Padilha versus Bolsomoro

Padilha versus Bolsomoro

Marcelo Rubens Paiva

30 de janeiro de 2019 | 10h18

Um ícone do antipetismo, o cineasta José Padilha, que se diz amigo de Paulo Guedes, continua convicto, mas começa a duvidar das intenções do seu antes herói, Sérgio Moro.

Na série O Mecanismo, Padilha não economizou ao demonizar os personagens dos ex-presidentes Lula e Dilma. Fez deles caricaturas planas de vilões tolos, deslumbrados, apesar da série, que considero muito boa, tratar com inteligência do mecanismo que gera a corrupção.

Escrita por Elena Soárez, tinha mais problemas de direção e encomenda (pegar pesado contra Lula) do que de roteiro em si.

No maniqueísmo político, se o PT, sob os mandos de Lula, era o mal, o bem era aquele que o caçou implacavelmente, o juiz de Curitiba, e a PF.

Mas seria o ministro da Justiça um anti-herói?

Não são poucos os que viveram a ilusão de que os problemas brasileiros eram de responsabilidade apenas de uma “facção ideológica”, a esquerda, e não do conjunto da macropolítica.

Ou o que chamou de esquerda: o PT, que nasceu de esquerda, mas no poder foi PT, sob a máxima maquiavelista dos fins justificarem os meios, partido que traiu sua essência e fez alianças com o impensável.

Padilha lembrou ontem, na Folha de S. Paulo, na coluna “Sergio Bolsomoro”, das suspeitas contra Flavio Bolsonaro e observou que o novo governo começou “carimbado por suspeitas gravíssimas de corrupção”.

Livrou a cara do presidente “eleito para salvar os brasileiros da corrupção (real) de PT/PMDB”, sem definir exatamente que significa “real”.

Então, a mira da sua crítica vai na direção de Moro.

Pergunta se o novo ministro da Justiça, “ungido pela eficiente luta contra a corrupção empreendida no âmbito da Operação Lava Jato”, vai ficar assistindo a tudo sem fazer nada.

Lembrou Eugênio Gudin, economista que controlou a crise econômica gerada no tumultuoso fim do governo Getúlio Vargas, mas pediu as contas quando percebeu que JK acelerou os gastos públicos, não os controlou (o que gerou inflação), chamando-o de “playboy” (uma bobagem, já que Juscelino nasceu na miséria, estudou graças a padres, foi médico voluntário no front de batalha da Revolução Constitucionalista de 1932 e ralou muito na política).

“Sergio Moro vai flexibilizar as suas posições éticas para ficar em um governo que já nasce maculado?”

Padilha finaliza lembrando que, se o ministro capitular em suas convicções éticas, quando elas se aproximam da família Bolsonaro, pode ficar conhecido como Bolsomoro.

Será o vilão da próxima (e já anunciada última) temporada na Netflix de O Mecanismo?

Tendências: