Melhor vocês apertarem o passo! Acho que vai chover!”