papo de quiosque

papo de quiosque

Marcelo Rubens Paiva

19 de agosto de 2011 | 01h10

Sueli, quiosqueira, conversa com Hugo, namorado do filho dela, Edu, diante das areias e mar da praia de Copacabana como cenário, a Princesinha do Mar.

“O sonho da minha vida é ver meu filho se casar.”

“Foi aprovada agora a união estável entre pessoas do mesmo sexo. Não chega a ser um casamento, mas é um gesto simbólico”, responde Hugo, advogado, baseado na recente e polêmica decisão do STF.

“E você topa?”

É assim que o camarada pede para a sogra o filho em casamento.

Romantismo zero.

A cena do “casamento” foi gravada no domingo.

Não se sabe se vai ao ar hoje.

Nenhum glamour, os noivos não estão de terno, nem de branco, assinam o documento e não se beijam, o tal horripilante beijo gay, abraçam-se rapidamente.

Haveria um bolo com a cara dos 2.

Na última hora, decidiram tirar a cara dos 2, ficou só o bolo.

Hj, dia do último capítulo da novela, veremos se a cena irá ao ar e como, e qual o desprendimento da emissora à audiência mais sensível ao tema que dominou o folhetim, às vezes de uma maneira chatíssima, como uma cartilha da militância, outras vezes didática em excesso.

Não houve o beijo gay global.

E que diferença faz?

Os gays continuarão a fazer parte do dia a dia das grandes cidades.

No metrô, de mãos dadas com seus parceiros ou parceiras.

Nos cinemas, shoppings, clubes, calçadas.

Trabalhando em aeroportos, redações de jornais, supermercados, bancos, administração pública, hospitais, em serviços essenciais ou não.

Em serviços essenciais ou não. Público ou privado.

Namorando ou azarando.

Alegres ou deprimidos.

Escondidos ou assumidos.

E agora em cartórios, assinando contratos de união.

Anualmente organizarão a parada que junta milhões.

Esperamos que alguns sociopatas parem de agredi-los.

Ou que sejam presos.

E que a homofobia seja criminalizada.

Independentemente da ousadia ou da falta dela na teledramaturgia, a vida continua.

Queira ou não a intolerância.

 

+++

 

A lojinha de sucos é uma instituição carioca.

Há décadas.

Com frutas amontoadas em prateleiras.

Como um totem da exuberância da flora tropical.

Com o tempo, passaram a vender sanduíches.

Naturais ou junk ou trash food.

Açaí entrou para o cardápio.

Sucos clorofilados também.

O cliente às vezes monta o próprio sanduíche.

Em cada quadra, há uma.

BIBI SUCOS, BIBI LANCHES, B SUCOS, BIG POLIS, POLIS SUCOS, BALADA…

Formam redes que servem em outros bairros.

Fazem entregas pelo telefone; entregadores de bicicleta.

Todo carioca tem 1 ímã de geladeira com o número de uma delas.

E o que mais encanta são seus balconistas gritarem o pedido, e em seguida ele aparecer pela janelinha da cozinha.

São vozes potente, em barítono ou tenor.

Sotaque forte, códigos:

“Coooonde sem açúcar no papel”

É o meu suco favorito.

É fruta do conde, ou pinha, sem açúcar e para viagem.

É um tumulto que por incrível que pareça dá certo.

Um pedido atrás do outro.

Gritam.

Na cozinha apertada, escutam, se acotovelam.

Não os vemos preparando.

Os gritos atravessam as frutas.

E sucos e sanduíches aparecem.

“No papel” é o código em todas as lanchonetes de “para viagem”.

Pagamos depois.

Anunciamos o que consumimos.

E costumam fechar tarde, depois da maioria dos estabelecimentos.

No entanto, a modernidade chegou.

Aqui e ali as lanchonetes ganharam computadores, telas em que são digitados os pedidos.

Quem não se adaptou está em reforma.

 

 

 

 

 

Não se escutam mais gritos.

Organizadamente clean, sem graça.

Ah…

Vai fazer falta a companhia dos balconistas que, ao me verem se aproximar, já mandam:

“Coooonde sem açúcar no papel”

Alguém digitará o pedido, e o silêncio perdurará até a entrega.

Modernidade não tem charme.

Praticidade não tem graça.

 

 

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências: