paparazzi de nós mesmos

paparazzi de nós mesmos

Marcelo Rubens Paiva

10 de março de 2013 | 17h36

 

 

 

Já contou quantas vezes desejou voltar ao passado em sonos perdidos, bebedeiras, ou sonos perdidos por causa de bebedeiras?

Para rever parentes, revisitar locais hoje degradados, sentir o fedor de antigamente, saudades que se confundem com vontade de reescrever a própria história, repensar em decisões, arrependimentos, chance de vislumbrar como teria sido se aquilo ou aquele não descarrilasse, dar mais importância a coisas que, por causa da imaturidade e inexperiência, passaram batidas, e, quem sabe, refazer histórias de amor que foram interrompidas porque não mandou aquela carta, falou o que deveria ter guardado, se calou, telefonou na hora errada, não insistiu quando desconfiavam da sua incerteza, passou do limite, duvidou de quem era inocente, ouviu a razão, não o coração, ou o contrário, fingiu não ver, ignorou sinais, não entendeu códigos, mensagens, não acompanhou mudanças, alternâncias, não compactuou, não emprestou o ombro, não parou para ouvir, não enxugou lágrimas, oscilou, se omitiu, não assumiu, admitiu nem reprimiu, abraçou, nem escondeu direito, presunçoso, pretensioso, precavido, não viu o que estava desfocado.

Você voltaria mesmo ao passado?

Não tinham inventado Twitter, Face, Instagram.

Redes sociais eram redes compartilhadas em barcos que subiam o São Francisco e o Amazonas.

Esquece celular, GPS, código de barras, Google, imã de geladeira.

Postar era enviar um cartão-postal com garranchos, resumido em dois parágrafos à caneta a viagem para um amigo.

Seria bom rever cachos nas garotas, rugas nas coroas, acampar em praias desertas e despoluídas, receber delivery na cozinha, não precisar descer para pegar uma pizza. Mas como fotografar e postar a sobremesa, marcar um evento com a rapaziada das antigas, conferir como a ex engordou, e seu novo namorado não tem nada a ver com você, protestar contra o presidente do Senado, a hidroelétrica, o massacre de índios, checar a grafia correta da capital da Coreia do Norte e do seu líder supremo?

Se hoje somos paparazzi de nós mesmos, como lidaríamos com a vida sem exibição do nosso melhor perfil, panorama das nossas férias, e narraríamos nossas preferências e indignações não para um, mas para milhares?

Imagino que um sujeito de hoje sentiria preso no anonimato de ontem.

E aflição pelo silêncio da sua voz, invisibilidade das suas imagens e do registro da rotina.

Sofreria por voltar à banalidade, ao comum.

Até aos poucos voltar à paz da vida privada, depois de colocar a Barsa herdada na ordem alfabética, ao lado do Guia de Ruas e Almanaque Abril comprados na banca. Poderia então relaxar, escrever cartas, mandar um romântico telegrama fonado pelo 135, marcar a hora de acordar pelo serviço de despertador automático 134. Sem nenhuma pressa, tiraria a poeira grudada no diamante da agulha do toca-discos e abriria um bom livro, que cheiraria mofo e memória.

 

 

Voltar ao passado foi o plot de dois filmes, De Volta Para O Futuro (1985) e Peggy Sue – Seu Passado Espera (1986), de dois cineastas da mesma turma, Spielberg (como produtor) e Coppola, que abriram as gavetas da reprimida nostalgia e revisitaram tempos de escola, para dar uma pausa no pessimismo da Era Reagan, cuja doutrina, “a paz através da força”, alimentou tensões na Guerra Fria, e na expansão e intolerância do fundamentalismo religioso, desordem ambiental, avanço da cocaína e, por fim, surgimento da Aids como punição a uma geração acusada de “desvairada”.

Eles homenagearam, entre outras coisas, o próprio cinema, já que as salas se transformavam em pulgueiros para o exercício do onanismo, culpa do novo satã, a televisão, retratada como o primeiro degrau do inferno em Poltergeist – O Fenômeno, também produzido por Spielberg, e Videodrome, de Cronenberg.

Peggy Sue (Kathleen Turner), de 43 anos, recém-separada, desmaia durante a festinha de 1985 de confraternização da escola. Acorda em 1960, quando começava a namorar o futuro marido Charlie Bodell (Nicolas Cage). De mão beijada, a oportunidade de remover o calo que sempre atrapalhou a relação: a frustração dele por não ter virado estrela do rock. Peggy mata as saudades dos avôs, transa com o poeta beat da escola, sugere a um nerd o investimento em roupas de ginástica e convence o namorado a desistir do estilo musical- quarteto vocal de soul-, cuja invasão inglesa iminente iria golpear.

Em De Volta Para o Futuro, que não sei por que não se chama De Volta ao Presente, ou Volta ao Passado, você se lembra: Marty McFly (Michael J. Fox), skatista que, em 1985, é amigo de Dr. Brown, cientista maluco, volta ao passado numa máquina do tempo, um DMC-12 fabricado na Irlanda do Norte pela DeLorean Motor Company e que ficou famoso por causa do filme. Reencontra a mãe, Lorraine, em 1955, às vésperas do baile em que ela beijou a vítima de bullying, George, o pai.

O problema é que, num dilema freudiano, o filho passa a ser objeto de desejo da mãe, que o chama de Calvin por causa da marca Calvin Klein bordada na sua cueca- num tempo em que as pessoas bordavam o nome nas roupas, ou melhor, as avós das pessoas-, considerado o merchandising mais bem bolado da época.

Algumas piadas ficaram eternizadas. Como quando Marty pede uma Pepsi Diet, e o balconista diz que não é médico, então corrige e pede uma Pepsi Free. “Você quer beber um refrigerante e não pagar?”. Ou quando diz vir do tempo em que Ronald Reagan é presidente. “Jerry Lewis é o vice?”, escuta.

McFly inventa o skate e o rock. Ele e Peggy Sue voltaram ao passado acidentalmente. Aproveitaram para mexer pauzinhos e corrigir deslizes amorosos que repercutiriam no futuro (presente). Tentaram reascender a chama do amor que apagava. Para os dois, ele não acaba por si. Acabamos com ele, induzidos por elementos que contaminam a sua pureza. O marido de Peggy pôde viver sem o trauma de ter o sonho juvenil frustrado. O pai de McFly deixou de ser um “looser” por ter reagido ao bullying no passado. E sua mãe continuou magra. Não encontrou no copo de uísque o ouvido que faltara.

 

 

Rolou uma controvérsia sobre a data do futuro que Dr. Brown visitou no final do filme, que sugere o nome De Volta Para o Futuro. Ele viaja para 21 de outubro de 2015 e volta. Ao invés do plutônio, o combustível do DeLorean passou a ser lixo orgânico. Aparece daqui a dois anos. Atravessará a barreira do tempo graças ao, quem diria, biocombustível.

Vai bombar no Twitter.

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