parar e perceber

parar e perceber

Marcelo Rubens Paiva

31 Julho 2012 | 12h26

 

O que faz desenhado numa calçada no começo da Avenida Paulista o espaço ZONA DE PERCEPÇÃO?

Intervenção urbana de algum artista ou militante que propõe ao pedestre alguns minutos de reflexão?

Parei assim que o vi e, claro, me instalei sobre ele.

E percebi.

A espaçosa, imponente, rica avenida à minha frente, palco das grandes manifestações, das de respeito à diversidade como a de professores em greve, das comemorações do campeonato à do Réveillon, da Parada Gay à Corrida de São Silvestre, da Marcha da Maconha e a do Sem-Teto.

É na Paulista que que todos preferem manifestar as injustiças, sua revolta, alegria e ideal de vida.

Não sei se percebi o que a zona me propôs.

Ou talvez quisesse apenas me provocar a dar uma pausa na maratona de pedestre urbano.

O que importa é que gostei de ser provocado.

E de perceber.

Ver a Paulista é como ver um quadro. Há tantas interpretações…

+++

Outro dia contei que o pior conselho que já me deram foi: “Faça o que o seu coração manda”.

Nunca consegui ouvi-lo.

Parado em frente ao espelho, olhando o vazio, no banho, na natação, tentei escutá-lo. Nada.

Me diz, coração, o que você quer? Silêncio.

Meu coração não manda nada.

Já o cérebro…

Umas leitoras platônicas ficaram revoltadas. Talvez sejam as que aconselham “faça o que o seu coração manda” a um amigo em crise.

Um sujeito brincou comigo: “Nem com estetoscópio?”

Nem.

Meu coração só bate, não fala.

Invejo aqueles que conseguem tomar decisões escutando o coração.

Dar atenção ao cérebro é problemático. Ele vive em tempestade, com pensamentos contraditórios, desejos inexplicáveis, vítima do inconsciente e, pior, do coletivo, numa luta desigual entre vontade e contra vontade, querer e poder, instinto e razão, certo e errado.

Seria tão melhor levar a vida pelo coração.

Ou, melhor ainda, pelo fígado.

“Faça o que o seu fígado manda…”

Seria um baita conselho.

Tem razão, bora tomar umas e buscar uma resposta nos mistérios da noite. Quem sabe o fígado encontra a luz.