Padilha se redime em filme

Padilha se redime em filme

Marcelo Rubens Paiva

20 Abril 2018 | 12h07

 

O diretor José Padilha continua obcecado na sua luta para demonizar as esquerdas.

No letreiro inicial, totalmente desnecessário, do filme que acaba de estrear, 7 Dias em Entebbe, aparece “grupos de esquerda ajudam os palestinos que lutam contra israelenses, chamados de terroristas por Israel.”

Essa simplificação de rede social destoa da qualidade do filme.

Lembra o absurdo da polêmica fala inicial de O Mecanismo, que afirma que o maior problema do Brasil é a corrupção, não a desigualdade social, o sistema educacional, a reforma política, a herança escravocrata, ditatorial.

Desinformação de roteiristas que se tornam especialistas em técnicas de roteiro (estilo Syd Field e Robert McKee), e que encostam a bibliografia fundamental de Euclides da Cunha, Gilberto Freire, Caio Prado, Darcy Ribeiro, Sérgio Buarque, Florestan Fernandes…

O mais impreciso é que a esquerda estava no poder também em Israel.

O PCF (Partido Comunista Francês) e o PCI (Italiano) formavam a segunda força democrática em seus países.

A esquerda derrubava as ditaduras de Salazar (Portugal) e Franco (Espanha).

E Jimmy Carter, em campanha para ser eleito presidente americano exatamente no ano do sequestro do avião, 1976, tinha uma plataforma mais à esquerda e combatia as duras ditaduras Latino Americanas de direita.

Os “grupos de esquerda” em questão eram células minúsculas da extrema-esquerda, herdeiros do OLAS e a tese do “foquismo” (Revolução Cubana) e do maio de 68, que optaram pela luta armada num mundo que se democratizava: Brigadas Vermelhas (Itália), ETA (Espanha), IRA (UK), Baader-Meinhof (Alemanha), Exército Vermelho (Japão), Sendero Luminoso (Peru), entre tantos.

A confusão ideológica, a fragmentação, encontrou uma causa única, a da Frente Popular para a Libertação da Palestina.

E encontrou apoio do mundo árabe.

Mas 7 Dias em Entebe consegue, depois, contradizer o letreiro e entrar no debate contemporâneo da polarização política mundial.

Padilha é um tremendo diretor.

Criou ambientes e cenas fantásticas.

Retomou uma história já (bem) contada num filme isento de 1977, Resgate Fantástico, que ganhou Globo de Ouro de Melhor Filme Feito para TV.

Orçado em US$ 25 milhões, com música do nosso Rodrigo Amarante, o filme prende, cria arcos dramáticos em muitos personagens, mostra uma disputa de poder que mudou a política mundial entre aqueles que buscaram acordos de paz com os palestinos, como Yitzhak Rabin e Simon Perez, e o posterior radicalismo de direita de Benjamin “Bibi” Netanyahu, cujo irmão foi morto na operação em Entebbe.

Mostrou o isolamento político dos grupos que optaram pelo terror.

Deu voz a palestinos e israelenses.

Humanizou jovens terroristas.

Dessa vez, não tomou partido; apesar de Rosamund Pike, a terrorista alemã, parecer uma doidona drogada.