paradoxo em ai se eu te pego

paradoxo em ai se eu te pego

Marcelo Rubens Paiva

14 de março de 2012 | 11h46

Análise literária da música AI SE EU TE PEGO, pelo professor Edmilson Borret.

Já que professor de literatura sou, dediquei alguns minutos do meu
precioso tempo para me debruçar sobre a letra desse “fenômeno” de
crítica e público que assola as rádios e tv’s, não só do Brasil, mas
também do mundo: “Ai, se eu te pego”, desse grande artista chamado
Michel Teló.

Uma letra de música tão profunda, filosófica e poética como essa
merece, sem sombra de dúvida, uma análise literária mais esmiuçada…
Então vamos lá!

“Delícia, delícia
Assim você me mata”

Nos versos acima, nota-se de imediato que o eu lírico expressa
metaforicamente seu deleite sexual, chegando mesmo – pode-se dizer – a
um estado de clímax sexual, um orgasmo.

Entretanto, à medida que
avançamos na leitura da letra da música, percebemos logo no verso
seguinte uma ideia parodoxal que nos leva a constatar que talvez o eu
lírico, através de um eufemismo muito bem elaborado, aponte para uma
das práticas difundidas na tradição literária ocidental,
principalmente a partir do Romantismo. Observem o verso:

“Ai se eu te pego, ai ai se eu te pego”

A anáfora presente nesse verso, com a repetição da interjeição “ai”,
mais uma vez denota a ideia de deleite, de clímax sexual.

Entretanto,
através do papel hipotético conferido pela conjunção condicional “se”,
percebe-se que o eu lírico não chegou, de fato, a um enlace, a uma
conjunção carnal com o objeto de seu desejo: o “ai se eu te pego”
significando algo como “ai, como eu gostaria de te pegar” ou “ai, se eu
pudesse te pegar” (levando-se em consideração também o neologismo já
absorvida pela linguagem coloquial quando ele usa o verbo “pegar” para
significar o ato sexual).

Ou seja: se, nos dois primeiros versos, o eu lírico expressa seu
deleite, seu clímax sexual, seu orgasmo; mas, logo imediatamente, nos
dá dicas de que o enlace sexual não ocorreu de fato, somos
forçosamente levados a considerar que o eu lírico é…

UM ONANISTA DE MARCA MAIOR !

(Edmilson Borret)

 

Concordo com o professor.

A personagem foco do narrador já é delícia antes de ser pega.

Ou o narrador é mágico e prevê o futuro com exatidão, ou é um embuste que vive nas nuvens do platonismo neurótico.

ps> Apenas ressaltar que o professor usou outra palavra no lugar de ONANISTA.

 

+++

 

Eis a carta que o presidente do bloco ACADÊMICOS DO BAIXO AUGUSTA publicou na TRIP.

E, como porta-estandarte do mesmo, assino embaixo.

 

2010 - livre descendo a Rua Augusta

2011 - cercado pela polícia

 

 

Em fevereiro de 2010, uma semana antes do Carnaval, organizamos o bloco Acadêmicos do Baixo Augusta, aproximando da nossa festa mais popular a região mais divertida da cidade. A ideia nasceu de uma brincadeira entre amigos proprietários de clubes, bares e frequentadores da noite paulistana. Mais precisamente, foi no casamento do arquiteto Guillaume Sibaud e da jornalista Sandra Soares que, em meio a muitos amigos e rostos conhecidos, no auge da alegria e diversão, tivemos a ideia: vamos formar um bloco de Carnaval! Vamos dançar e cantar no meio da rua Augusta!

Naquele ano nosso ato foi anárquico, resolvemos sair pelas ruas sem avisar ninguém, afinal era uma brincadeira entre amigos que não traria grandes neuras para a cidade. Fizemos um esquenta no bar Sonique com um batuque, instalamos nosso estandarte feito por Zé Carratu na cadeira do nosso porta-estandarte Marcelo Rubens Paiva e saímos. Começamos pela rua Bela Cintra, descemos a rua Costa e tomamos a Augusta de assalto, atravessando no meio dos carros, cantando uma cidade libertária e feliz. O final do cortejo foi em frente ao Studio SP, onde parte da patota se aglomerou para uma festinha pós-bloco.

Antes de entrar para a festa, um batalhão da polícia militar chegou e procurou o responsável pela baderna. Como tinha sido eleito de brincadeira o presidente do bloco – e ostentava uma camisa “oficial”, com uma caveira de Ray-Ban e a palavra “presidente”, foi para mim que o sargento deu voz de prisão. Cheguei a ficar uns três minutos dentro do chiqueirinho da polícia, até que um bando de advogados da região, junto com a doutora Mara Natacci, também uma das figuras centrais do bloco, interviesse impedindo que me levassem para o DP.

A baderna a que o sargento se referia foi parar uma faixa de trânsito da rua Augusta, em pleno final de tarde de domingo. O sacrilégio que quase me fez ser preso foi sair cantando pela rua da cidade que nunca dorme, em plena época de Carnaval.

De lá pra cá, o bloco do Baixo Augusta cresceu bastante, foi contratado para animar festas carnavalescas de gala, saiu com destaque em jornais, sites e revistas – sendo diversas vezes listado entre as melhores coisas para fazer em São Paulo –, chegou aos trending topics do Twitter e até teve seu hino entoado em pleno Jardim Botânico no auge do Carnaval carioca pelo bloco Último Gole – que reúne artistas e boêmios da Cidade Maravilhosa que conheceram as maravilhas do Baixo.

A única coisa que não mudou uma vírgula foi a conturbada relação com o poder público: em 2011 fomos esculachados pela CET, que nos obrigou a “pagar pela baderna do ano anterior” descendo a Consolação e não a Augusta. E este ano, como muito já se falou, tivemos que locar um estacionamento na esquina da Augusta com a rua Dona Antônia de Queirós para o bloco acontecer, pois novamente a mesma CET se negou a ajudar e participar “dessa pouca vergonha carnavalesca”.

Nossa brincadeira entre amigos virou uma via crucis que eu e meu chapa Alê Natacci, dono do Sonique, temos que enfrentar todo ano.

São Paulo careta

São Paulo não trata bem os cidadãos que acreditam em uma cidade divertida e criativa. São Paulo não olha pro lado para ver os exemplos de Rio de Janeiro, Recife e Salvador, que têm suas economias aquecidas com a folia de rua, muito mais do que com qualquer festa oficial e paga que aconteça nos sambódromos da vida. São Paulo é careta demais. Demais. E já passou de todos os limites.

Sonho em ver outro tipo de governo e de visão para a minha querida São Paulo. Vai ser muito mais fácil colocar o nosso bloco e os blocos de tantos outros na rua em uma cidade mais cabeça aberta que esta que está aí.

*Aê Youssef, 36, é fundador e sócio do Studio SP e do Studio RJ, um dos fundadores do site Overmundo e presidente do bloco Acadêmicos do Baixo Augusta. Foi coordenador de Juventude da prefeitura de SP (2001-04). E-mail: ayoussef@trip.com.br

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