parceria na concorrência

parceria na concorrência

Marcelo Rubens Paiva

28 de julho de 2010 | 13h35

Hoje saíram 2 textos muito bem escritos sobre a estreia da minha peça O PREDADOR ENTRA NA SALA.

No ESTADÃO e na FOLHA.

Interessante que ambos os autores, MARIA EUGÊNIA e GUSTAVO FIORATTI, que cobrem teatro, assistiram juntos a um ensaio corrido da peça.

FORATTI chegou a pedir para eu enviar o texto antes. E leu!

É uma nova maneira de nos relacionarmos com quem cobre teatro, que tem sido comum no meio.

Eles veem o ensaio e só depois entrevistam.

Lógico que todos saem ganhando, o autor, a reportagem e o leitor.

Porque eu não aguentava mais responder, em anos de estrada: “Do que se trata a sua peça?”

Quantas vezes tive de, pacientemente, explicar para um repórter quem era eu, e sobre o que eu escrevia e queria dizer.

Me irritava, porque o cara chegava para me entrevistar sem uma pauta. Nem se dava ao trabalho de “dar um Google” antes.

Me irritava, porque trabalho há décadas na imprensa, e o menor esforço que se espera de um repórter é de pesquisar antes sobre quem entrevistará.

Imagine eu chegar para o RAY CHARLES ou CURT COBAIN, quem já tive a chance de entrevistar e não consegui [na primeira pauta, cheguei atrasado, e RAY irritado se recolheu; na segunda, o roqueiro ficou doidão, e acabei papeando mesmo com a COURTNEY LOVE no saguão do hotel]: “Como você começou a sua carreira?”

O legal no encontro com os dois repórteres dos jornais concorrentes é que a entrevista foi dada concomitantemente.

Lembrou-me a época em que eu era repórter da FOLHA e encontrava o Jotabê Medeiros, do ESTADÃO, na mesma pauta, e trocávamos informações.

E da quantidade de amigos que temos nas duas redações.

Somos todos farinha do mesmo papel jornal.

Muda o rótulo, mas não a nossa amizade e parceria.

Há uma brodagem que o leitor desconhece.

E que é tão saudável.

Confira abaixo:

 

Predador Flyer virtual

 

ESTADO [CADERNO 2]:

 

Marcelo Rubens Paiva expõe dilemas da sedução

‘O Predador Entra na Sala’ é um texto de 1994 cuja montagem estreia no Espaço Parlapatões

MARIA EUGÊNIA DE MENEZES

A picaretagem tomou conta do Brasil. Quiçá, do mundo. Nas livrarias, o espaço dedicado aos romances só faz minguar. Das listas dos mais vendidos, baniram-se os grandes autores e passaram a reinar soberanos os manuais de autoajuda, os compêndios de informática, as aventuras açucaradas de novos e velhos vampiros. Mais importante do que o que está escrito dentro de um livro, passou a ser sua capa, a estratégia de marketing das editoras, a verba gasta em publicidade.

Quem faz a constatação é o escritor e colunista do Estado Marcelo Rubens Paiva e é disso que ele se vale para tecer o pano de fundo de O Predador Entra na Sala, montagem que estreia nesta quarta, 28, no Espaço Parlapatões. Escrito em 1994 e engavetado desde então, o texto capta justamente esse momento de “virada” no mundo das letras. “Até os anos 1980, era gente como Jorge Amado, Lygia Fagundes Telles e Caio Fernando Abreu que frequentava as listas de best-sellers”, comenta Paiva. Mas a crise da indústria cultural serve apenas de moldura ao enredo, centrado nos conflitos de um escritor em crise (o parlapatão Raul Barretto), que recebe a visita de uma suposta filha (Anna Cecília Junqueira).

Na versão original, o protagonista era um remanescente dos hippies. E a filha adolescente, Cacau, uma típica representante dos punks. Passados mais de 15 anos, o dramaturgo sinaliza algumas atualizações em sua revisita ao texto. “Hoje, esse escritor de meia-idade não seria mais um antigo hippie, e sim um cara da minha geração. E a menina ficou parecendo mais fútil, porque os jovens de hoje são assim”, diz o autor. Também ganhou fôlego o personagem de um editor, convocado para pressionar o escritor por um novo livro. Em essência, porém, o cerne da trama foi preservado e traz à tona “uma história de sedução”, como o próprio Paiva gosta de definir.

Sem respostas. Ao espectador, são escassas as pistas oferecidas. Insinua-se um incesto. Pouco se sabe, contudo, da veracidade do discurso defendido pela jovem. Ela pode ser, de fato, filha do escritor. Como também não seria exagero supor que se trata de uma fã interessada em conhecer a intimidade de seu ídolo ou ainda de uma impostora contratada pela editora para demovê-lo de seu estado de torpor criativo.

O Predador é a segunda peça do autor de Feliz Ano Velho. Mas lá já estavam sinalizadas questões, como a do embate com o outro, que permeariam a dramaturgia das obras que vieram a seguir. É o caso de No Retrovisor (2002), em que narrava o acerto de contas de dois atores alternativos enquadrados pelo sistema, e da recente A Noite Mais Fria do Ano (2009), na qual examinava as relações amorosas contemporâneas em uma metrópole.

Com A Noite Mais Fria do Ano, Paiva lançou-se como diretor. Posto que volta a ocupar agora e do qual, garante, não pretende se afastar mais. Para este ano, o dramaturgo planeja encenar pela primeira vez um texto que não seja de sua lavra, a peça alemã Deus É Um DJ. “Quando estou na sala de ensaio fico mais diretor do que autor: deixo os atores interferirem, mudo o texto, corto tudo aquilo que parece excesso”, observa ele. “Acho que descobri que gosto mais de dirigir do que de escrever.”

 

FOLHA [ILUSTRADA]:

 

Rubens Paiva retrata conflitos de idade

Escrita nos anos 90, peça “O Predador Entra na Sala” mostra relação entre uma jovem e um velho roqueiro

Texto, que nunca havia sido montado, estreia no Espaço Parlapatões com Raul Barretto e Anna Cecília Junqueira

GUSTAVO FIORATTI

COLABORAÇÃO PARA A FOLHA

Entre os anos de 1994 e 1995, o escritor Marcelo Rubens Paiva escreveu um texto para ser protagonizado pela atriz Luciana Vendramini. O projeto nunca foi para a frente e a peça “O Predador Entra na Sala” deixa a gaveta somente agora -estreia hoje no Espaço Parlapatões.

No lugar de Vendramini, quem vive a protagonista é Anna Cecília Junqueira, que trabalhou com o Centro de Pesquisa Teatral de Antunes Filho e fez a peça “O Ensaio”, com o grupo Tapa.

A atriz divide o palco com Raul Barretto, parlapatão que volta a fazer um drama. A diferença de idade entre os personagens -ele tem o suficiente para ser pai dela- abastece o conflito. Barretto interpreta um escritor famoso que chega à meia-idade viciado em sites de bate-papo.

Junqueira faz uma menina que aparece do nada dizendo ser filha dele -“resultado” de uma transa casual.

A possibilidade de que a jovem intrusa esteja mentindo cresce à medida que ela tenta seduzi-lo, com a malícia de uma Lolita profissional. Acuado, cabe a ele o papel mais frágil. Pertence mais a ela o título -“predador”.

Paiva, 51, conta que, antes de passar por uma reescrita, a figura desse escritor pendia para um tipo hippie. A principal atualização recai sobre a caracterização dele, que agora é um velho roqueiro.

“Os caras que hoje têm a minha idade foram todos punk”, afirma o dramaturgo, que também dirige a peça.

A crise de uma identidade masculina frente ao envelhecimento é tema comum entre compadres seus. Vários deles frequentam a praça Roosevelt e encenam ali suas peças. Mário Bortolotto, por exemplo, há pouco apresentou “Música para Ninar Dinossauros”, outro libelo à “maturidade” da boemia.

Paiva cita o dramaturgo antes de suscitar um velho lema punk que inspirou a geração: “Faça você mesmo”.

 

 

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