Oscar 2014 começa e termina em pizza

Oscar 2014 começa e termina em pizza

Marcelo Rubens Paiva

03 de março de 2014 | 12h51

 

“The Oscar goes to selfie…”

Parecia uma das noites mais sem graça de todas as cerimônias.

Ellen DeGeneres demorava para engatar; não perdeu a oportunidade de fazer piadas de duplo sentido meio sem graça.

Até encontrar um tom que humanizou os semideuses, os atores de Hollywood: tirou fotos na plateia, pediu uma pizza e distribuiu fatias, com a ajuda de Brad Pitt, com aqueles pratinhos de plástico com que nós, mortais, estamos habituados.

Vimos Harrison Ford e Scorsese se lambuzarem com fome de verdade.

Sem habilidade para o humor, ela se saiu bem circulando pela plateia.

 

 

A cerimônia é longa. Longuíssima. Com momentos chatos, chatíssimos [prêmio com direito a discurso para melhor animação curta-metragem ou documentário curta-metragem no horário nobre?!].

Lá pela 1h da matina [horário de Brasília] ainda nada dos prêmios principais.

Descontando o festival vergonha alheia de botox das veteranas e músicas Padrão Oscar, que nos obrigam a baixar o volume do televisor, para não acordar a vizinhança, a premiação foi justa.

12 Anos de Escravidão [de Steve McQueen] levou o principal Oscar.

Apesar da sua sinopse cometer uma grafe inúmeras vezes: “O filme que retrata um homem livre que foi sequestrado e escravizado.”

Ora, os outros milhões de escravos também não era homens livres na África, que foram sequestrados, transportados para as Américas e escravizados?

Sou fã do McQueen. Torci por ele.

Como torci pela queniana e melhor atriz coadjuvante, Lupita Nyong’o, que bomba nas revistas de moda e tem sido considerada uma das mulheres mais elegantes da década.

Gravidade ganhou todos os prêmios técnicos, como esperado [efeitos visuais, montagem, fotografia, edição de som e mixagem de som.]

Cate Blanchett levou o prêmio de melhor atriz por Blue Jasmine.

Sinal de que Hollywood vê a obra sem levar em conta o caráter do autor. OK. Como no passado homenageou Eliza Kazan, cineasta genial acusado de entregar amigos durante o macarthismo.

De Clube de Compras Dallas, Matthew McConaughey levou o prêmio de melhor ator, e Jared Leto, coadjuvante. Justíssimo.

Melhor roteiro original, Ela. Sei não. Acho o filme deprê demais. Talvez tenham premiado Spike Jonze pelo conjunto da obra.

A Grande Beleza, de Paolo Sorrentino, ganhou melhor filme estrangeiro. Torci para o dinamarquês A Caça.

O filmaço O Grande Gatsby, de Baz Luhrmann, ganhou apenas melhor figurino e melhor direção de arte. Tá bom.

E de nada adiantou a força que Pharrell Williams e U2 deram para suas músicas. Ganhou a terrível. Ganhou Let it Go, de Frozen [de Kristen Anderson-Lopez e Robert Lopez].

Não deu tempo para lembrar a morte de Alain Resnais.

Mas o documentarista brasileiro Eduardo Coutinho foi homenageado.

Oscar não quer dizer muita coisa.

A premiação, como mostrou o CADERNO 2 de domingo, não vê o cinema como um processo evolutivo, mas como uma obra que reflete as contradições do momento.

O Oscar olha mais para o carpete do que para o horizonte, como a maioria dos prêmios atualmente.

FILMES QUE fizeram história, como Reds, Pulp Fiction, Bons Companheiros e especialmente Cidadão Kane, foram esnobados por filmes que… Quais mesmo?

Veja as injustiças do passado, apontadas pelos meus colegas do ESTADÃO:

Como Era Verde o Meu Vale X Cidadão Kane (1942)

Pense rápido: você consegue lembrar do diretor ou de algum ator de Como Era Verde o Meu Vale, drama sobre uma família de mineiros escoceses que luta para sobreviver na virada do século? Bem, o diretor John Ford e o ator coadjuvante Donald Crisp venceriam dois dos cinco Oscars recebidos pelo filme. Mas, daquela noite, o que ficou na memória foi a esnobada da Academia em Cidadão Kane, que ficou apenas com um Oscar – o de melhor roteiro original.

Rocky X Taxi Driver (1977)

Que ano foi 1976 para o cinema… A história de boxe de Sylvester Stallone bateu filmes que se tornariam icônicos, incluindo Taxi Driver, Rede de Intrigas e Todos os Homens do Presidente. Taxi Driver, de Martin Scorsese, aliás, sairia da premiação com apenas uma estatueta, apesar da interpretação de dois grandes talentos ainda em formação: Robert De Niro e Jodie Foster.

Gente como a Gente X Touro Indomável (1981)

Esta foi a segunda derrota inacreditável de Martin Scorsese no Oscar, com seu filme ficando atrás da história de uma família disfuncional, dirigida por Robert Redford. Mas, tudo bem, Touro Indomável entraria para a história como um dos grandes de Hollywood – e um dos maiores filmes sobre boxe já feitos.

Carruagens de Fogo X Reds (1982)

Foi uma corrida feita sob medida para Carruagens de Fogo: um filme pequeno lutando contra o favorito Reds, que havia recebido 12 indicações. No final das contas, Carruagens ficou com quatro estatuetas, incluindo uma para a trilha de Vangelis, e Reds, com três, incluindo o de direção, para Warren Beatty.

Shakespeare Apaixonado X O Resgate do Soldado Ryan (1996)

A direção de Steven Spielberg, a atuação de Tom Hanks, o tema patriótico – O Resgate do Soldado Ryan tinha tudo para dar uma lavada na edição daquele ano do Oscar. Mas eles de certo não contavam com as estratégias de marketing do produtor Harvey Weinstein, que levou o filme sobre Shakespeare à vitória.

Forrest Gump X Pulp Fiction (1995)

Repetiu-se o destino de Cidadão Kane, Pulp Fiction, como o filme de Orson Welles, era admirado pela crítica e tornou-se muito rapidamente alvo de adoração. Mas ficou apenas com uma estatueta – a de roteiro original –, enquanto o longa sobre o homem simples que se torna testemunha da história dos EUA deu o Oscar a Tom Hanks e ao diretor Robert Zemeckis.

Dança com Lobos X Os Bons Companheiros (1991)

Dança ficou com sete estatuetas, incluindo melhor filme e melhor diretor para Kevin Costner, e fez de Martin Scorsese a noiva abandonada definitiva da história da premiação. Os Bons Companheiros ficou apenas com o prêmio de ator coadjuvante, para Joe Pesci.

O Paciente Inglês X Fargo (1997)

Especialistas ficaram de queixos caídos quando o drama sobre a Segunda Guerra desbancou a história policial dos irmãos Coen, que logo se tornaria um clássico. O filme de Anthony Minghella recebeu nove Oscars e Fargo ficou só com o prêmio de atriz (Frances McDormand) e roteiro (Joel e Ethan Coen).

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